De
volta da rua, trouxe as compras mais um mal-estar, de estômago pesado e dor de
cabeça.
Passarei
o dia deitado. Bebericarei o soro caseiro. Comerei purê de batata com arroz
branco sem óleo, sem sal. Os detalhes escatológicos ficarão implícitos na
palavrinha poderosa: virose.
Olho
a agenda, alivia-me não ter compromissos externos. Tenho só que responder
e-mails e matutar a próxima crônica.
Antes
de sair de casa, tinha me aborrecido com as brutalidades, as estultices, as
vilanias às pencas, em catadupas. Mas não desisto, virá o dia para
acontecimentos menos estapafúrdios.
Li
os jornais, mas não foi na edição de hoje que encontrei notícia da moça que
vende flores. Como ontem, nenhuma. E amanhã, nada. Que as folhas ignoram a
realidade banal da garota das rosas.
Ela
deve ter ido vender flores noutra esquina, porque eu passei pelo ponto em que a
vejo a postos mas ali ela não estava. Faz dias que não a encontro no lugar de
sempre.
Se
morreu, não sei. Se ganhou na loteria, que sorte a dela.
Ninguém
me informa que o dinheiro da venda sirva pra repor cravos e rosas e que, às
vezes, pelo sol ou pelo inexplicável da vida, dá para ter duas refeições num só
dia. Mas, não festeja.
Por
meu azedume pouco solidário, faço conjecturas.
Avento
que a moça não esquece que não gosta de vender flores na rua, o dia todo, mas a
venda foi boa. Com a parte da féria que pagaria a janta, ela toma sorvete, come
pastel e namora uma sandália, que não comprará nem hoje sequer amanhã. Faz
meses que a namora.
Justamente
porque não gosta nada de vender flores na esquina, ela vai ao boteco. Passa
longe da maria-mole em pé junto ao balcão. Pede apenas um maço de cigarros e meia
dúzia de chicletes, só de menta.
Se
a vendedora que toma café às cinco da manhã soubesse de mim por meus serviços,
me pagaria para escrever o singelo bilhete. Porém nunca pensei na despedida
deste mundo, declinaria.
Não
me desespero quando tomo café às cinco da matina.
Corro
os olhos pelos portais de notícias porque imagino a torcedora que não briga com
o mundo depois do terceiro empate em casa. Penso no amor ao time, mesmo que
esteja encantada com a simplicidade do ídolo, a simplicidade assessorada do
ídolo, ela hesita, não quer chatear com mais uma foto. Mas há ídolos que duram
mais do que uma foto.
É
romântica, dessas que idealizam uma vida menos azeda.
Ela
poderia querer rosas, todavia o jogador é simpático, tem sorriso espontâneo,
fraterno, de uma delicadeza natural que mais a encanta, o que a faz pedir outra.
Só a última.
Mesmo
que a esquina nem saiba de mim, fantasio que a torcedora romântica quer ganhar
rosas e tirar fotos, mas a moça que vende flores sumiu faz dias, uma semana,
talvez duas.
Só
posso atribuir à virose o destempero de atirar às portas de mais um rodeio a moça
desaparecida. Vendendo cravos a rodo, ela nem se lembrará do café das alvoradas.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 07 de julho de 2022.