terça-feira, 24 de agosto de 2021

Alívio

 

Alívio

 

Onde que conseguiria ter ideias menos perturbadoras? Não as teria se estivesse numa rodoviária, porque ônibus partem antes que a gente chegue. Menos ainda em um banco, pois o sistema pifa quanto mais a pessoa reza pro cheque ter fundo. É no boteco, lógico.

Por óbvio, virava um copo atrás de outro. Feliz da vida por estar no lugar certo. Pois tinha que virar ou o drama dos problemas insolúveis iria derrotá-lo em pleno domingo. Porque era um dever, bebeu.

E foi bebendo sem perder o ritmo. E foi percebendo que tinha gente demais. E foi sacando que aquela gente toda tinha olhos demais sobre a sua pessoa. Foi quando fechou a cara.

Saiu, e foi bufando. E foi porque precisava desopilar as mágoas. E foi porque tinha um coração ferido por espinhos afiados. E foi porque não achava justo levar no peito essas adagas peçonhentas. Nervoso, notou que o fantasma que sufoca, a segunda-feira, queria asfixiado o resto do domingo.

De nada adiantava discordar de si, precisava andar.

No entanto, andando rápido, percebeu que não tinha vento. E sentiu o ar grudando na pele suada. O pó no ar irritava as narinas. Demasiado tórrido, o sol ardia ideias adentro.

Que calor!

E como seria bom sentar-se à sombra, refugiar-se da inclemência, proteger-se. Pela sobrevivência, e pela dignidade da sobrevivência.

Então, a copa surgiu. A árvore tornou palpável o refúgio ansiado.

Em condição de oferecer o refrigério pedido, foi uma bênção. Sem que fosse indulgente, a árvore era bem capaz de abençoar.

A pessoa necessitada de sair do calor, escapar da luz implacável e conseguir um canto respirável, foi quem forçou o passo, acelerou-se, tratou de orientar-se pela sombra única das maravilhas.

Pois, foi sentar-se logo.

E sentado, perfeitamente ajeitado, percebeu que estava num abrigo bom para alguém estar abrigado.

Foi quando viu: não cruzou nenhum deserto, mas um gramado, que era verde; mecanicamente molhado por jatos d'água, portanto verde. Foi quando soube: era gramado o verde artificialmente mantido vivo.

Sob a refrigerante copa folhuda, era possível ter ideia mais realista.

Viu que fora preciso ao exagerar. Carregara no sofrimento, todavia o fizera consciente do papel de sobrevivente. Agira como náufrago em apuros. Vítima desesperada das aflições. Porque era sua a tragédia de lutar dramaticamente.

Tinha coisa errada. Se tinha passado da conta? Tinha.

De uma comicidade pueril, de pateta a exibir-se espalhafatoso. Um pobre-diabo de chinelo, bermudão e querendo cerveja. A que deixara certa, mas, tão bêbado, se esquecera de beber, de cobrá-la. Como fora providencialmente paga, tinha esse direito líquido e certo.

Batata!

Em vez de herói de si mesmo, um bobo da corte. Viu-se: era a corte, o juiz, o júri, o réu. E era aquele ser a mendigar uma punição. Era muito claro isso. Mas, que gostoso!, mijou-se todo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de agosto de 2021.

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