quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Jabuticaba

 

Jabuticaba

 

Depressa, subi na árvore. Nem pensei duas vezes, subi de vez.

Quando nem percebo que fico repetindo que ninguém tem o direito de negar-me o desejo de ficar quieto, assim a mixórdia do mundo pega a tomar de mim o meu tempo.

Olha que tenho que ter tempo para continuar fazendo o que esgota e aborrece. Já indisposto, quero arrumar uma desculpa irrefutável para poder sumir no ar.

Quer melhor desculpa que não se dar ao luxo de desperdiçar o que nem se tem abundante? O escasso pede o apreço da moderação.

Pois, o acaso confiou-me a coragem para cair da cama.

Não estou brincando.

Com o chuveiro convocando a minha presença, os pés embalaram o balé vexatório. Com os meus digníssimos calhando de enroscarem-se no lençol, fui de cara ao chão.

Podendo rir dessa mágoa de bailarino desastrado, corri dedicar-me a algo melhor que passar o dia proclamando-me um azarado cambaio.

A realidade tinha sol, passarinho e um pretexto pro meu sumiço. E o quintal veio correndo abraçar a minha circunstância de pessoa doida para me afastar de azáfamas mundanas.

E veio com um leque de seduções. Com tantas abelhas namorando as flores? Que bom, não vou sair. Com tantos pardais surfando a brisa? Melhor vista não há.

Não sendo maluco que baba por morcegos bicadores de jabuticaba, vi os muros a sitiar-me em casa.

Para escalar a jabuticabeira, tomei impulso, saltei, fui sentar-me no galho onde o sol não me pegaria distraído. Não iria ficar suando nessa folga caída do céu. Queria muito ter paz. Queria comer jabuticaba.

As frutinhas não me faltaram, fartaram-me.

Sentado à sombra, entregue ao prazer, afeito ao ócio, sem olhares inquisidores, seria redundante dizer-me afortunado?

Comi o quanto quis, o quanto pude, comi gostoso.

Na calmaria da tarde, dispensei continuar nervoso. Nem liguei pros vizinhos nos terraços dos prédios que até poderiam estar de olho em mim, que me enfarei de jabuticaba.

Como Pão de Açúcar doce, doce, o panduio estufado perturbou o entendimento da nova situação.

Teria como descer num salto só ou iria desabar de costas?

Resisti à sensação de outra queda estúpida, tratei de assegurar-me um alpinista comedido. Como um ser racional controla o pé arisco que queira o imediato, tratei de fortalecer que o pé que dava base concreta ao galho permitiria uma descida menos abrupta, obtusa, ridícula.

Havia nuvens.

Viria chuva ou a comichão mordia nos neurônios a minha fraqueza por precipitações assoberbadas?

Avesso ao óbvio, topei ficar à espera da borrasca.

Sem me decidir, passaram-se outros cinco minutos. Que o temporal viesse logo. Os quinze minutos viraram várias horas. E nada de chover. Foram-se as nuvens. A lua e as estrelas tocaram um noturno sereno. Descansado, o poleiro nem me despejou pelo solo abaixo.

E nada houve afora o normal?

Só estranhei não ter sentido a mão que torceu o meu pescoço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de setembro de 2021.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Ziquizira

 

Ziquizira

 

E este trem da vida ancorado num agosto que não passa, que não quer passar de modo algum? Concordo, melhor responder direito. Não é o mundo que navega por trilhos, a confusão é minha.

Sei o quanto custa manter o queixo erguido, e o universo não tem aliviado. Mas as águas não evaporam porque os meus miolos possam estar em ebulição. Quando os pensamentos fervilham, quando estou a mil, mordo os lábios.

Tenho que sossegar o facho. Preciso relaxar. Antes que estrague o restante do ano, pois agosto vai acabar, tem que ser logo. Senão quem vai acabar estragando tudo serei eu.

Como não me quero podre, com as minhas carnes atraindo moscas, prefiro desconhecer que rumo tomará o mal-estar.

E olho a biruta no telhado. Quede os ventos que sumiram?

Sumiram nada, eu é que estou zureta. Bem zuretinha, que tenho a mente cansada. Preciso viajar.

Sair sem destino, sem reserva de hotel. A esmo pelo mundo.

Mas a bússola do meu esgotamento parece com a biruta no telhado, está uma pasmaceira que dá dó.

A bruxa deve estar à solta. À solta, e numa boa.

A bruxa? Pois é. A bruxa que costuma vir me visitar quando estou pilhado, até ela deu no pé.

Só de lembrar, suspiro. E solto um suspiro cavernoso, que este mês de cachorro babando largado é outro agosto triste, comigo sem impedir as contas crescendo como serralha em chão batido.

Poderia ser o manjericão da horta na manteiga caseira, que agora recordo a galinha à pururuca. A boca saliva; a barriga quer o agrado.

Se as aranhas da cachola tecem verdadeiras as veredas do que me lembro saudoso, foi em Minas, ali por 2004, 2005.

Uma vez que era um agosto de férias, justo que seja memorável.

À beira da represa de Furnas, em Carmo do Rio Claro, bebericando cachaça de alambique tão saborosa, papando torresmo atrás de outro, não tinha porquê para querer largar do ócio.

Súbito, o ambiente ficou diferente. Nenhum passarinho pipilava. As águas do reservatório deixaram de ondular. A realidade congelada era inexplicável. O absurdo veio ao mundo sem pedir licença.

Como nunca passara por aquilo, fiquei impávido.

Vendo-me arredio, o dono da pousada, enquanto preparava o galo cabidela, perguntou-me se tinha ouvido um ruído, como se fosse feixe de piaçava varrendo na varanda.

Caramba, não tinha escutado nada.

Disfarçando a perplexidade, entre dentes, ele quis saber de mim se também estava assustado com o narigão verruguento que espiava pela janela escancarada.

Que nariz?

O relógio da parede atrás do balcão soou três da tarde, sequer pulei da cadeira. Consegui manter a altivez, nem precisei lavar a minha cara de macho nem fui urinar. Todavia, querendo alimentar o suor da testa, bebi outra talagada da pinguinha boa.

Como sujeito esclarecido, tive de revelar que era bem provável que a urucubaca que atraíra a bruxa àquele lugar singelo e encantador era minha, e tão somente minha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de agosto de 2021.

domingo, 29 de agosto de 2021

Uma iluminação

 

Uma iluminação

 

Viver, para mim, é obrigação.

Sendo uma obrigação, tenho que fazer as minhas rotinas do melhor modo que eu consiga. Por isso, faço questão de repetir que só cumpro com o planejado. E tenho de fazê-lo de novo e de novo, porque, a cada vez, estou dando de mim o melhor que posso entregar.

De maneira alguma, entretanto, finjo que estou bem quando deixo de cumprir com uma obrigação. Isso não vou fingir jamais.

Tem gente que acha uma bobagem, não vejo assim. Mesmo que a essa gente pareça algo pequeno, de valor insignificante, ainda assim, trato de fazê-lo com a determinação que mais me fortaleça.

A mim me tomo pelo rigor do caráter, sem abdicar do meu próprio julgamento. Que a avaliação mais precisa é a que faço de mim, e sobre isso não abro brecha pra que me questionem o compromisso moral de a mim mesmo avaliar. Por implacável que possa brilhar aos olhos das pessoas, resigno-me ao autoexame.

Se não o fizesse, brotaria em mim uma água pestilenta, a da falta de certeza. E não sou pessoa de permitir que cresça uma duvidazinha minúscula na mais pequena partícula de mim. Ou isso perderia da alma a chama que me alimenta a cada nova aurora.

Perdido de mim, perdida a mão.

Porquanto não daria em auxílio a mão amiga, que preciso, de fato, ser amigo de mim antes de aventurar-me a socorrer mundos e fundos.

Se me quero voluntarioso, tenho que me ser amigo nas coisas mais comezinhas. Se me acho pessoa boa de conversa e pau pra toda obra, então, a jornada mais íngreme, de difícil travessia, é a que começa em mim mas não termina em mim.

Acredito, a obra da minha vida não está encerrada na minha própria pessoa. E muito ajudo a mim mesmo ao ajudar os demais.

Preciso, realmente, ser meu melhor amigo se quero mesmo abraçar uma obrigação de outra pessoa.

Mesmo que essa pessoa nem seja minha amiga, faço de coração. Entrego-me à tarefa por mim escolhida mesmo que nem se reconheça o esforço de querer fazer bem o que nem me tenha sido pedido. E sem forçar a barra, ajudo porque está ao meu alcance.

Não forço a mão porque sou duro na queda e me quebro quando o chão é tão duro tanto quanto eu sou. Quero-me inteiro ao enfiar a mão na massa quando vejo a pessoa em apuros, precisando de ajuda.

Assumo a responsabilidade quando sinto que o que precisa ser feito se encaixa no que tenho já planejado, já compromissado comigo.

Pois é, sou fácil de lidar. Não dou chiliques nem faço biquinho, pois isso é para quem se acha estrela. E não tem coisa mais idiota do que a pessoa dar uma de importante.

O importante é viver de bem consigo, pois vivendo em paz consigo a pessoa mostra o caminho bom de ser vivido, que é a jornada do justo aos olhos de Deus.

Se tem alguém acima de todos, bem acima de nós, essa pessoa é Deus.

Em outras palavras, não é por marra que não recomendo trocar fuzil queimado por lampião a gás, é que o calibre das trevas fica mais nítido à luz de velas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de agosto de 2021.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Realismo assombroso

 

Realismo assombroso

 

Riscando o ar com o telefone acima da cabeça; espiando ao redor com a preocupação de fugir do ridículo; achando que mover o celular lentamente preservaria a invisibilidade; encabulado, com a certeza de que a pantomima ajudaria a não provocar redemoinhos de temporal no meio de uma linda tarde muitíssimo aprazível ꟷ estava na esquina.

Contudo, se fosse desprezar os laivos de prosador espirituoso: para que o aparelho operasse como deveria, a ginga era só para capturar o sinal. Com essa tradução, adeus à graça.

Já que não estava, mesmo, exibindo ao céu a Jules Rimet dos seus desvarios mais portentosos, seguia tímido, bailando dissimuladamente por uma conexão que permitisse desafogar-se dos seus pensamentos mais sombrios, sem que, entretanto, entrasse em curto.

Soubesse como emplacar uma comunicação de maior estabilidade com o mundo, dispensaria o recurso de postar-se no cruzamento como um espantalho de olhos espantados. O que não assombraria ninguém, e afirmaria o quão normal conseguia subsistir na realidade.

Mudo, o smartphone era uma bugiganga imprestável.

Como quem dança conformando-se à música da sua banalidade, o jeito era comer um pastel e beber uma garapa.

De queijo? Comeu um de calabresa.

Com limão? Só o sumo.

Queria que o espaço aberto da esquina fosse tangível ao que tanto alvoroçava nas caraminholas a persona pressionando arrotar fogo via celular. Alerta pro momento constrangedor de permanecer em silêncio a contragosto, eis que uma distração brotou no horizonte.

Vinha um ponto em efervescente evolução. Com energia o bastante para toda aquela ostentação de vida imprevisível. Era um ser pulsante, isso o olhar não podia negar.

Alvíssaras ou o quê? A saber.

Despertado o interesse, tratou de retê-lo. E pôs-se a especular.

Pensou, o insólito lembrava uma ameba, mas ameba não flutua a cem metros do solo. Mas, a mancha escura não se cristalizava numa forma, transmudava-se. Mudou de ideia, seria um bando de andorinhas a saçaricar pelos ares?

Não foi uma andorinha que pousou no topo do poste do outro lado da rua. O raio do bicho que foi postar-se no alto do poste no lado de lá da esquina era um urubu.

E lá de cima o animal de estampa hipnotizante varreu as ruas como se medos murchassem atrás dos óculos de sol, alegrias gritassem por sapatos de couro e indiferenças passeassem em sacolas de plástico.

Dividida entre observar e ser observada, a pessoa de telefone com a bateria arriada surtiu uns calafrios pesados.

Sem dúvida, a nefasta presença emitia ondas. Ou como iria imantar na cabeça a ideia de não ter ideia?

Só mesmo uma energia aziaga correria espinha abaixo como água indo formigar na bexiga.

Que mente poderosíssima!

O prazer era tanto que arrepios passaram a eclodir sem parar. A força dos humores era tanta que o celular disparou a tocar.

Incrível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de agosto de 2021.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Alívio

 

Alívio

 

Onde que conseguiria ter ideias menos perturbadoras? Não as teria se estivesse numa rodoviária, porque ônibus partem antes que a gente chegue. Menos ainda em um banco, pois o sistema pifa quanto mais a pessoa reza pro cheque ter fundo. É no boteco, lógico.

Por óbvio, virava um copo atrás de outro. Feliz da vida por estar no lugar certo. Pois tinha que virar ou o drama dos problemas insolúveis iria derrotá-lo em pleno domingo. Porque era um dever, bebeu.

E foi bebendo sem perder o ritmo. E foi percebendo que tinha gente demais. E foi sacando que aquela gente toda tinha olhos demais sobre a sua pessoa. Foi quando fechou a cara.

Saiu, e foi bufando. E foi porque precisava desopilar as mágoas. E foi porque tinha um coração ferido por espinhos afiados. E foi porque não achava justo levar no peito essas adagas peçonhentas. Nervoso, notou que o fantasma que sufoca, a segunda-feira, queria asfixiado o resto do domingo.

De nada adiantava discordar de si, precisava andar.

No entanto, andando rápido, percebeu que não tinha vento. E sentiu o ar grudando na pele suada. O pó no ar irritava as narinas. Demasiado tórrido, o sol ardia ideias adentro.

Que calor!

E como seria bom sentar-se à sombra, refugiar-se da inclemência, proteger-se. Pela sobrevivência, e pela dignidade da sobrevivência.

Então, a copa surgiu. A árvore tornou palpável o refúgio ansiado.

Em condição de oferecer o refrigério pedido, foi uma bênção. Sem que fosse indulgente, a árvore era bem capaz de abençoar.

A pessoa necessitada de sair do calor, escapar da luz implacável e conseguir um canto respirável, foi quem forçou o passo, acelerou-se, tratou de orientar-se pela sombra única das maravilhas.

Pois, foi sentar-se logo.

E sentado, perfeitamente ajeitado, percebeu que estava num abrigo bom para alguém estar abrigado.

Foi quando viu: não cruzou nenhum deserto, mas um gramado, que era verde; mecanicamente molhado por jatos d'água, portanto verde. Foi quando soube: era gramado o verde artificialmente mantido vivo.

Sob a refrigerante copa folhuda, era possível ter ideia mais realista.

Viu que fora preciso ao exagerar. Carregara no sofrimento, todavia o fizera consciente do papel de sobrevivente. Agira como náufrago em apuros. Vítima desesperada das aflições. Porque era sua a tragédia de lutar dramaticamente.

Tinha coisa errada. Se tinha passado da conta? Tinha.

De uma comicidade pueril, de pateta a exibir-se espalhafatoso. Um pobre-diabo de chinelo, bermudão e querendo cerveja. A que deixara certa, mas, tão bêbado, se esquecera de beber, de cobrá-la. Como fora providencialmente paga, tinha esse direito líquido e certo.

Batata!

Em vez de herói de si mesmo, um bobo da corte. Viu-se: era a corte, o juiz, o júri, o réu. E era aquele ser a mendigar uma punição. Era muito claro isso. Mas, que gostoso!, mijou-se todo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de agosto de 2021.

domingo, 22 de agosto de 2021

Tirando sarro

 

Tirando sarro

 

Como não tirei a sorte grande, digo, à boca pequena, que tirei o dia para me coçar. E me coço, e fico me coçando até que venha quem me queira proibir de fazê-lo.

Se me coço, garanto que carecia desta parada.

Sem nenhuma surpresa, preciso fazer algo contra essa letargia que me põe acostumado ao manto da mesmice.

Como pode um despachado na vida ver-se preso às teias da rotina, do maçante, do sempre igual sem nada de novo?

Ô chatice.

Pra quebrar o ramerrão do cotidiano, é preciso ter mais o que fazer. Faz-se urgente, portanto, apelar à criatividade. Inovar e fugir ao roteiro, agir pelo frescor à alma aninhada no cantinho de todo dia.

Esta ruptura que me sirva até pra dar força o bastante pra continuar ganhando a vida sem me sentir obrigado a ser criativo o tempo inteiro, já que isso é ideia de jerico, é asneira sem tamanho.

Com a sanidade em ordem, ninguém tem a fórmula para se manter revolucionário a vida toda. Quando vive no ataque, vira fuzilar petardos na gaveta ꟷ contudo, coruja empalhada nem se abala.

Cá entre nós, revoluções contam com o cansaço das pessoas que arriscariam propor variações.

Roda de samba em vez de pancadão, que tal?

Leia bem o escrito: propor e não impor; variar e não petrificar; bailar e não marchar; abraçar e não socar. Algo leve, não pesado.

Taí, vou aprontar com o vizinho.

Muito provavelmente, este meu vizinho da direita vai ficar abismado comigo a tocar a sua campainha. Vou espreitar. Quero confirmado seu espanto. Começarei dando intervalo de quinze minutos, daí baixarei o tempo, e volto de cinco em cinco minutos. Vou testar sua paciência.

Coisa infantil? Claro que é.

Porém, a diversão está em fugir ao figurino. O insólito pode parecer uma bobagem às pessoas sérias, incapazes de cometer uma tolice de vez em quando. Esporadicamente, que mal há de ter?

Alto lá! Não serei eu a queimar o meu filme.

Que não haja dúvidas que sou cidadão responsável, politicamente cumpridor dos meus deveres, solidariamente útil à convivência ética.

Em outras palavras, não taco fogo em mato seco, não dirijo bêbado, não cobiço a poupança alheia, não conspiro contra meus semelhantes, nem sequer contra quem me queira ver pelas costas.

Entre encher o próximo e cantar no chuveiro, imaginando-me tenor desafinadíssimo, o maior de todos, opto por poupar os tímpanos.

Além dos ouvidos, evito gastar água.

Outro ponto positivo pra mim. Sei bem que estamos em meio a mais uma crise hídrica, pois a estação seca tem essa queda por sumir com as chuvas. Bem quando me queria lírico, cantor de fama mundial?

É duro lidar com frustrações.

De repente, passam uns cães brincalhões, amistosos, um a entreter o outro. Vê-los na maior fuzarca diz-me que é uma estupidez danada passar das ideias aos atos de crianção.

Se não ataranto quem se acha confortável, molho o bico com água boa pra tirar sarro de boca mole.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de agosto de 2021.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O bom combate

 

O bom combate

 

Tonto, não por causa da repreensão da otorrinolaringologista, pelo medicamento errado que andei tomando para uma surdez temporária; apreensivo, por conta do encaminhamento da otorrinolaringologista ao urologista, uma vez constatado sangue na urina; deslocado, a despeito de ter a próstata boazinha, boazinha, todavia à espera do proctologista que me curasse a fissura; como homem em tais condições, registro em resignado silêncio:

ꟷ Porque a gente sabe o que tem que fazer. Só que tem gente que não faz. Mesmo sabendo, não faz. Depois reclama que Deus não ajuda como deveria.

ꟷ É um absurdo vergonhoso. Só que é mais fácil jogar a culpa em Deus. E isso mostra quanta maldade a pessoa tem no coração.

ꟷ É pessoa muito má, mesmo. Má o bastante pra esse desrespeito sem tamanho. Apenas pra afrontar a Sua vontade.

ꟷ Como se fosse papel do ser humano duvidar do Poder. Quem faz isso, age assim, querendo testar o Poder, é gente que só tem a perder. E é um perigo. É gente muito perigosa. É preciso manter distância.

ꟷ É mesmo, porque não se ganha nada com soberba. E derrotada, essa gente quer puxar quem está perto. Quer envolver inocentes.

ꟷ Com a mesquinharia de ficar batendo. Feito água na pedra. Só pra arrastar pro acinte das suas abominações.

ꟷ Mas a Graça permanece intacta, inabalável, inexpugnável.

ꟷ Sólida como sempre. Inexpugnável. É realmente a palavra certa, exata, justa. Você falou a palavra corretíssima: inexpugnável.

ꟷ Porque a fortaleza resiste. Está muito, muito, mas muito além de quem abre a boca só pra falar besteiras. Besteiras das grandes. E fala de boca cheia, como a coisa mais natural do mundo.

ꟷ Fala feito besta.

ꟷ Mas os antigos sabiam como agir direito.

ꟷ E agiam direito porque não faziam nada por medo.

ꟷ Pessoas erradas é que têm medo, não as honestas. E devem de ter medo, sim. Porque são sempre elas que abrem o caminho pra Coisa entrar. A gente não pode achar que não vai ser assim, porque vai ser.

ꟷ A Coisa nunca deixou passar oportunidade. Ela sabe aproveitar.

ꟷ Se pode pôr o homem a perder, derruba. Não bobeia. Derruba. E vai derrubando aos poucos. Sem que a pessoa perceba que vai caindo. E enquanto vai caindo, vai deixando mais fundo o buraco do abismo.

ꟷ E o fim da queda é acabar ficando sem merecer o perdão. E que fique mesmo sem misericórdia, já que foi pelo execrável.

ꟷ A minha vó dizia que a mulher é que tem que garantir que a Coisa não entre. Permanecendo fiel. Ficando no lugar devido. Sabedoria de gente sensata diz que não se deve deixar enganar, que a mulher não deve sair do lado do marido. Tem que permanecer na cama.

ꟷ Disse tudo. A mulher tem a sua parte no combate, então, que use a arma que Deus lhe deu. E combata.

ꟷ Que a luta é pela alma da gente e de toda família.

ꟷ É mais pela família do que pela gente. Ô Glória, que é vencer.

ꟷ Vencer em nome do Altíssimo.

ꟷ Ele seja louvado.

ꟷ Ele seja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de agosto de 2021.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Pele e osso

 

Pele e osso

 

Contra mim em testemunho, fui convocado. Por mim, que confesso ter implicâncias comigo. Tenho-as em conta a não mais poder ignorar, como se pudesse fazê-las desaparecer sem deixar sinal de vida. Mas as mágoas mais profundas, aquelas que marcam sem piedade, são as que agora me cobram um posicionamento.

E palavras apenas, isso já não basta. Não me considero piedoso o bastante para evitar a percepção de que preciso escolher, que estou a ponto de ter de fazer alguma escolha. Ou me convenço de que posso manter a calma de quem sofre mas não treme ao falar ou acabo como sofredor patético, exemplo de pessoa energúmena que nem consegue domar as próprias reações.

Minha mente me domina. E, por dominado, cedo às imaterialidades desse mundo invisível que mina a minha paz de homem pacato. Perco a pouca paz que pedia continuasse intacta, estado de espírito prático, e útil para seguir vivendo sem sobressaltos ou angústias.

Saio ao sol, o que não desata esse nó que me perturba. Como vou me livrar do laço em meu pescoço?

Tolo e teimoso, sento-me num banco de praça. As pombas querem milho, querem o que não tenho, pedem o que não trago comigo.

O sol não me alivia a consciência de gente que não sabe os motivos para não ter comprado o protetor solar ou trazido as migalhas.

Por um pouco de paz, fecho os olhos.

O vento sopra. Sinto-o. Tenho muito a considerar, sem nem mesmo saber claramente o que tenho a conjecturar. Percebo, pressinto, quero que o vento tenha sobre mim o sopro da renovação. Como se o ar nos pulmões afetasse a circulação, abalasse o bem-estar que tanto desejo transitando em mim por veias e artérias.

Querendo não pensar nisso, resolvo tomar sol.

Poderia me perguntar se me sento ao sol para tirar o mofo que me contamina juntas e ossos, mas a sensação boa dos raios solares sobre a minha cara me faz ainda mais obscura a necessidade de desvendar o que anda me angustiando.

Como lidar com perplexidades de pessoa que nem divisa por onde se move o pensamento?

O sol sobre mim. As pombas aos pés. Há dissonância.

Abro a garrafinha de água. Bebo um gole. Cismo que o sol tem vida própria, é ele um bicho que me tocaia. Bebo mais. Quando me pego a duvidar das circunstâncias, acuso a loucura do mundo.

A realidade conspira. Contra mim, alguém de inteira confiança, que jamais tenho falhado quando procuro amparo na ajuda.

A água não está igual à que trouxe à praça das pombas com fome. Morna, essa água é outra. Bem pouco me apraz bebê-la.

Enxoto as pombas. Ferve em mim um ódio que mais me enerva. O sol de agosto aumenta a secura da minha boca. O calorão me resseca as narinas. Os olhos sofrem com o solão refletido em carros, roupas, vidros e tudo o mais. Cala em mim uma raiva muda.

Será coisa de jerico me achar onça ao abater-se sobre anta no mato seco desse agosto dos infernos?

Como o almoço já foi, viro trabalhar sem um mísero sanduba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de agosto de 2021.

domingo, 15 de agosto de 2021

Dona Cremilda

 

Dona Cremilda

 

A casa estava alvoroçada. Com pessoas indo e vindo, carregadas de traquitanas da cozinha. E as mulheres não paravam.

Iam com assadeiras de salgadinhos. Levas de coxinhas, quibinhos, bolinhas de queijo, esfihas em miniatura. Se desejavam alimentar um batalhão, seria um exército. Haja bocas para tanta comida.

Sorrindo à toa, sem fechar o bico, empolgadas. Eufóricas, por certo acreditavam que eram felizes. As felizardas de uma família feliz? Eram mesmo parecidas, tinham até aquelas covinhas nas maçãs.

Todas com aquele encanto, um sorriso com covinhas nos dois lados da boca. E isso vinha da mãe. Que sorria desbragadamente, a lindona.

Com os pés no pufe de oncinha, a folgada na poltrona era a rainha monitorando o reino. No trono, toda orgulhosa da sua prole agitada.

Suas filhas. Adultas, com as suas meninas adolescentes ajudando a paparicar as crianças mais novas. Novinhas, arteiras e frágeis.

E era uma fragilidade que adorava correr. Meninos, em sua maioria.

Ficar correndo dentro de casa não era esporte indicado a quem não prestava muita atenção enquanto corria. Logo, acidentes aconteciam. Volta e meia? Uma topada forte. A coisa mais óbvia? O berreiro.

Os joelhos e as quinas travavam uma guerra pouco salutar para as partes humanas, daí o choro. A choradeira. Os berros. Era deprimente o espetáculo. Com machucados tornando grotesca a dor sem sangue.

Puxa, o caricato estava na antecipação de homens sensíveis. Muito triste, uns mimados que nem se davam ao trabalho de reprimir o choro. Para piorar, reclamavam beijocas miraculosas nos machucadinhos de nada. Puro teatro? Uma vergonha. A coisa absurda? Eram atendidos.

As seis filhas da matriarca tinham mais um traço em comum com a digníssima, eram de lamber as crias. Se curavam abanando as mãos? Se criticassem o abuso dos pimpolhos, formariam homens.

Uma baderna, bem se vê. Como se aniversário fosse data para ficar com vulgaridades. Ora, esbórnias tiram pontos.

Havia motivo para alegria? A reunião em plena ditadura científica a proibir aglomerações dava realmente razões para soltar morteiros. Mas não estragassem com pantomima de gente que se acha melhor do que os outros.

Afe.

Uma vez que os pequeninos estavam na maior anarquia porque as responsáveis deixavam a fuzarca rolar sem freios? Um desserviço. Era dinheiro de Pensão jogado no lixo.

E não controlavam nada a troco de quê? De ficarem mambembes pela vida; pra trabalharem como formiguinhas maltrapilhas em vez de senhoras apresentáveis; torrarem o Auxílio esticando massa em mesa de fórmica barata.

E se espelhavam naquela dama indigna, galinha cantando de galo, piranha parceira de pangarés vagabundos.

Um verdadeiro circo, hein!

Pessoa instruída que me lê com olhos sábios, nem preciso falar que prefiro os pendores aporofóbicos de quem espia de longe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de agosto de 2021.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Audácia

 

Audácia

 

Aconteceu. Queria que o acontecido não demandasse explicações de minha parte, uma vez que a ciência que tenho limita-se à ignorância da mecânica dos corpos celestes; assim, acolho que o funcionamento do universo fique resumido a um mistério. E enigma com leis, admito e constato. Tal constatação é física, pois interajo com o que se passa no entorno e comigo. Porque percebo o mundo, admiro e retrato. Todavia, sem condições de teorizar sobre o que pouco entendo, dou como foto prática do que vejo: há dia quando o sol impera no horizonte e há noite quando a lua cintila no céu. Pela compreensão de ignorante das coisas do cosmos, resumo o acontecimento: anoiteceu.

Por óbvio, e redundante, associo o breu como espaço a ser vencido, ou melhor, transposto, transitado, percorrido. Noto que não relaciono o sentimento de desgosto com o tédio, porque ponho implícita a ideia de movimento. De mim para mim mesmo, as coisas paradas não se fazem entediantes; contudo, ressalvo: entedio-me ao anotá-lo.

Deitado de barriga pro teto, não dou a mínima quanto a imaginar há quanto estou aguentando ficar de costas sobre as lajotas do piso. Mais à frente, brilhando no escuro, o interruptor aponta a direção e a mente se concentra. Poetastro, cometo outra metáfora dispensável, digo que a escuridão é pedra invisível sobre mim. Se me quedo quieto no quarto, a petrificação é essa imobilidade sem ter porquê.

Quebrando a monotonia, a razão resolve brigar comigo:

ꟷ Vai, seu Rodrigues, desafie a gravidade.

Torcendo por mim contra o dedo nefasto da passividade, você grita:

ꟷ Vai logo, caramba!

Agradecido, e comovido, ergo-me do chão insensível ao peso deste desespero de homem simples. Recatado, prudente, venço o túnel entre a luz e mim. Sei, e admito que sei, o metro ganho não traz felicidade.

Quase alegre, indiscreto, penso que não haverá dor de cabeça que me impeça de ganhar ao medo um metro a mais na jornada a que me dedico. Sim, compartilho que vivo cada dia como se ontem estivesse a despencar abismo abaixo. Então, a vontade é voragem, e vício, porque o juízo gosta, quer mais, e sente o quão volátil sabe ser o prazer.

Você glosa o brio que me falta:

ꟷ Que luz um fósforo apagado produz?

Para enfrentar meus demônios abstrusos, cubro a minha figura com a perplexidade de pessoa atraída pelos segredos da galáxia, projeto o tutano dos meus ossos a produzir calor nestas carnes vulgares, elevo a fogo os neurônios ao fabular-me felizardo à beira do eldorado.

Águia sem papas na língua vai cravando:

ꟷ Que pena. Até do patético o senhor foge.

Ouço, e ouço mesmo o que é dito. Tomo da coragem a palavra que tanto abono, dando carga à intrepidez de apologista, sem queimar as pestanas, detonar pontes e pulverizar a matéria do mundo, quero-me iluminado pelo eco da sabedoria de Weber: “neutro é quem se decidiu pelo mais forte”.

É fato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de agosto de 2021.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Papelão

 

Papelão

 

Acossado por uma sensação. Sinto, só não percebo bem o que eu estou sentindo. Esta indefinição poderia resultar em enfado, mas estou certo de que o sentimento maior que minha inteligência concebe é de uma angústia que me deixa mais confuso que aborrecido.

Fecho meus olhos. Sem muita convicção, parece que estou pisando em ovos. No entanto, a impressão que me põe incomodado é que ando pisando ovos já pisados. Então, diacho!, cadê a omelete?

Não há razão pra me achar inconsolável, pois posso cuidar de mim. Se posso, então, ponho as coisas no lugar. Passo a pensar.

Penso. O gavião olha fixamente. Está para cair sobre a presa. Enfiar as suas garras na vítima. Há dois bichos: o de bico implacável e o de carne comestível. A relação é simples, direta, nada de ficar rodopiando em vão, alvoroçado com o próprio rabo.

Preciso de outro ânimo. Porque, afinal, a potência da vida esteja no momento suspenso; em que o decisivo esteja nisso ꟷ a ponto de, está quase, por um triz, vai já. É isso que me anima a botar fé em mim. Que quero mesmo desequilibrar o jogo, sem favor algum.

E trato de trocar de roupa, porque o gavião desfere o golpe. Ataca, pois busca o êxito. Uma ave de rapina estuda as circunstâncias do alto da árvore. Pode dar-se ao capricho de ficar às claras, observando. Tem o privilégio de não precisar se esconder nem se disfarçar. É animal que não dissimula as pretensões. Será breve o desfecho que logo terá vez.

Ainda que essa iminência não a favoreça, arrisque. Mesmo que não haja muito mais a ser feito, tente escapar. Logre manter-se viva. E não ver-se abatida. Que o gavião perca. Consiga ser rápida, uma vez que não se conforma em ratazana a ser morta.

Indo pro jantar na casa de um casal amigo, reparo, terei que enrolar na rua ou chegarei muito cedo. E não quero ninguém irritado.

Nem bem ela abre a porta, o cheiro confirma que teremos tainha na telha. Concentrado na churrasqueira, eu mesmo tenho que me servir o vinho pra cuja garrafa ele aponta.

Como não estou a fim de tomar um golpe fulminante, e humilhante, mal começamos a comer, fico à beira do tatame.

Os meus anfitriões são professores de judô numa academia voltada pra crianças prioritariamente menores de catorze anos. Contudo, não matriculam qualquer uma ꟷ aceitam somente quem esteja na escola, com notas boas e frequentando as aulas regularmente.

Conversamos com moderação, e bebemos.

Comemos com calma, e bebemos.

Alegrinho, fico que nem preciso me preocupar mais em não cometer desfeita grave. Perfeitamente embriagado, ajo naturalmente.

No desespero de comentar tudo, falo numa língua esquisita, quase igual ao português. Da minha boca saem palavras fora de lugar, mas sei que pontuo os assuntos com argúcia.

Que ridículo!

Não darei o braço a torcer nem darei com a língua nos dentes. Vim pra falar do voto impresso, não pra ficar de conversa mole.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de agosto de 2021.

domingo, 8 de agosto de 2021

História improvável

 

História improvável

 

A mulher estava caçando as latinhas da caçamba. Sobre a carroça o homem ajeitava os papelões, dobrando-os com evidente vigor.

O filho não tinha como segurar, e não se segurou:

ꟷ Pai, que diabo de troço é isso aqui?

ꟷ Nada que se aproveite. Deixe isso aí e ajude a sua mãe.

Nem olhou, continuou a puxar isso e trocar aquilo de lugar, porque precisava de espaço para atochar mais tranqueiras.

Tranqueiras! Isso é que elas não eram.

O menino conseguiu abrir a tal caixa metálica. Dentro havia umas coisas inúteis para ele, mais ainda pro pai, que pesava o valor de cada coisa pelo quanto podia render no ferro-velho.

Desinteressado da máquina que não sabia para que servia, achou que era de brinquedo a ventoinha. Todavia, tirando de dentro da CPU, o seu melhor sorriso brilhou patrocinado por um incontestável número um na face dourada daquele achado.

Pronto! Bateu a poeira. Passou o laço pelo pescoço. Rápido, fechou a blusa. Não era pesada. Na sua cabeça de criança que nunca recebeu prêmio algum, medalha importante deveria pesar pra caramba.

Vale quanto pesa! Ora essa.

A mulher não reparou. Tendo esvaziado o saco de lixo, devolveu ao latão apenas os trecos maiores.

Com os restos de comida espalhados pela calçada, e como tinham fome, os cães que viviam com eles atacaram-nos, e, sem cerimônias, atracaram-se. Na real, mais rosnaram que se engalfinharam.

Depois de mais outro dia revirando lixeiras, foi a família transformar toda aquela montanha de bugigangas num pedacinho de papel, cujo poder era medido pelo marmitex do almoço.

Mais um dia excruciante. Na labuta, pra quê? Dez reais!

O discreto medalhista, que seguia incógnito por causa do medo de ter cassada a ilusão de possuir alguma condecoração valiosíssima, foi tomar banho sem tirar do peito o galardão dourado.

Saliente-se: pra não despertar a cobiça, correu banhar-se antes de todo mundo. Sem ninguém por perto, ergueu o punho cerrado. Porque estava no pódio, podia, era o vencedor.

Com a mão espalmada no coração! Fez bonito.

Soubesse cantar a letra difícil da música que tanto o emocionava, talvez porque nunca foi de entender o que diziam as palavras, então, cantaria com mais coração, sem dar trela pro medo de ser repreendido quando desafinasse.

Desafinava? Ora bolas!

Sentiu. Virou na cama. Olhou pros lados. Pressentiu uma lágrima. Cobriu a cabeça. Virou de novo. Se iria chorar como um bebê? Nada disso. Não podia.

Poxa vida, campeão. Podia, sim. Vamos!

Soluçou. Prendeu a respiração. Não iria chorar. Era emocionante o vento balançar a bandeira no ar, no alto do mastro. Se tinha a bandeira, também tinha de ter o rosto na TV. Era mesmo pra vibrar no caminhão dos bombeiros. E gritar, gritar muito. E tinha de liberar a felicidade toda. Sem choro, choramingou. E foi de peito carregado que dormiu.

Impossível fosse outra história?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de agosto de 2021.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O horror

 

O horror

 

Esperando o trem na estação. Sentindo que tem tempo. Sem se dar ao trabalho de ficar olhando para o relógio. Bastando constatar que os carros vêm cheios. E continuam vindo, e vindo, todos abarrotados.

Reclamar seria bobagem. Não tem poder pra alterar nada. Não veio por que tinha que vir? Saiba aguardar. Projetar como estará o próximo trem é inócuo, mas faz isso assim mesmo.

Acerta, mais um trem entupido. Outro mais. Só tem acerto, outro.

Nem percebe, mas graceja. Calcula por calcular. Erra. E erra.

Diverte-se, mas os veículos obedecem a um plano. Entre um e outro carro, há escala. É isso aí! Cada um fica parado um espaço de tempo preciso. Com poucos segundos a mais ou a menos. Mas dá para medir o quanto permanecem junto à plataforma. Entrega-se.

Quem embarca e quem desembarca? Virem-se. Há lógica. Não se perca: segundos são importantes. Que não haja atrasos, pois o mundo tem urgências, emergências, impaciências. As pessoas têm que correr, chegar ao encontro, têm que seguirem. Mas, destinadas a quê?

Queria ter compromisso com o tempo. Desconfia, sente que tempo perdido não acaba sendo recuperado apenas apertando o passo.

Como queria ter cabeça pra manter o foco. Sem ter que se lembrar de permanecer focado. A sua mente, porém, gosta de dar uma viajada longe das órbitas universalmente definidas.

Não enxerga as pessoas passando apressadas, entrando e saindo dos trens? Está se recordando do peixinho dourado que durou, talvez, menos de quinze dias? É claro que não! Está preocupado em apostar; a infância fique fora da estação.

Quando vê, está pisando a faixa vermelha. Aliás, precisou olhar pro chão. Seria amarela ou vermelha? De fato, vê a cor: é amarela aquela faixa de alerta. Perigo! Cuidado! Abra o olho!

Não ouviu os sapatos no concreto do piso porque não foi necessário pisar forte como quem sabe muito bem que imagem é tudo.

Imagem?

Ou você exibe a sua persona de gente que faz o que faz, age como age, porque tem mesmo condições para representar-se como indivíduo decidido, alguém que se empenha de coração a realizar o que tem pela frente, e vai em frente, com obstinação e perseverança, sem titubear, procrastinar, improvisar. Ou perde, porque os fracassos justificam tanta entrega à identidade de pessoa que só marca bobeira.

Todavia, prefere esperar. A sua paz depende de si.

Os trens do metrô vão e vêm. Vão apinhados, e isso incomoda. Vêm do mesmo jeito, e continua incomodando.

Entrar no aperto? Sufocar-se querendo espirrar? Perder o equilíbrio sem ter em que se apoiar? Irritar-se com fones altíssimos?

De uma hora pra outra, foram-se os minutos que tinha disponíveis. E não poderá querer que as condições melhorem. Terá que ir. E sofrerá empurrões. E acarretará constrangimentos. Sob pressão, pressionará.

De repente? De novo.

O terrível não é perceber-se sem tempo, é aceitá-lo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de agosto de 2021.


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Contra o vento

 

Contra o vento

 

De castigo, tomando vento na cara. Era assim que entendia a sua situação. Tentando ter poder sobre os pensamentos. Pois a cabeça fez sentir-se um desgraçado. Remoendo-se. E não se queria moído.

Fora a desfeita do vento, que vinha e parava. Pois o mundo queria que sofresse. O desafio era não piorar o que estava ruim. Uma tensão que atiçava as caraminholas.

Era castigo que não merecia. Ou talvez merecesse, mas não a sua família. Que ela não tinha de sofrer junto com ele.

Vento, não piorasse.

Para que pudesse agir com naturalidade. Para que as pessoas não rissem quando fosse falar. Para que falasse sem dar razão a chacotas. Precisava ter paciência consigo. E precisava muito.

Por isso batia os dedos. A ponta dos dedos batendo no poste.

Queria ritmo. Queria falar num ritmo que não atropelasse o ar nem cortasse as palavras. Queria dizer sem medo o que tinha para dizer.

Se conseguisse, teria a vitória para contar aos seus.

Que a voz não pipocasse. Que a mente e a língua seguissem passo a passo, sem correr o nervo pela espinha. Que os indicadores no poste martelassem direito, então, o ritmo ajudaria a falar manso.

Era pai de família. Tinha muito a considerar.

Tinha que dar exemplo ao caçula. Ainda mais que ele deu trabalho para vir ao mundo, mas veio. Agora dava orgulho, pois era danado de esforçado. Tão novo e já carregando caixote pela feira afora.

Das meninas, se não tinha reclamações, tinha obrigações. Que elas estudassem até tirar diploma. Que ficassem instruídas. Fossem vender roupa. Com capacidades para soma e divisão, mesmo de cabeça. Que ele sabia que as suas meninas não foram nascidas para ter o coração conformado por cachumba, sarampo e catapora.

Já o seu peito estava pulando. Tinha perdido o ritmo das batidas. O poste não sumira, os dedos é que perderam o sentido.

Será que existe desmaio de olho aberto?

Poste não some no ar. Precisava se acalmar. Precisava do fôlego. Tinha que ter o coração no lugar.

Batendo no ritmo, mantinha o pulso.

Mesmo que o pigarro ordinário viesse querer atazanar, não poderia acabar engasgado com saliva seca, de gente besta. Não era não.

Gente que se assusta com nada é que não pensa direito.

O pigarro confundia a cabeça. Ficava encafifado. Parava de pensar nas palavras que precisava ter encaminhadas. Pois tinha o propósito de falar com clareza. E que não mostrasse ter medo.

Não morderia a língua. Ferido, gaguejaria. Não seria mais o homem que não se humilha. Teria de ficar repetindo que nunca foi de passar a perna em ninguém. Passaria por mentiroso.

Foi quando um grupo de meninos fez vento. Todos tinham pipa. Iam troçando uns dos outros com pirraças de criança. Iam rindo. Iam ladeira acima, porque tinham o céu para dominar.

Já indo junto, contudo, mudou de rumo.

Como queria ventania para provar que taquara madura verga mas não quebra, foi beber pinga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de agosto de 2021.