quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Audácia

 

Audácia

 

Aconteceu. Queria que o acontecido não demandasse explicações de minha parte, uma vez que a ciência que tenho limita-se à ignorância da mecânica dos corpos celestes; assim, acolho que o funcionamento do universo fique resumido a um mistério. E enigma com leis, admito e constato. Tal constatação é física, pois interajo com o que se passa no entorno e comigo. Porque percebo o mundo, admiro e retrato. Todavia, sem condições de teorizar sobre o que pouco entendo, dou como foto prática do que vejo: há dia quando o sol impera no horizonte e há noite quando a lua cintila no céu. Pela compreensão de ignorante das coisas do cosmos, resumo o acontecimento: anoiteceu.

Por óbvio, e redundante, associo o breu como espaço a ser vencido, ou melhor, transposto, transitado, percorrido. Noto que não relaciono o sentimento de desgosto com o tédio, porque ponho implícita a ideia de movimento. De mim para mim mesmo, as coisas paradas não se fazem entediantes; contudo, ressalvo: entedio-me ao anotá-lo.

Deitado de barriga pro teto, não dou a mínima quanto a imaginar há quanto estou aguentando ficar de costas sobre as lajotas do piso. Mais à frente, brilhando no escuro, o interruptor aponta a direção e a mente se concentra. Poetastro, cometo outra metáfora dispensável, digo que a escuridão é pedra invisível sobre mim. Se me quedo quieto no quarto, a petrificação é essa imobilidade sem ter porquê.

Quebrando a monotonia, a razão resolve brigar comigo:

ꟷ Vai, seu Rodrigues, desafie a gravidade.

Torcendo por mim contra o dedo nefasto da passividade, você grita:

ꟷ Vai logo, caramba!

Agradecido, e comovido, ergo-me do chão insensível ao peso deste desespero de homem simples. Recatado, prudente, venço o túnel entre a luz e mim. Sei, e admito que sei, o metro ganho não traz felicidade.

Quase alegre, indiscreto, penso que não haverá dor de cabeça que me impeça de ganhar ao medo um metro a mais na jornada a que me dedico. Sim, compartilho que vivo cada dia como se ontem estivesse a despencar abismo abaixo. Então, a vontade é voragem, e vício, porque o juízo gosta, quer mais, e sente o quão volátil sabe ser o prazer.

Você glosa o brio que me falta:

ꟷ Que luz um fósforo apagado produz?

Para enfrentar meus demônios abstrusos, cubro a minha figura com a perplexidade de pessoa atraída pelos segredos da galáxia, projeto o tutano dos meus ossos a produzir calor nestas carnes vulgares, elevo a fogo os neurônios ao fabular-me felizardo à beira do eldorado.

Águia sem papas na língua vai cravando:

ꟷ Que pena. Até do patético o senhor foge.

Ouço, e ouço mesmo o que é dito. Tomo da coragem a palavra que tanto abono, dando carga à intrepidez de apologista, sem queimar as pestanas, detonar pontes e pulverizar a matéria do mundo, quero-me iluminado pelo eco da sabedoria de Weber: “neutro é quem se decidiu pelo mais forte”.

É fato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de agosto de 2021.

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