Contra
o vento
De castigo, tomando vento na cara. Era
assim que entendia a sua situação. Tentando ter poder sobre os pensamentos.
Pois a cabeça fez sentir-se um desgraçado. Remoendo-se. E não se queria moído.
Fora a desfeita do vento, que vinha e
parava. Pois o mundo queria que sofresse. O desafio era não piorar o que estava
ruim. Uma tensão que atiçava as caraminholas.
Era castigo que não merecia. Ou talvez
merecesse, mas não a sua família. Que ela não tinha de sofrer junto com ele.
Vento, não piorasse.
Para que pudesse agir com naturalidade.
Para que as pessoas não rissem quando fosse falar. Para que falasse sem dar
razão a chacotas. Precisava ter paciência consigo. E precisava muito.
Por isso batia os dedos. A ponta dos dedos
batendo no poste.
Queria ritmo. Queria falar num ritmo que
não atropelasse o ar nem cortasse as palavras. Queria dizer sem medo o que
tinha para dizer.
Se conseguisse, teria a vitória para
contar aos seus.
Que a voz não pipocasse. Que a mente e a
língua seguissem passo a passo, sem correr o nervo pela espinha. Que os
indicadores no poste martelassem direito, então, o ritmo ajudaria a falar manso.
Era pai de família. Tinha muito a
considerar.
Tinha que dar exemplo ao caçula. Ainda
mais que ele deu trabalho para vir ao mundo, mas veio. Agora dava orgulho, pois
era danado de esforçado. Tão novo e já carregando caixote pela feira afora.
Das meninas, se não tinha reclamações,
tinha obrigações. Que elas estudassem até tirar diploma. Que ficassem instruídas.
Fossem vender roupa. Com capacidades para soma e divisão, mesmo de cabeça. Que
ele sabia que as suas meninas não foram nascidas para ter o coração conformado
por cachumba, sarampo e catapora.
Já o seu peito estava pulando. Tinha
perdido o ritmo das batidas. O poste não sumira, os dedos é que perderam o
sentido.
Será que existe desmaio de olho aberto?
Poste não some no ar. Precisava se acalmar.
Precisava do fôlego. Tinha que ter o coração no lugar.
Batendo no ritmo, mantinha o pulso.
Mesmo que o pigarro ordinário viesse
querer atazanar, não poderia acabar engasgado com saliva seca, de gente besta.
Não era não.
Gente que se assusta com nada é que não
pensa direito.
O pigarro confundia a cabeça. Ficava
encafifado. Parava de pensar nas palavras que precisava ter encaminhadas. Pois
tinha o propósito de falar com clareza. E que não mostrasse ter medo.
Não morderia a língua. Ferido, gaguejaria.
Não seria mais o homem que não se humilha. Teria de ficar repetindo que nunca
foi de passar a perna em ninguém. Passaria por mentiroso.
Foi quando um grupo de meninos fez
vento. Todos tinham pipa. Iam troçando uns dos outros com pirraças de criança. Iam
rindo. Iam ladeira acima, porque tinham o céu para dominar.
Já indo junto, contudo, mudou de rumo.
Como queria ventania para provar que
taquara madura verga mas não quebra, foi beber pinga.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de agosto de 2021.
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