Pele
e osso
Contra mim em testemunho, fui convocado.
Por mim, que confesso ter implicâncias comigo. Tenho-as em conta a não mais
poder ignorar, como se pudesse fazê-las desaparecer sem deixar sinal de vida.
Mas as mágoas mais profundas, aquelas que marcam sem piedade, são as que agora
me cobram um posicionamento.
E palavras apenas, isso já não basta. Não
me considero piedoso o bastante para evitar a percepção de que preciso
escolher, que estou a ponto de ter de fazer alguma escolha. Ou me convenço de
que posso manter a calma de quem sofre mas não treme ao falar ou acabo como sofredor
patético, exemplo de pessoa energúmena que nem consegue domar as próprias
reações.
Minha mente me domina. E, por dominado,
cedo às imaterialidades desse mundo invisível que mina a minha paz de homem
pacato. Perco a pouca paz que pedia continuasse intacta, estado de espírito
prático, e útil para seguir vivendo sem sobressaltos ou angústias.
Saio ao sol, o que não desata esse nó
que me perturba. Como vou me livrar do laço em meu pescoço?
Tolo e teimoso, sento-me num banco de
praça. As pombas querem milho, querem o que não tenho, pedem o que não trago
comigo.
O sol não me alivia a consciência de
gente que não sabe os motivos para não ter comprado o protetor solar ou trazido
as migalhas.
Por um pouco de paz, fecho os olhos.
O vento sopra. Sinto-o. Tenho muito a
considerar, sem nem mesmo saber claramente o que tenho a conjecturar. Percebo,
pressinto, quero que o vento tenha sobre mim o sopro da renovação. Como se o ar
nos pulmões afetasse a circulação, abalasse o bem-estar que tanto desejo transitando
em mim por veias e artérias.
Querendo não pensar nisso, resolvo tomar
sol.
Poderia me perguntar se me sento ao sol
para tirar o mofo que me contamina juntas e ossos, mas a sensação boa dos raios
solares sobre a minha cara me faz ainda mais obscura a necessidade de desvendar
o que anda me angustiando.
Como lidar com perplexidades de pessoa
que nem divisa por onde se move o pensamento?
O sol sobre mim. As pombas aos pés. Há dissonância.
Abro a garrafinha de água. Bebo um gole.
Cismo que o sol tem vida própria, é ele um bicho que me tocaia. Bebo mais.
Quando me pego a duvidar das circunstâncias, acuso a loucura do mundo.
A realidade conspira. Contra mim, alguém
de inteira confiança, que jamais tenho falhado quando procuro amparo na ajuda.
A água não está igual à que trouxe à
praça das pombas com fome. Morna, essa água é outra. Bem pouco me apraz
bebê-la.
Enxoto as pombas. Ferve em mim um ódio
que mais me enerva. O sol de agosto aumenta a secura da minha boca. O calorão
me resseca as narinas. Os olhos sofrem com o solão refletido em carros, roupas,
vidros e tudo o mais. Cala em mim uma raiva muda.
Será coisa de jerico me achar onça ao
abater-se sobre anta no mato seco desse agosto dos infernos?
Como o almoço já foi, viro trabalhar sem
um mísero sanduba.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de agosto de 2021.
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