Como
não tirei a sorte grande, digo, à boca pequena, que tirei o dia para me coçar.
E me coço, e fico me coçando até que venha quem me queira proibir de fazê-lo.
Se
me coço, garanto que carecia desta parada.
Sem
nenhuma surpresa, preciso fazer algo contra essa letargia que me põe acostumado
ao manto da mesmice.
Como
pode um despachado na vida ver-se preso às teias da rotina, do maçante, do
sempre igual sem nada de novo?
Ô
chatice.
Pra
quebrar o ramerrão do cotidiano, é preciso ter mais o que fazer. Faz-se urgente,
portanto, apelar à criatividade. Inovar e fugir ao roteiro, agir pelo frescor à
alma aninhada no cantinho de todo dia.
Esta
ruptura que me sirva até pra dar força o bastante pra continuar ganhando a vida
sem me sentir obrigado a ser criativo o tempo inteiro, já que isso é ideia de
jerico, é asneira sem tamanho.
Com
a sanidade em ordem, ninguém tem a fórmula para se manter revolucionário a vida
toda. Quando vive no ataque, vira fuzilar petardos na gaveta ꟷ contudo, coruja
empalhada nem se abala.
Cá
entre nós, revoluções contam com o cansaço das pessoas que arriscariam propor variações.
Roda
de samba em vez de pancadão, que tal?
Leia
bem o escrito: propor e não impor; variar e não petrificar; bailar e não
marchar; abraçar e não socar. Algo leve, não pesado.
Taí,
vou aprontar com o vizinho.
Muito
provavelmente, este meu vizinho da direita vai ficar abismado comigo a tocar a
sua campainha. Vou espreitar. Quero confirmado seu espanto. Começarei dando
intervalo de quinze minutos, daí baixarei o tempo, e volto de cinco em cinco
minutos. Vou testar sua paciência.
Coisa
infantil? Claro que é.
Porém,
a diversão está em fugir ao figurino. O insólito pode parecer uma bobagem às
pessoas sérias, incapazes de cometer uma tolice de vez em quando.
Esporadicamente, que mal há de ter?
Alto
lá! Não serei eu a queimar o meu filme.
Que
não haja dúvidas que sou cidadão responsável, politicamente cumpridor dos meus
deveres, solidariamente útil à convivência ética.
Em
outras palavras, não taco fogo em mato seco, não dirijo bêbado, não cobiço a
poupança alheia, não conspiro contra meus semelhantes, nem sequer contra quem
me queira ver pelas costas.
Entre
encher o próximo e cantar no chuveiro, imaginando-me tenor desafinadíssimo, o
maior de todos, opto por poupar os tímpanos.
Além
dos ouvidos, evito gastar água.
Outro
ponto positivo pra mim. Sei bem que estamos em meio a mais uma crise hídrica, pois
a estação seca tem essa queda por sumir com as chuvas. Bem quando me queria lírico,
cantor de fama mundial?
É
duro lidar com frustrações.
De
repente, passam uns cães brincalhões, amistosos, um a entreter o outro. Vê-los
na maior fuzarca diz-me que é uma estupidez danada passar das ideias aos atos
de crianção.
Se
não ataranto quem se acha confortável, molho o bico com água boa pra tirar sarro
de boca mole.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 22 de agosto de 2021.
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