Abusado
Uma preguicinha piscou pra mim, que eu
vi. Que bom! Notei sua luz relaxante sobre mim, minando de cima a minha cabeça,
que era nuvem e se adensou. E ficou boiando, não precipitou selvagem feito
chuva de verão de quinze minutos de estragos estratosféricos.
Minha preguicinha queria me fazer mais
solar, mais inspirado, mais feliz com a sensação de bem-estar, que tinha essa
alegria a gerar uma leveza a tornar plano e macio o chão sob os pés.
Calçados em meias confortáveis, pelos
tênis que têm meu número, os pés sabem se comportar, podem ir de boa pelo
calçadão, e vou que até perco a doçura esvoaçante das borboletinhas tão
singelas, mas me recupero ao notá-las tão graciosas.
E eu canto que não me espanta tanto sol que
não desencana tanta gente vil que rouba os óculos do Drummond. Canto a
manhãzinha bela que vai cantando a aura das princesinhas comedoras de mortadela.
Mortadela? Eu também quero!
Desejo muito ter a alma leve de irradiância
benigna que a tudo toca, retoca, ri na dor, não dói no riso, goza a vida como
num troca-troca de lágrimas por sorrisos, pesadelos por sonhos, frio a quem tem
calor.
Caramba, carambola, cadê a chave de
casa?
Abusando da manhãzinha bem-aventurada, perdi-a
na caminhada. Procuro que procuro e nada. Não está nos bolsos da bermuda, caceta!
Contudo, eu não a perderia se tivesse
ido em frente, se não tivesse parado pro sacolé. Se a praia não fosse tão
fotogênica. Se a areia não estivesse tão bronzeada.
Mas parei. Olhei as ondas. Me deixei
levar. E descuidei de mim.
Enquanto voltava, fui sofrendo a
chateação de ter de ir ao chaveiro, levá-lo até minha casa, desconfiar do
sujeito, temer a sua conversinha, ter na minha frente a sua cara lambida.
Ó mundo cruel. Ó vida tão desumana.
Xô tentação! Quero telefonar.
Sem brincadeira, no duro mesmo, tadinho
de mim que virtualmente estou perdido, que os dias hoje são de guerras,
batalhas e lutas. O cão caçando o cão. Dias de medo. Dias de morte.
Ô diação... Nem tem orelhão perto.
Bons dias de telefone fixo, nos anos
dourados de cabine telefônica em Londres. Uma época de Bee Gees gemendo e
Travolta quebrando tudo na pista. Num tempo que se sabia o quase nada de sempre
sobre Vietnã, Angola, Moçambique, Biafra e Tibete.
Eu era boçal e não sabia. Gostava da
alegria que é estar vivo.
Mostarda para mim não era gás e caía bem
na salsicha. Eram dias de cachorrão na prensa, com repeteco!
Nem ontem nem amanhã, não vai ser agora
que vou negar de jeito algum: eu sempre gostei de ter a mente alerta para
captar as ondas do rádio; sempre me conectei com as ondas curtas do rádio;
sempre tinha bombril na ponta da antena; sempre soube, mesmo que não soubesse
que sabia, sempre disse: camarão que dorme a maré lava.
Vovó, pensei: bobo vira lobo na lua
cheia?
Vovó dá o toque: felicidade que anoitece,
alvorece.
Oba! Oba! Caída junto aos pés do poeta,
a chave brilha.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 10 de março de 2022.