domingo, 13 de novembro de 2022

Nada pessoal

 

Nada pessoal

 

Nos dias em que penso que tudo vai de mal a pior, boto os fones e música puxa música até que me canso do azar.

Cansado, prefiro olhar o teto do quarto a espiar pela janela o pedaço do céu, porque nuvens nunca deixam de ser desafiadoras. Desafiado, o decifrador de vultos não abre os olhos. Desamparado, deixo os sons darem o fundo ao quadro, à paisagem o borrado dos pensamentos.

É óbvio!

Se as formas nebulosas se apresentassem menos efêmeras, muito ajudaria o aprofundamento no pitaco moral. Pois sim, minha mente tem limitações que modulam esse sujeitinho pouco afável, crítico arrogante. Como pressinto a precariedade do que sinto, autorizo quem pense que o mundo são névoas.

Pois especulo que a vida volátil é a realidade que a mim me encorpa no colchão acolhedor. Reflito ainda que desejo entender-me com a dor nos membros inferiores. Não titubeio quando as cãibras pegam no duro comigo deitado, eu ajo como posso: rejeito a dor.

Ao mudar de posição, proclamo-me outro.

Sim, tenho pra mim que a consciência é âncora a caraminholas que me impedem de naufragar em autopiedade. Sei que sou mais forte que a tentação de mergulhar no fastio.

Certo, julgo que sei dar resistência ao grão de areia nas entranhas da ostra. Não me defino letargo, ocioso e dado a fantasmagorias. Creio em mim como elo frágil, pois minha mente formiga enquanto avulta na areia o nome da amada.

Como a amada brota da praia, não se ergue estátua. Seu nome me diz que anseio ouvi-lo para que novamente haja vida.

Ainda que demore um pouco para compreender-me desperto nesse recanto de areia inalterada, não fico nervoso à toa.

Há quem pense que viro bicho quando me irritam, não viro. Irritado, aumentaria o volume. Não aguentaria muito. Ou abaixaria o som ou eu desligaria o aplicativo. Manteria o celular ligado. E manteria a ideia que me poupa dos irritantes: quero ouvir música.

Deixo os fones nos ouvidos. Quero ignorar quem se diverte comigo a ouvir música como se fosse uma solução.

Não fujo, sei que não há fuga. Se assobio e cantarolo, é pra manter a mente antenada. Ligada no entorno, mas serena.

Quando aporrinham a querer me convencer do contrário que penso, me fortaleço na paciência. Percebo que não vão me dar folga, enguiço. Travado na quietude forçada, não me envergonho de ser chamado de covarde. A covardia me protege do monstro que trago em mim.

Se arriscarei um conselho?

Caso não queira vir este cidadão pacato virado no siri, não me faça mudar de ideia sobre o que não tenho nenhuma intenção de acatar.

Se me vir convertido no oposto do pacato cidadão, fuja. Depois não reclame do destempero, pois não é boa coisa acordar a besta que sabe assobiar. Ficando, será problema seu tornar-se ouvinte desse péssimo assobiador desencantado.

Me assovio:

ꟷ Pessoa cordial, não tenho nada contra quem discorde, mas graça de general não é Gal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de novembro de 2022.

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