Papelão
Acossado por uma sensação. Sinto, só não
percebo bem o que eu estou sentindo. Esta indefinição poderia resultar em
enfado, mas estou certo de que o sentimento maior que minha inteligência
concebe é de uma angústia que me deixa mais confuso que aborrecido.
Fecho meus olhos. Sem muita convicção, parece
que estou pisando em ovos. No entanto, a impressão que me põe incomodado é que
ando pisando ovos já pisados. Então, diacho!, cadê a omelete?
Não há razão pra me achar inconsolável,
pois posso cuidar de mim. Se posso, então, ponho as coisas no lugar. Passo a pensar.
Penso. O gavião olha fixamente. Está
para cair sobre a presa. Enfiar as suas garras na vítima. Há dois bichos: o de
bico implacável e o de carne comestível. A relação é simples, direta, nada de
ficar rodopiando em vão, alvoroçado com o próprio rabo.
Preciso de outro ânimo. Porque, afinal, a
potência da vida esteja no momento suspenso; em que o decisivo esteja nisso ꟷ a
ponto de, está quase, por um triz, vai já. É isso que me anima a botar fé em
mim. Que quero mesmo desequilibrar o jogo, sem favor algum.
E trato de trocar de roupa, porque o
gavião desfere o golpe. Ataca, pois busca o êxito. Uma ave de rapina estuda as
circunstâncias do alto da árvore. Pode dar-se ao capricho de ficar às claras, observando.
Tem o privilégio de não precisar se esconder nem se disfarçar. É animal que não
dissimula as pretensões. Será breve o desfecho que logo terá vez.
Ainda que essa iminência não a favoreça,
arrisque. Mesmo que não haja muito mais a ser feito, tente escapar. Logre
manter-se viva. E não ver-se abatida. Que o gavião perca. Consiga ser rápida, uma
vez que não se conforma em ratazana a ser morta.
Indo pro jantar na casa de um casal amigo,
reparo, terei que enrolar na rua ou chegarei muito cedo. E não quero ninguém
irritado.
Nem bem ela abre a porta, o cheiro
confirma que teremos tainha na telha. Concentrado na churrasqueira, eu mesmo
tenho que me servir o vinho pra cuja garrafa ele aponta.
Como não estou a fim de tomar um golpe fulminante,
e humilhante, mal começamos a comer, fico à beira do tatame.
Os meus anfitriões são professores de
judô numa academia voltada pra crianças prioritariamente menores de catorze
anos. Contudo, não matriculam qualquer uma ꟷ aceitam somente quem esteja na
escola, com notas boas e frequentando as aulas regularmente.
Conversamos com moderação, e bebemos.
Comemos com calma, e bebemos.
Alegrinho, fico que nem preciso me
preocupar mais em não cometer desfeita grave. Perfeitamente embriagado, ajo
naturalmente.
No desespero de comentar tudo, falo numa
língua esquisita, quase igual ao português. Da minha boca saem palavras fora de
lugar, mas sei que pontuo os assuntos com argúcia.
Que ridículo!
Não darei o braço a torcer nem darei com
a língua nos dentes. Vim pra falar do voto impresso, não pra ficar de conversa mole.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de agosto de 2021.