O
espelho mágico
Com a família à mesa, jantando, a menina
não foi sentar-se. Pegou um palito de batatinha frita e, mastigando-o de boca
aberta, disse que precisava dar um jeito. Batendo a mãozinha engordurada na
parede, a pequena notável reforçou, que daria jeito nisso.
ꟷ Nisso o quê, filhota?
Quando era para anunciar o que julgava
importantíssimo, a menina tirava fotos de si mesma. Fotos dela fazendo
biquinho, não mastigando de boca aberta, ou chupando refrigerante por
canudinho, pois isso era coisa de gente velha, gente do quinto ano.
Nesta ocasião, com a parede ao fundo,
ela disse que havia de fazer o que a professora tinha pedido.
ꟷ Fotografar parede é seu dever de casa?
Era dever de casa, sim, pois a
professora disse que as famílias que tinham quadros na parede eram mais felizes
que aquela gente que não se importava com a própria história.
Pegando outro palito, mastigava-o
enquanto falava que as pessoas não punham quadros de pintura, punham um quadro
pra contar a vida que viviam.
Mais uma batatinha; para que a história
da família fosse contada de modo divertido seria bom usar desenhos, fotos, até frases
que a gente ache bom de ter no quadro.
Batendo o indicador no tampo da mesa, não
era mais a menina, era a própria professora que falava que não era para poluir
o quadro com bobagem de gente boba.
A mãe sabia falar sorrindo:
ꟷ Hoje acordei bem tarde? O Rex comeu um
passarinho? A gente não coloca o que quiser no quadro?
A professora disse que a gente pode pôr fotos,
desenhos, lembretes pra não esquecer o que é importante. Só o que seja
importante mesmo, não é pra pôr qualquer coisa à toa, qualquer bobagem.
A professora disse que importante é quando
tem dentista, é quando tem que levar o Rex tomar banho, é quando vai ter festa
de aniversário do papai e da mamãe. Principalmente, o quadro serve pra pôr as
frases famosas de quem todo mundo conhece.
ꟷ Que ideia excelente, filhota. Vamos,
sim, providenciar um quadro desses pra gente colocar seus desenhos e as nossas
fotos.
A menina correu buscar um retangulozinho
de sulfite no qual estava impresso “é preciso amar as pessoas como se não
houvesse amanhã”.
A mãe da menina ajudou-a com os ímãs,
abriu a porta da geladeira e mostrou o pudim de leite pra depois da janta.
A filha sentou-se à mesa sem largar o
celular, porque as frases não vinham do nada. Ela queria achar as frases de
gente importante que a professora disse que era muito conhecida. Ela disse que
não tem como a pessoa ser conhecida sem ter dito coisas importantes.
ꟷ Ponha o telefone na mesa, filhota.
Primeiro você come, depois a gente procura o que pôr na porta da geladeira.
A menina não queria usar a geladeira, pois
o quadro na parede iria ter mais espaço, que era pra caber tudo que queria pôr.
ꟷ Filhota, em vez de comprar feito,
vamos fazer o painel do nosso jeito, com a nossa cara. É pra ficar bem legal,
né?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de novembro de 2022.