domingo, 22 de agosto de 2021

Tirando sarro

 

Tirando sarro

 

Como não tirei a sorte grande, digo, à boca pequena, que tirei o dia para me coçar. E me coço, e fico me coçando até que venha quem me queira proibir de fazê-lo.

Se me coço, garanto que carecia desta parada.

Sem nenhuma surpresa, preciso fazer algo contra essa letargia que me põe acostumado ao manto da mesmice.

Como pode um despachado na vida ver-se preso às teias da rotina, do maçante, do sempre igual sem nada de novo?

Ô chatice.

Pra quebrar o ramerrão do cotidiano, é preciso ter mais o que fazer. Faz-se urgente, portanto, apelar à criatividade. Inovar e fugir ao roteiro, agir pelo frescor à alma aninhada no cantinho de todo dia.

Esta ruptura que me sirva até pra dar força o bastante pra continuar ganhando a vida sem me sentir obrigado a ser criativo o tempo inteiro, já que isso é ideia de jerico, é asneira sem tamanho.

Com a sanidade em ordem, ninguém tem a fórmula para se manter revolucionário a vida toda. Quando vive no ataque, vira fuzilar petardos na gaveta ꟷ contudo, coruja empalhada nem se abala.

Cá entre nós, revoluções contam com o cansaço das pessoas que arriscariam propor variações.

Roda de samba em vez de pancadão, que tal?

Leia bem o escrito: propor e não impor; variar e não petrificar; bailar e não marchar; abraçar e não socar. Algo leve, não pesado.

Taí, vou aprontar com o vizinho.

Muito provavelmente, este meu vizinho da direita vai ficar abismado comigo a tocar a sua campainha. Vou espreitar. Quero confirmado seu espanto. Começarei dando intervalo de quinze minutos, daí baixarei o tempo, e volto de cinco em cinco minutos. Vou testar sua paciência.

Coisa infantil? Claro que é.

Porém, a diversão está em fugir ao figurino. O insólito pode parecer uma bobagem às pessoas sérias, incapazes de cometer uma tolice de vez em quando. Esporadicamente, que mal há de ter?

Alto lá! Não serei eu a queimar o meu filme.

Que não haja dúvidas que sou cidadão responsável, politicamente cumpridor dos meus deveres, solidariamente útil à convivência ética.

Em outras palavras, não taco fogo em mato seco, não dirijo bêbado, não cobiço a poupança alheia, não conspiro contra meus semelhantes, nem sequer contra quem me queira ver pelas costas.

Entre encher o próximo e cantar no chuveiro, imaginando-me tenor desafinadíssimo, o maior de todos, opto por poupar os tímpanos.

Além dos ouvidos, evito gastar água.

Outro ponto positivo pra mim. Sei bem que estamos em meio a mais uma crise hídrica, pois a estação seca tem essa queda por sumir com as chuvas. Bem quando me queria lírico, cantor de fama mundial?

É duro lidar com frustrações.

De repente, passam uns cães brincalhões, amistosos, um a entreter o outro. Vê-los na maior fuzarca diz-me que é uma estupidez danada passar das ideias aos atos de crianção.

Se não ataranto quem se acha confortável, molho o bico com água boa pra tirar sarro de boca mole.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de agosto de 2021.

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