Dona
Cremilda
A casa estava alvoroçada. Com pessoas indo
e vindo, carregadas de traquitanas da cozinha. E as mulheres não paravam.
Iam com assadeiras de salgadinhos. Levas
de coxinhas, quibinhos, bolinhas de queijo, esfihas em miniatura. Se desejavam
alimentar um batalhão, seria um exército. Haja bocas para tanta comida.
Sorrindo à toa, sem fechar o bico, empolgadas.
Eufóricas, por certo acreditavam que eram felizes. As felizardas de uma família
feliz? Eram mesmo parecidas, tinham até aquelas covinhas nas maçãs.
Todas com aquele encanto, um sorriso com
covinhas nos dois lados da boca. E isso vinha da mãe. Que sorria desbragadamente,
a lindona.
Com os pés no pufe de oncinha, a folgada
na poltrona era a rainha monitorando o reino. No trono, toda orgulhosa da sua
prole agitada.
Suas filhas. Adultas, com as suas meninas
adolescentes ajudando a paparicar as crianças mais novas. Novinhas, arteiras e
frágeis.
E era uma fragilidade que adorava correr.
Meninos, em sua maioria.
Ficar correndo dentro de casa não era
esporte indicado a quem não prestava muita atenção enquanto corria. Logo,
acidentes aconteciam. Volta e meia? Uma topada forte. A coisa mais óbvia? O
berreiro.
Os joelhos e as quinas travavam uma guerra
pouco salutar para as partes humanas, daí o choro. A choradeira. Os berros. Era
deprimente o espetáculo. Com machucados tornando grotesca a dor sem sangue.
Puxa, o caricato estava na antecipação
de homens sensíveis. Muito triste, uns mimados que nem se davam ao trabalho de
reprimir o choro. Para piorar, reclamavam beijocas miraculosas nos
machucadinhos de nada. Puro teatro? Uma vergonha. A coisa absurda? Eram
atendidos.
As seis filhas da matriarca tinham mais
um traço em comum com a digníssima, eram de lamber as crias. Se curavam
abanando as mãos? Se criticassem o abuso dos pimpolhos, formariam homens.
Uma baderna, bem se vê. Como se
aniversário fosse data para ficar com vulgaridades. Ora, esbórnias tiram pontos.
Havia motivo para alegria? A reunião em
plena ditadura científica a proibir aglomerações dava realmente razões para soltar
morteiros. Mas não estragassem com pantomima de gente que se acha melhor do que
os outros.
Afe.
Uma vez que os pequeninos estavam na maior
anarquia porque as responsáveis deixavam a fuzarca rolar sem freios? Um
desserviço. Era dinheiro de Pensão jogado no lixo.
E não controlavam nada a troco de quê?
De ficarem mambembes pela vida; pra trabalharem como formiguinhas maltrapilhas
em vez de senhoras apresentáveis; torrarem o Auxílio esticando massa em mesa de
fórmica barata.
E se espelhavam naquela dama indigna, galinha
cantando de galo, piranha parceira de pangarés vagabundos.
Um verdadeiro circo, hein!
Pessoa instruída que me lê com olhos sábios,
nem preciso falar que prefiro os pendores aporofóbicos de quem espia de longe.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de agosto de 2021.
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