Depressa,
subi na árvore. Nem pensei duas vezes, subi de vez.
Quando
nem percebo que fico repetindo que ninguém tem o direito de negar-me o desejo
de ficar quieto, assim a mixórdia do mundo pega a tomar de mim o meu tempo.
Olha
que tenho que ter tempo para continuar fazendo o que esgota e aborrece. Já indisposto,
quero arrumar uma desculpa irrefutável para poder sumir no ar.
Quer
melhor desculpa que não se dar ao luxo de desperdiçar o que nem se tem
abundante? O escasso pede o apreço da moderação.
Pois,
o acaso confiou-me a coragem para cair da cama.
Não
estou brincando.
Com
o chuveiro convocando a minha presença, os pés embalaram o balé vexatório. Com os meus digníssimos calhando de enroscarem-se no lençol, fui de cara ao chão.
Podendo
rir dessa mágoa de bailarino desastrado, corri dedicar-me a algo melhor que
passar o dia proclamando-me um azarado cambaio.
A
realidade tinha sol, passarinho e um pretexto pro meu sumiço. E o quintal veio
correndo abraçar a minha circunstância de pessoa doida para me afastar de
azáfamas mundanas.
E
veio com um leque de seduções. Com tantas abelhas namorando as flores? Que bom,
não vou sair. Com tantos pardais surfando a brisa? Melhor vista não há.
Não
sendo maluco que baba por morcegos bicadores de jabuticaba, vi os muros a
sitiar-me em casa.
Para
escalar a jabuticabeira, tomei impulso, saltei, fui sentar-me no galho onde o
sol não me pegaria distraído. Não iria ficar suando nessa folga caída do céu.
Queria muito ter paz. Queria comer jabuticaba.
As
frutinhas não me faltaram, fartaram-me.
Sentado
à sombra, entregue ao prazer, afeito ao ócio, sem olhares inquisidores, seria
redundante dizer-me afortunado?
Comi
o quanto quis, o quanto pude, comi gostoso.
Na
calmaria da tarde, dispensei continuar nervoso. Nem liguei pros vizinhos nos
terraços dos prédios que até poderiam estar de olho em mim, que me enfarei de
jabuticaba.
Como
Pão de Açúcar doce, doce, o panduio estufado perturbou o entendimento da nova
situação.
Teria
como descer num salto só ou iria desabar de costas?
Resisti
à sensação de outra queda estúpida, tratei de assegurar-me um alpinista comedido.
Como um ser racional controla o pé arisco que queira o imediato, tratei de fortalecer
que o pé que dava base concreta ao galho permitiria uma descida menos abrupta,
obtusa, ridícula.
Havia
nuvens.
Viria
chuva ou a comichão mordia nos neurônios a minha fraqueza por precipitações
assoberbadas?
Avesso
ao óbvio, topei ficar à espera da borrasca.
Sem
me decidir, passaram-se outros cinco minutos. Que o temporal viesse logo. Os
quinze minutos viraram várias horas. E nada de chover. Foram-se as nuvens. A
lua e as estrelas tocaram um noturno sereno. Descansado, o poleiro nem me
despejou pelo solo abaixo.
E
nada houve afora o normal?
Só
estranhei não ter sentido a mão que torceu o meu pescoço.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 02 de setembro de 2021.