Feriado,
hoje acordarei determinado. Não adiarei ainda mais o que já deveria ter feito. Mesmo
que deixe de pensar claramente, palavra a palavra, que nunca se pode assegurar
que o amanhã estará vigorando conforme às leis do tempo, despertarei de alma
presente.
Abrirei
os olhos com a disposição de quem sabe o que precisa fazer e lavarei o meu
rosto sem ficar pesando o quanto a rotina prende. Não vou urinar comparando os
gestos fisiologicamente necessários com as efetivas sutilezas irrepetíveis. Afinal,
cada dia é novo, sendo outro.
De
imediato, longe de filosofices: a água quente passará pelo pó e meus dentes morderão
o pão, ainda que meu pensamento permaneça obstinado, concentrando-se na ideia
de que terei tarefas a realizar.
Tendo
em vista o provável azedume que virá à boca, tentarei refrear as ações
deletérias das floras bucal e estomacal com uma escovação cientificamente responsável.
E
subirei a escada com a mente atenta aos pássaros, pois pretendo ouvi-los sem que
me possam distrair distinções entre a flora e a fauna, vírus e bactérias, o pé
direito ou esquerdo no primeiro degrau.
Além
da areia que o vento não para de trazer, vou tirar da calha do telhado da
lavanderia o que houver de folhas, raminhos, penas e restos de fezes. Evitarei,
contudo, condenar andorinhas, pardais e maritacas pela sujeira acumulada,
obstáculo que dificultará a vazão da água das chuvas, e não o farei porque
assumirei a culpa pelo descaso de meses.
Em
vão, enquanto estiver fechando a boca do saco de lixo com um nó cego, debelarei
o que sequer controlo, feito imaginar que a natureza materializa a substância
chamada tempo.
E
verificarei o estado dos ralos. Sem associar satisfação de trabalho realizado
com firmeza de caráter, lavarei o quintal todinho, até aquelas rachaduras que
costumam ficar imundas de um dia para outro.
Não
descansarei, pois os vidros empoeirados seguirão pedindo por água e pano
limpos. Vou limpá-los, antes que os cheiros da vizinhança convulsionem minha
barriga.
Pois
serão horas de tratar do que poderei comer.
Os
meus dedos concentrar-se-ão em manipular alface, cebola, alho e tomate. As minhas
mãos descascarão batatas e cenouras. E de olho no molho da salsicha, não
salgarei a felicidade ao sentar-me à mesa.
Depois,
e sem detença alguma, colarei a napa de sofá e poltronas onde for preciso.
Então,
mesmo que a carcaça desse ser humano acabe cansada de tanta realidade por
consertar, quando a mim não mais me desalentar ter esquecido de entregar o suor
ao que preciso pra tornar este dia de fato memorável, só então, é que me sentarei
talhado pelo bom bocado da esperança.
Agora,
pra que me veja realmente livre da noite de sono, aguardarei que o horário
programado do despertador acione o alarme pra que eu, ansiosa e preventivamente
pragmático, deixe a cama tão quentinha.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 07 de setembro de 2021.