domingo, 8 de agosto de 2021

História improvável

 

História improvável

 

A mulher estava caçando as latinhas da caçamba. Sobre a carroça o homem ajeitava os papelões, dobrando-os com evidente vigor.

O filho não tinha como segurar, e não se segurou:

ꟷ Pai, que diabo de troço é isso aqui?

ꟷ Nada que se aproveite. Deixe isso aí e ajude a sua mãe.

Nem olhou, continuou a puxar isso e trocar aquilo de lugar, porque precisava de espaço para atochar mais tranqueiras.

Tranqueiras! Isso é que elas não eram.

O menino conseguiu abrir a tal caixa metálica. Dentro havia umas coisas inúteis para ele, mais ainda pro pai, que pesava o valor de cada coisa pelo quanto podia render no ferro-velho.

Desinteressado da máquina que não sabia para que servia, achou que era de brinquedo a ventoinha. Todavia, tirando de dentro da CPU, o seu melhor sorriso brilhou patrocinado por um incontestável número um na face dourada daquele achado.

Pronto! Bateu a poeira. Passou o laço pelo pescoço. Rápido, fechou a blusa. Não era pesada. Na sua cabeça de criança que nunca recebeu prêmio algum, medalha importante deveria pesar pra caramba.

Vale quanto pesa! Ora essa.

A mulher não reparou. Tendo esvaziado o saco de lixo, devolveu ao latão apenas os trecos maiores.

Com os restos de comida espalhados pela calçada, e como tinham fome, os cães que viviam com eles atacaram-nos, e, sem cerimônias, atracaram-se. Na real, mais rosnaram que se engalfinharam.

Depois de mais outro dia revirando lixeiras, foi a família transformar toda aquela montanha de bugigangas num pedacinho de papel, cujo poder era medido pelo marmitex do almoço.

Mais um dia excruciante. Na labuta, pra quê? Dez reais!

O discreto medalhista, que seguia incógnito por causa do medo de ter cassada a ilusão de possuir alguma condecoração valiosíssima, foi tomar banho sem tirar do peito o galardão dourado.

Saliente-se: pra não despertar a cobiça, correu banhar-se antes de todo mundo. Sem ninguém por perto, ergueu o punho cerrado. Porque estava no pódio, podia, era o vencedor.

Com a mão espalmada no coração! Fez bonito.

Soubesse cantar a letra difícil da música que tanto o emocionava, talvez porque nunca foi de entender o que diziam as palavras, então, cantaria com mais coração, sem dar trela pro medo de ser repreendido quando desafinasse.

Desafinava? Ora bolas!

Sentiu. Virou na cama. Olhou pros lados. Pressentiu uma lágrima. Cobriu a cabeça. Virou de novo. Se iria chorar como um bebê? Nada disso. Não podia.

Poxa vida, campeão. Podia, sim. Vamos!

Soluçou. Prendeu a respiração. Não iria chorar. Era emocionante o vento balançar a bandeira no ar, no alto do mastro. Se tinha a bandeira, também tinha de ter o rosto na TV. Era mesmo pra vibrar no caminhão dos bombeiros. E gritar, gritar muito. E tinha de liberar a felicidade toda. Sem choro, choramingou. E foi de peito carregado que dormiu.

Impossível fosse outra história?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de agosto de 2021.

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