História
improvável
A mulher estava caçando as latinhas da
caçamba. Sobre a carroça o homem ajeitava os papelões, dobrando-os com evidente
vigor.
O filho não tinha como segurar, e não se
segurou:
ꟷ Pai, que diabo de troço é isso aqui?
ꟷ Nada que se aproveite. Deixe isso aí e
ajude a sua mãe.
Nem olhou, continuou a puxar isso e
trocar aquilo de lugar, porque precisava de espaço para atochar mais
tranqueiras.
Tranqueiras! Isso é que elas não eram.
O menino conseguiu abrir a tal caixa
metálica. Dentro havia umas coisas inúteis para ele, mais ainda pro pai, que
pesava o valor de cada coisa pelo quanto podia render no ferro-velho.
Desinteressado da máquina que não sabia para
que servia, achou que era de brinquedo a ventoinha. Todavia, tirando de dentro
da CPU, o seu melhor sorriso brilhou patrocinado por um incontestável número um
na face dourada daquele achado.
Pronto! Bateu a poeira. Passou o laço
pelo pescoço. Rápido, fechou a blusa. Não era pesada. Na sua cabeça de criança que
nunca recebeu prêmio algum, medalha importante deveria pesar pra caramba.
Vale quanto pesa! Ora essa.
A mulher não reparou. Tendo esvaziado o
saco de lixo, devolveu ao latão apenas os trecos maiores.
Com os restos de comida espalhados pela
calçada, e como tinham fome, os cães que viviam com eles atacaram-nos, e, sem
cerimônias, atracaram-se. Na real, mais rosnaram que se engalfinharam.
Depois de mais outro dia revirando lixeiras,
foi a família transformar toda aquela montanha de bugigangas num pedacinho de
papel, cujo poder era medido pelo marmitex do almoço.
Mais um dia excruciante. Na labuta, pra
quê? Dez reais!
O discreto medalhista, que seguia
incógnito por causa do medo de ter cassada a ilusão de possuir alguma
condecoração valiosíssima, foi tomar banho sem tirar do peito o galardão dourado.
Saliente-se: pra não despertar a cobiça,
correu banhar-se antes de todo mundo. Sem ninguém por perto, ergueu o punho
cerrado. Porque estava no pódio, podia, era o vencedor.
Com a mão espalmada no coração! Fez
bonito.
Soubesse cantar a letra difícil da
música que tanto o emocionava, talvez porque nunca foi de entender o que diziam
as palavras, então, cantaria com mais coração, sem dar trela pro medo de ser
repreendido quando desafinasse.
Desafinava? Ora bolas!
Sentiu. Virou na cama. Olhou pros lados.
Pressentiu uma lágrima. Cobriu a cabeça. Virou de novo. Se iria chorar como um bebê?
Nada disso. Não podia.
Poxa vida, campeão. Podia, sim. Vamos!
Soluçou. Prendeu a respiração. Não iria
chorar. Era emocionante o vento balançar a bandeira no ar, no alto do mastro. Se
tinha a bandeira, também tinha de ter o rosto na TV. Era mesmo pra vibrar no
caminhão dos bombeiros. E gritar, gritar muito. E tinha de liberar a felicidade
toda. Sem choro, choramingou. E foi de peito carregado que dormiu.
Impossível fosse outra história?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de agosto de 2021.
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