quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Realismo assombroso

 

Realismo assombroso

 

Riscando o ar com o telefone acima da cabeça; espiando ao redor com a preocupação de fugir do ridículo; achando que mover o celular lentamente preservaria a invisibilidade; encabulado, com a certeza de que a pantomima ajudaria a não provocar redemoinhos de temporal no meio de uma linda tarde muitíssimo aprazível ꟷ estava na esquina.

Contudo, se fosse desprezar os laivos de prosador espirituoso: para que o aparelho operasse como deveria, a ginga era só para capturar o sinal. Com essa tradução, adeus à graça.

Já que não estava, mesmo, exibindo ao céu a Jules Rimet dos seus desvarios mais portentosos, seguia tímido, bailando dissimuladamente por uma conexão que permitisse desafogar-se dos seus pensamentos mais sombrios, sem que, entretanto, entrasse em curto.

Soubesse como emplacar uma comunicação de maior estabilidade com o mundo, dispensaria o recurso de postar-se no cruzamento como um espantalho de olhos espantados. O que não assombraria ninguém, e afirmaria o quão normal conseguia subsistir na realidade.

Mudo, o smartphone era uma bugiganga imprestável.

Como quem dança conformando-se à música da sua banalidade, o jeito era comer um pastel e beber uma garapa.

De queijo? Comeu um de calabresa.

Com limão? Só o sumo.

Queria que o espaço aberto da esquina fosse tangível ao que tanto alvoroçava nas caraminholas a persona pressionando arrotar fogo via celular. Alerta pro momento constrangedor de permanecer em silêncio a contragosto, eis que uma distração brotou no horizonte.

Vinha um ponto em efervescente evolução. Com energia o bastante para toda aquela ostentação de vida imprevisível. Era um ser pulsante, isso o olhar não podia negar.

Alvíssaras ou o quê? A saber.

Despertado o interesse, tratou de retê-lo. E pôs-se a especular.

Pensou, o insólito lembrava uma ameba, mas ameba não flutua a cem metros do solo. Mas, a mancha escura não se cristalizava numa forma, transmudava-se. Mudou de ideia, seria um bando de andorinhas a saçaricar pelos ares?

Não foi uma andorinha que pousou no topo do poste do outro lado da rua. O raio do bicho que foi postar-se no alto do poste no lado de lá da esquina era um urubu.

E lá de cima o animal de estampa hipnotizante varreu as ruas como se medos murchassem atrás dos óculos de sol, alegrias gritassem por sapatos de couro e indiferenças passeassem em sacolas de plástico.

Dividida entre observar e ser observada, a pessoa de telefone com a bateria arriada surtiu uns calafrios pesados.

Sem dúvida, a nefasta presença emitia ondas. Ou como iria imantar na cabeça a ideia de não ter ideia?

Só mesmo uma energia aziaga correria espinha abaixo como água indo formigar na bexiga.

Que mente poderosíssima!

O prazer era tanto que arrepios passaram a eclodir sem parar. A força dos humores era tanta que o celular disparou a tocar.

Incrível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de agosto de 2021.

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