Feio
na foto
Passam nenúfares. Percebe-se, há uma
correnteza que os faz ir em frente. Algo está vindo. O objeto que vem na
sequência parece pesado, bem pesado. Lento. Como as plantas, não está sendo
arrastado, boia. O silêncio acentua a lentidão destas passagens. Vão flutuando.
Dá pra sentir, há submersão. Estranho, o escuro que só deixa ver apenas uns
palmos do ambiente não distorce o que se vê. Sequer os nenúfares.
Não se pergunta como a escuridão
silenciosa não sufoca.
Aquilo se aproxima. Calmamente, chega. É
madeira esculpida. Há ondas na cabeça. A coisa vem definida. Do pescoço à
cabeça, as suas ondulações não se mexem.
Nem precisam flutuar na água para deixar evidente que aquelas ondas de madeira
entalhada revelam-se crinas.
A coisa, aquilo, o objeto é um cavalo.
O marrom do corpo é fosco. Nota-se, pois
ele torna a passar. Volta o que tinha vindo. Passa. O que não se arrasta vai
passando devagar.
Tem água a perder de vista e tudo bem. Esquisitíssimo.
De novo, a peça torna a passar. Sem que
se possa ter com precisão o quanto de tempo tenha passado, está de volta. É da
vida retornar.
Claro, fica estabelecido um ritmo. A
movimentação, no entanto, não indica música. Configura um pulso. Um vaga-lume
que encanta.
O cavalo sem crinas flutuantes não
relincha. Seus olhos vidrados, todavia, reforçam a imagem pintada de forma
tosca, primitiva, bizarra.
Se almeja realçar aspectos selvagens, fracassa.
Não produz medo. Porém, não provoca o riso. Carranca a subir e a descer na água
muda. Bicho-papão que vai e volta. Circula esse totem despido do sagrado.
Fosse burlesco, cômico, infantil, talvez
incomodasse menos.
A raiz da circunstância aflitiva está na
familiaridade com o vivido. Já tinha passado por situação parecida. Só que a
memória não ajuda.
Foi quando? Onde foi?
Não raciocina. Consegue ver que a coisa
que circula é um cavalinho porque a luz ilumina. Põe foco. E se mantém ligada.
Que luz é essa, afinal? Parece de
farolete.
Se tivesse disposição, poderia refletir.
Tem uma luz e esta luz é de um farolete e a luz deste farolete está iluminando
a cena.
Nem é preciso dizer que tem a nítida
percepção de que tem gente pondo aquela luz na sua cara. Bastante incômoda.
Se pode piorar, vai piorar. E piora.
Então, parece que estão chamando. De
fato, chamam pelo nome.
Será possível? Não tem nada de especial
pra virem chamá-la.
Se bem que no mundo tem milhões de
mulheres chamadas Maria.
O endereço é outro. A pessoa é outra.
Aliás, que delícia dormir com o capuz do
moletom na cabeça. Só o nariz e a boca pra fora da coberta. Bom mesmo é ficar
parada, quieta, tão quentinha no edredom.
Então, parem de ficar chamando.
Quer ficar sonhando. Não pode?
Que aporrinhação.
Como nem pernilongo está vendo aquela partida
de vôlei, que nem é do Brasil, que nem tem Maria alguma jogando, desliga a TV.
Jogo numa hora dessas, Japão?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de julho de 2021.
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