Riscando
o ar com o telefone acima da cabeça; espiando ao redor com a preocupação de fugir
do ridículo; achando que mover o celular lentamente preservaria a
invisibilidade; encabulado, com a certeza de que a pantomima ajudaria a não provocar
redemoinhos de temporal no meio de uma linda tarde muitíssimo aprazível ꟷ estava
na esquina.
Contudo,
se fosse desprezar os laivos de prosador espirituoso: para que o aparelho
operasse como deveria, a ginga era só para capturar o sinal. Com essa tradução,
adeus à graça.
Já
que não estava, mesmo, exibindo ao céu a Jules Rimet dos seus desvarios mais portentosos,
seguia tímido, bailando dissimuladamente por uma conexão que permitisse
desafogar-se dos seus pensamentos mais sombrios, sem que, entretanto, entrasse
em curto.
Soubesse
como emplacar uma comunicação de maior estabilidade com o mundo, dispensaria o
recurso de postar-se no cruzamento como um espantalho de olhos espantados. O
que não assombraria ninguém, e afirmaria o quão normal conseguia subsistir na
realidade.
Mudo,
o smartphone era uma bugiganga imprestável.
Como
quem dança conformando-se à música da sua banalidade, o jeito era comer um
pastel e beber uma garapa.
De
queijo? Comeu um de calabresa.
Com
limão? Só o sumo.
Queria
que o espaço aberto da esquina fosse tangível ao que tanto alvoroçava nas
caraminholas a persona pressionando arrotar fogo via celular. Alerta pro momento
constrangedor de permanecer em silêncio a contragosto, eis que uma distração
brotou no horizonte.
Vinha
um ponto em efervescente evolução. Com energia o bastante para toda aquela
ostentação de vida imprevisível. Era um ser pulsante, isso o olhar não podia
negar.
Alvíssaras
ou o quê? A saber.
Despertado
o interesse, tratou de retê-lo. E pôs-se a especular.
Pensou,
o insólito lembrava uma ameba, mas ameba não flutua a cem metros do solo. Mas,
a mancha escura não se cristalizava numa forma, transmudava-se. Mudou de ideia,
seria um bando de andorinhas a saçaricar pelos ares?
Não
foi uma andorinha que pousou no topo do poste do outro lado da rua. O raio do
bicho que foi postar-se no alto do poste no lado de lá da esquina era um urubu.
E
lá de cima o animal de estampa hipnotizante varreu as ruas como se medos murchassem
atrás dos óculos de sol, alegrias gritassem por sapatos de couro e indiferenças
passeassem em sacolas de plástico.
Dividida
entre observar e ser observada, a pessoa de telefone com a bateria arriada surtiu
uns calafrios pesados.
Sem
dúvida, a nefasta presença emitia ondas. Ou como iria imantar na cabeça a ideia
de não ter ideia?
Só
mesmo uma energia aziaga correria espinha abaixo como água indo formigar na bexiga.
Que
mente poderosíssima!
O
prazer era tanto que arrepios passaram a eclodir sem parar. A força dos humores
era tanta que o celular disparou a tocar.
Incrível.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 26 de agosto de 2021.
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