Nada
pessoal
Nos dias em que penso que tudo vai de
mal a pior, boto os fones e música puxa música até que me canso do azar.
Cansado, prefiro olhar o teto do quarto
a espiar pela janela o pedaço do céu, porque nuvens nunca deixam de ser desafiadoras.
Desafiado, o decifrador de vultos não abre os olhos. Desamparado, deixo os sons
darem o fundo ao quadro, à paisagem o borrado dos pensamentos.
É óbvio!
Se as formas nebulosas se apresentassem
menos efêmeras, muito ajudaria o aprofundamento no pitaco moral. Pois sim, minha
mente tem limitações que modulam esse sujeitinho pouco afável, crítico
arrogante. Como pressinto a precariedade do que sinto, autorizo quem pense que
o mundo são névoas.
Pois especulo que a vida volátil é a
realidade que a mim me encorpa no colchão acolhedor. Reflito ainda que desejo
entender-me com a dor nos membros inferiores. Não titubeio quando as cãibras
pegam no duro comigo deitado, eu ajo como posso: rejeito a dor.
Ao mudar de posição, proclamo-me outro.
Sim, tenho pra mim que a consciência é
âncora a caraminholas que me impedem de naufragar em autopiedade. Sei que sou
mais forte que a tentação de mergulhar no fastio.
Certo, julgo que sei dar resistência ao
grão de areia nas entranhas da ostra. Não me defino letargo, ocioso e dado a
fantasmagorias. Creio em mim como elo frágil, pois minha mente formiga enquanto
avulta na areia o nome da amada.
Como a amada brota da praia, não se ergue
estátua. Seu nome me diz que anseio ouvi-lo para que novamente haja vida.
Ainda que demore um pouco para
compreender-me desperto nesse recanto de areia inalterada, não fico nervoso à
toa.
Há quem pense que viro bicho quando me
irritam, não viro. Irritado, aumentaria o volume. Não aguentaria muito. Ou
abaixaria o som ou eu desligaria o aplicativo. Manteria o celular ligado. E
manteria a ideia que me poupa dos irritantes: quero ouvir música.
Deixo os fones nos ouvidos. Quero
ignorar quem se diverte comigo a ouvir música como se fosse uma solução.
Não fujo, sei que não há fuga. Se assobio
e cantarolo, é pra manter a mente antenada. Ligada no entorno, mas serena.
Quando aporrinham a querer me convencer
do contrário que penso, me fortaleço na paciência. Percebo que não vão me dar
folga, enguiço. Travado na quietude forçada, não me envergonho de ser chamado
de covarde. A covardia me protege do monstro que trago em mim.
Se arriscarei um conselho?
Caso não queira vir este cidadão pacato virado
no siri, não me faça mudar de ideia sobre o que não tenho nenhuma intenção de
acatar.
Se me vir convertido no oposto do pacato
cidadão, fuja. Depois não reclame do destempero, pois não é boa coisa acordar a
besta que sabe assobiar. Ficando, será problema seu tornar-se ouvinte desse
péssimo assobiador desencantado.
Me assovio:
ꟷ Pessoa cordial, não tenho nada contra
quem discorde, mas graça de general não é Gal.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de novembro de 2022.
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