Audácia
Aconteceu. Queria que o acontecido não
demandasse explicações de minha parte, uma vez que a ciência que tenho limita-se
à ignorância da mecânica dos corpos celestes; assim, acolho que o funcionamento
do universo fique resumido a um mistério. E enigma com leis, admito e constato.
Tal constatação é física, pois interajo com o que se passa no entorno e comigo.
Porque percebo o mundo, admiro e retrato. Todavia, sem condições de teorizar
sobre o que pouco entendo, dou como foto prática do que vejo: há dia quando o
sol impera no horizonte e há noite quando a lua cintila no céu. Pela compreensão
de ignorante das coisas do cosmos, resumo o acontecimento: anoiteceu.
Por óbvio, e redundante, associo o breu
como espaço a ser vencido, ou melhor, transposto, transitado, percorrido. Noto
que não relaciono o sentimento de desgosto com o tédio, porque ponho implícita a
ideia de movimento. De mim para mim mesmo, as coisas paradas não se fazem
entediantes; contudo, ressalvo: entedio-me ao anotá-lo.
Deitado de barriga pro teto, não dou a
mínima quanto a imaginar há quanto estou aguentando ficar de costas sobre as
lajotas do piso. Mais à frente, brilhando no escuro, o interruptor aponta a
direção e a mente se concentra. Poetastro, cometo outra metáfora dispensável,
digo que a escuridão é pedra invisível sobre mim. Se me quedo quieto no quarto,
a petrificação é essa imobilidade sem ter porquê.
Quebrando a monotonia, a razão resolve
brigar comigo:
ꟷ Vai, seu Rodrigues, desafie a
gravidade.
Torcendo por mim contra o dedo nefasto
da passividade, você grita:
ꟷ Vai logo, caramba!
Agradecido, e comovido, ergo-me do chão
insensível ao peso deste desespero de homem simples. Recatado, prudente, venço
o túnel entre a luz e mim. Sei, e admito que sei, o metro ganho não traz
felicidade.
Quase alegre, indiscreto, penso que não
haverá dor de cabeça que me impeça de ganhar ao medo um metro a mais na jornada
a que me dedico. Sim, compartilho que vivo cada dia como se ontem estivesse a despencar
abismo abaixo. Então, a vontade é voragem, e vício, porque o juízo gosta, quer
mais, e sente o quão volátil sabe ser o prazer.
Você glosa o brio que me falta:
ꟷ Que luz um fósforo apagado produz?
Para enfrentar meus demônios abstrusos, cubro
a minha figura com a perplexidade de pessoa atraída pelos segredos da galáxia,
projeto o tutano dos meus ossos a produzir calor nestas carnes vulgares, elevo a
fogo os neurônios ao fabular-me felizardo à beira do eldorado.
Águia sem papas na língua vai cravando:
ꟷ Que pena. Até do patético o senhor
foge.
Ouço, e ouço mesmo o que é dito. Tomo da
coragem a palavra que tanto abono, dando carga à intrepidez de apologista, sem
queimar as pestanas, detonar pontes e pulverizar a matéria do mundo, quero-me
iluminado pelo eco da sabedoria de Weber: “neutro é quem se decidiu pelo mais
forte”.
É fato.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de agosto de 2021.
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