Manhã
calma
A casa andava quieta.
Com a TV desligada, a sala estava
tranquila. Sem ninguém lavando o cabelo, o banheiro estava sossegado. Como os
gatos do vizinho não vieram miar à janela, a cozinha também estava agradável.
Eu não tinha do que reclamar, desfrutava
daquela paz. E desfrutar é gostoso quando nada há de anormal. Ficar deitado,
não me importo se no sofá ou no chão de terra, é bom demais.
Desfruto que nem ligo que os segundos
virem minutos.
Gosto tanto que nem dou pelota pra
imprudência de ficar a manhã lagarteando sob esse sol de quase verão.
Sim, sei que pinto a preguiça como um
idiota só sabe zoar dos fatos.
Transfigurado idiota, assobio aos
bem-te-vis. Eles voam embora, e vão pelo mundão ensolarado.
Como não sofro da alucinação de achar
que o sol na moringa possa curar-me da miopia, acredito, ao menos, que o corpo
esteja produzindo mais vitamina D enquanto fico largado no quintal.
Seria uma loucura, realmente, se achasse
que muito sol não há de torrar a cachola nem acelerar o envelhecimento da
cútis.
Digo mais: se não tenho como me
proteger, posso voltar pra dentro quando eu achar melhor.
Batem os sinos, anunciam que já se faz
hora, que é meio-dia.
Tenho que ir, sair do sol, ingerir mais
líquido. Preciso crer que vou ingerir água como quem bebe laranjada.
Eu sei que água tem que ser tomada ao
longo do dia, uns dois litros. Eu a bebo, não porque seja gostosa de beber, é
que os médicos dizem que a gente tem que beber dois litros ao longo do dia.
Não quero ficar doente.
Bobeira é achar-me lasso pelo excesso de
prazer?
Engraçado, quando não bebo a quantidade
certa de água, percebo que a máquina ferve. A cachola não bate bem. Os nervos
esquentam rápido. Fatal é negar-me água? Não me nego, não.
E esse sol na pele faz o trabalhador
querer mais uns minutinhos de ócio. E o vagabundo vem à tona, sobe à epiderme e
finge-se de pedra, que não rola mas não criará limo de jeito nenhum, pelo tanto
de sol.
Até cochilo. Acho que cochilo. E acho um
barato que eu até cochile no mormaço de quase meio-dia, pois os poros
transpiram de boa.
O idiota em mim que nem liga pra TV desligada, sei dele enquanto a mente não quer fechar a conta. Já o bobo não exige direitos, pratica-os sem subir nas tamancas nem rodar a baiana. Enquanto assobia, sobe, roda, salta, toma um tombo por desatenção às pedras do caminho.
Vai de bem consigo quem pensa sem exageros quando canta e dança e ri da
situação: a TV continua desligada.
Sim, dou bobeira. Não é só força de
expressão.
Bobo, rio porque digo que a vida é agora.
Rindo de mim, rio gostoso. E rio sem achar relevante escancarar o que sinto
enquanto rio.
Bobo, ficar deitado no quintal não trará
a maçã pra sua boca. Bobo, vá pegá-la. Sem lavá-la, a carne da maçã é coisa
boa. Bobo, coisa boa não se joga fora. Bobo não come talo nem semente, não é
tapado.
Não sendo idiota, só bobo, tomo cuidado
com as formigas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de novembro de 2022.
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