Onde
que conseguiria ter ideias menos perturbadoras? Não as teria se estivesse numa
rodoviária, porque ônibus partem antes que a gente chegue. Menos ainda em um
banco, pois o sistema pifa quanto mais a pessoa reza pro cheque ter fundo. É no
boteco, lógico.
Por
óbvio, virava um copo atrás de outro. Feliz da vida por estar no lugar certo. Pois
tinha que virar ou o drama dos problemas insolúveis iria derrotá-lo em pleno
domingo. Porque era um dever, bebeu.
E
foi bebendo sem perder o ritmo. E foi percebendo que tinha gente demais. E foi sacando
que aquela gente toda tinha olhos demais sobre a sua pessoa. Foi quando fechou
a cara.
Saiu,
e foi bufando. E foi porque precisava desopilar as mágoas. E foi porque tinha
um coração ferido por espinhos afiados. E foi porque não achava justo levar no
peito essas adagas peçonhentas. Nervoso, notou que o fantasma que sufoca, a
segunda-feira, queria asfixiado o resto do domingo.
De
nada adiantava discordar de si, precisava andar.
No
entanto, andando rápido, percebeu que não tinha vento. E sentiu o ar grudando
na pele suada. O pó no ar irritava as narinas. Demasiado tórrido, o sol ardia
ideias adentro.
Que
calor!
E
como seria bom sentar-se à sombra, refugiar-se da inclemência, proteger-se. Pela
sobrevivência, e pela dignidade da sobrevivência.
Então,
a copa surgiu. A árvore tornou palpável o refúgio ansiado.
Em
condição de oferecer o refrigério pedido, foi uma bênção. Sem que fosse indulgente,
a árvore era bem capaz de abençoar.
A
pessoa necessitada de sair do calor, escapar da luz implacável e conseguir um canto
respirável, foi quem forçou o passo, acelerou-se, tratou de orientar-se pela
sombra única das maravilhas.
Pois,
foi sentar-se logo.
E
sentado, perfeitamente ajeitado, percebeu que estava num abrigo bom para alguém
estar abrigado.
Foi
quando viu: não cruzou nenhum deserto, mas um gramado, que era verde;
mecanicamente molhado por jatos d'água, portanto verde. Foi quando soube: era gramado
o verde artificialmente mantido vivo.
Sob
a refrigerante copa folhuda, era possível ter ideia mais realista.
Viu
que fora preciso ao exagerar. Carregara no sofrimento, todavia o fizera
consciente do papel de sobrevivente. Agira como náufrago em apuros. Vítima desesperada
das aflições. Porque era sua a tragédia de lutar dramaticamente.
Tinha
coisa errada. Se tinha passado da conta? Tinha.
De
uma comicidade pueril, de pateta a exibir-se espalhafatoso. Um pobre-diabo de
chinelo, bermudão e querendo cerveja. A que deixara certa, mas, tão bêbado, se esquecera
de beber, de cobrá-la. Como fora providencialmente paga, tinha esse direito
líquido e certo.
Batata!
Em
vez de herói de si mesmo, um bobo da corte. Viu-se: era a corte, o juiz, o júri,
o réu. E era aquele ser a mendigar uma punição. Era muito claro isso. Mas, que gostoso!,
mijou-se todo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 24 de agosto de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário