domingo, 29 de agosto de 2021

Uma iluminação

 

Uma iluminação

 

Viver, para mim, é obrigação.

Sendo uma obrigação, tenho que fazer as minhas rotinas do melhor modo que eu consiga. Por isso, faço questão de repetir que só cumpro com o planejado. E tenho de fazê-lo de novo e de novo, porque, a cada vez, estou dando de mim o melhor que posso entregar.

De maneira alguma, entretanto, finjo que estou bem quando deixo de cumprir com uma obrigação. Isso não vou fingir jamais.

Tem gente que acha uma bobagem, não vejo assim. Mesmo que a essa gente pareça algo pequeno, de valor insignificante, ainda assim, trato de fazê-lo com a determinação que mais me fortaleça.

A mim me tomo pelo rigor do caráter, sem abdicar do meu próprio julgamento. Que a avaliação mais precisa é a que faço de mim, e sobre isso não abro brecha pra que me questionem o compromisso moral de a mim mesmo avaliar. Por implacável que possa brilhar aos olhos das pessoas, resigno-me ao autoexame.

Se não o fizesse, brotaria em mim uma água pestilenta, a da falta de certeza. E não sou pessoa de permitir que cresça uma duvidazinha minúscula na mais pequena partícula de mim. Ou isso perderia da alma a chama que me alimenta a cada nova aurora.

Perdido de mim, perdida a mão.

Porquanto não daria em auxílio a mão amiga, que preciso, de fato, ser amigo de mim antes de aventurar-me a socorrer mundos e fundos.

Se me quero voluntarioso, tenho que me ser amigo nas coisas mais comezinhas. Se me acho pessoa boa de conversa e pau pra toda obra, então, a jornada mais íngreme, de difícil travessia, é a que começa em mim mas não termina em mim.

Acredito, a obra da minha vida não está encerrada na minha própria pessoa. E muito ajudo a mim mesmo ao ajudar os demais.

Preciso, realmente, ser meu melhor amigo se quero mesmo abraçar uma obrigação de outra pessoa.

Mesmo que essa pessoa nem seja minha amiga, faço de coração. Entrego-me à tarefa por mim escolhida mesmo que nem se reconheça o esforço de querer fazer bem o que nem me tenha sido pedido. E sem forçar a barra, ajudo porque está ao meu alcance.

Não forço a mão porque sou duro na queda e me quebro quando o chão é tão duro tanto quanto eu sou. Quero-me inteiro ao enfiar a mão na massa quando vejo a pessoa em apuros, precisando de ajuda.

Assumo a responsabilidade quando sinto que o que precisa ser feito se encaixa no que tenho já planejado, já compromissado comigo.

Pois é, sou fácil de lidar. Não dou chiliques nem faço biquinho, pois isso é para quem se acha estrela. E não tem coisa mais idiota do que a pessoa dar uma de importante.

O importante é viver de bem consigo, pois vivendo em paz consigo a pessoa mostra o caminho bom de ser vivido, que é a jornada do justo aos olhos de Deus.

Se tem alguém acima de todos, bem acima de nós, essa pessoa é Deus.

Em outras palavras, não é por marra que não recomendo trocar fuzil queimado por lampião a gás, é que o calibre das trevas fica mais nítido à luz de velas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de agosto de 2021.

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