A
manhã do mundo
Há um mundo lá fora, mas no banheiro,
diante do espelho, observa sem nada dizer, e não fala porque o rosto diante de
si torna evidente a mentira tantas vezes negada. Sim, a soberba impede que abra
a boca porque se permite aprimorada pelas acomodações.
Saber se portar, aprender a
comportar-se, conhecer bem o quanto ter bons modos é essencial, porque agir com
decência é lutar para ser aceita, porque as imposições são mesmo para disciplinar
a rebelde tola a se fazer fiel a si, a ser teimosa ao defender-se do mundo.
Já sendo outra, reconhecendo-se como
criança boboca que já não é, ela se lava. Sem sorrir ao encarar-se, seriamente
ajustada ao perfil de gente crescida, pessoa conhecedora da dor, ela se lava.
O mundo lá de fora conta com sua postura
de gente esclarecida, já que não convém o fingimento. Não há que fingir porque
não se entende fingida porque está agindo com a lucidez que a faz comedida.
Chora quando não controla os nervos. Ri
quando não se controla.
O espelho mostra a cara que precisa de
retoques, ou alguém há de apontar as rugas que as amarguras vão carregando na
pele. Além do quarto, da sala, do elevador, da chave do carro, pois é nesse
além que haverá quem diga que os problemas enxovalham a cara.
Séria, e incapaz de trair-se, porque
ponderada, dominadora de suas explosões, permite-se bufar, permite-se virar as
costas e bufar.
A sério, quer e bufa.
Uma vez que não dará ao mundo que anseia
por seus deslizes de pessoa desconcertada, desconcentrada, descentrada, a esse
mundo não dará o gostinho de capitular quando testada, pressionada, aviltada,
ignorada, diminuída, comprada, vendida, trocada, emudecida, exposta, tapada, escancarada,
deslocada, cutucada, ferida, remediada, quando a mão do próximo a atirar longe,
e para bem longe de quem é.
O mundo que se debate para manter o ar
em movimento não há de vê-la sucumbir aos medos que suas carnes comem, trituram,
digerem, expelem, porque ela se esforça, respira com esforço, faz com que seus
dedos não tremam.
Pois, não tema. Não se veja tremendo em
vão.
Recuse, respire.
Seu cabelo pede escova; os dentes, a
menta do creme; o rosto não pede, suplica: que olhos e boca expressem a
felicidade de estar viva.
Por uma face menos soturna, ilumina-se.
Mesmo que saiba o quão inútil será a máscara ao final do processo. Não se
recrimina, pensa que maquiagens não rebaixam nem agridem, apenas configuram, uma
vez que o espelho não disfarça o que não alcança, dentro de si, onde a dor
faz-se irretocável.
Sem trapaça?
Sob controle, a mão ajeita o que parece
mesmo precisar de retoque. Para trazer ao mundo o que traz entranhado nas suas
vísceras, age.
Sem ficar indiferente às dores, tem
horror.
Porém, uma coisa é gerar compaixão; bem
diferente, humilhar-se.
À luz da porta, entre o noturno da lua e
o sol do improvável brota a manhã do mundo?
Bom-dia!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de agosto de 2021.
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