domingo, 25 de julho de 2021

Feio na foto

 

Feio na foto

 

Passam nenúfares. Percebe-se, há uma correnteza que os faz ir em frente. Algo está vindo. O objeto que vem na sequência parece pesado, bem pesado. Lento. Como as plantas, não está sendo arrastado, boia. O silêncio acentua a lentidão destas passagens. Vão flutuando. Dá pra sentir, há submersão. Estranho, o escuro que só deixa ver apenas uns palmos do ambiente não distorce o que se vê. Sequer os nenúfares.

Não se pergunta como a escuridão silenciosa não sufoca.

Aquilo se aproxima. Calmamente, chega. É madeira esculpida. Há ondas na cabeça. A coisa vem definida. Do pescoço à cabeça, as suas ondulações  não se mexem. Nem precisam flutuar na água para deixar evidente que aquelas ondas de madeira entalhada revelam-se crinas.

A coisa, aquilo, o objeto é um cavalo.

O marrom do corpo é fosco. Nota-se, pois ele torna a passar. Volta o que tinha vindo. Passa. O que não se arrasta vai passando devagar.

Tem água a perder de vista e tudo bem. Esquisitíssimo.

De novo, a peça torna a passar. Sem que se possa ter com precisão o quanto de tempo tenha passado, está de volta. É da vida retornar.

Claro, fica estabelecido um ritmo. A movimentação, no entanto, não indica música. Configura um pulso. Um vaga-lume que encanta.

O cavalo sem crinas flutuantes não relincha. Seus olhos vidrados, todavia, reforçam a imagem pintada de forma tosca, primitiva, bizarra.

Se almeja realçar aspectos selvagens, fracassa. Não produz medo. Porém, não provoca o riso. Carranca a subir e a descer na água muda. Bicho-papão que vai e volta. Circula esse totem despido do sagrado.

Fosse burlesco, cômico, infantil, talvez incomodasse menos.

A raiz da circunstância aflitiva está na familiaridade com o vivido. Já tinha passado por situação parecida. Só que a memória não ajuda.

Foi quando? Onde foi?

Não raciocina. Consegue ver que a coisa que circula é um cavalinho porque a luz ilumina. Põe foco. E se mantém ligada.

Que luz é essa, afinal? Parece de farolete.

Se tivesse disposição, poderia refletir. Tem uma luz e esta luz é de um farolete e a luz deste farolete está iluminando a cena.

Nem é preciso dizer que tem a nítida percepção de que tem gente pondo aquela luz na sua cara. Bastante incômoda.

Se pode piorar, vai piorar. E piora.

Então, parece que estão chamando. De fato, chamam pelo nome.

Será possível? Não tem nada de especial pra virem chamá-la.

Se bem que no mundo tem milhões de mulheres chamadas Maria.

O endereço é outro. A pessoa é outra.

Aliás, que delícia dormir com o capuz do moletom na cabeça. Só o nariz e a boca pra fora da coberta. Bom mesmo é ficar parada, quieta, tão quentinha no edredom.

Então, parem de ficar chamando.

Quer ficar sonhando. Não pode?

Que aporrinhação.

Como nem pernilongo está vendo aquela partida de vôlei, que nem é do Brasil, que nem tem Maria alguma jogando, desliga a TV.

Jogo numa hora dessas, Japão?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de julho de 2021.

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