quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O horror

 

O horror

 

Esperando o trem na estação. Sentindo que tem tempo. Sem se dar ao trabalho de ficar olhando para o relógio. Bastando constatar que os carros vêm cheios. E continuam vindo, e vindo, todos abarrotados.

Reclamar seria bobagem. Não tem poder pra alterar nada. Não veio por que tinha que vir? Saiba aguardar. Projetar como estará o próximo trem é inócuo, mas faz isso assim mesmo.

Acerta, mais um trem entupido. Outro mais. Só tem acerto, outro.

Nem percebe, mas graceja. Calcula por calcular. Erra. E erra.

Diverte-se, mas os veículos obedecem a um plano. Entre um e outro carro, há escala. É isso aí! Cada um fica parado um espaço de tempo preciso. Com poucos segundos a mais ou a menos. Mas dá para medir o quanto permanecem junto à plataforma. Entrega-se.

Quem embarca e quem desembarca? Virem-se. Há lógica. Não se perca: segundos são importantes. Que não haja atrasos, pois o mundo tem urgências, emergências, impaciências. As pessoas têm que correr, chegar ao encontro, têm que seguirem. Mas, destinadas a quê?

Queria ter compromisso com o tempo. Desconfia, sente que tempo perdido não acaba sendo recuperado apenas apertando o passo.

Como queria ter cabeça pra manter o foco. Sem ter que se lembrar de permanecer focado. A sua mente, porém, gosta de dar uma viajada longe das órbitas universalmente definidas.

Não enxerga as pessoas passando apressadas, entrando e saindo dos trens? Está se recordando do peixinho dourado que durou, talvez, menos de quinze dias? É claro que não! Está preocupado em apostar; a infância fique fora da estação.

Quando vê, está pisando a faixa vermelha. Aliás, precisou olhar pro chão. Seria amarela ou vermelha? De fato, vê a cor: é amarela aquela faixa de alerta. Perigo! Cuidado! Abra o olho!

Não ouviu os sapatos no concreto do piso porque não foi necessário pisar forte como quem sabe muito bem que imagem é tudo.

Imagem?

Ou você exibe a sua persona de gente que faz o que faz, age como age, porque tem mesmo condições para representar-se como indivíduo decidido, alguém que se empenha de coração a realizar o que tem pela frente, e vai em frente, com obstinação e perseverança, sem titubear, procrastinar, improvisar. Ou perde, porque os fracassos justificam tanta entrega à identidade de pessoa que só marca bobeira.

Todavia, prefere esperar. A sua paz depende de si.

Os trens do metrô vão e vêm. Vão apinhados, e isso incomoda. Vêm do mesmo jeito, e continua incomodando.

Entrar no aperto? Sufocar-se querendo espirrar? Perder o equilíbrio sem ter em que se apoiar? Irritar-se com fones altíssimos?

De uma hora pra outra, foram-se os minutos que tinha disponíveis. E não poderá querer que as condições melhorem. Terá que ir. E sofrerá empurrões. E acarretará constrangimentos. Sob pressão, pressionará.

De repente? De novo.

O terrível não é perceber-se sem tempo, é aceitá-lo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de agosto de 2021.


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