quinta-feira, 22 de julho de 2021

Exemplares

 

Exemplares

 

Amanhecendo, eis um jovem adulto falando ao celular:

“A culpa não é minha. Preciso correr. Tá muito frio. Foi quase agora que o Marx vomitou. Tô com os dedos duros. Não dei nada de anormal. Eu sabia, não tá onze graus, tá bem menos, tá seis. Nem consigo dirigir direito de tanto frio. Poxa, ele comeu só a ração de sempre. O sinal vai abrir. Depois a gente se fala melhor. Não dá pra confiar nesses relógios de rua, o daqui tá marcando três graus. O câmbio é automático, só que as mãos no volante são as minhas. Tá gelado pra caramba. Já cheguei. A equipe tá esperando. Não dei batata frita pro Marx. Tchau, tenho que desligar. Claro, assim que tiver notícias. Pode deixar. Ligo, sim. Mesmo que o Marx morra. Beijos. Por que não ligaria? Tô indo, mãe.”

Pulando pro jantar, o que dizer desses casais bebendo vinho?

A mulher não costumava lavar, punha no fogo e, quando começava a estalar, desligava e servia.

A filha da mulher preferia lavar, medir em dobro a água pra um copo e ficava fuçando no telefone até ouvir os estralos.

O marido da mulher mais jovem não lavava o arroz integral pra não tirar os seus nutrientes; despejava uma xícara do grão nas três xícaras de água fervendo na panela de ferro; não punha óleo nem temperava; e ficava assobiando até sentir o cheiro bom daquela comida boa.

O homem mais velho, casado com a mulher que nunca lavou arroz nem assou um bolo, salivando ao recordar-se do arroz delicioso que a sua querida mãezinha sempre costumava fazer, disparou ralhar com o garçom, por cuja mente até passou atirar o tablet e a caneta eletrônica na cabeça daquele babaquara uniformizado de canarinho.

No meio-fio do outro lado, envolvidas por uns farrapos que um dia foram cobertores, duas meninas bebiam coquinho, pois um tormento a oito graus vinha, de quando em quando, lamber os gambitos.

Indo pra aurora do dia seguinte, passando num ônibus vazio, já que são cinco e cinquenta e cinco de mais outro sábado que começa com aquelas mesmas daminhas da noite bebendo coquinho, o motorista ora por elas, e, pedindo que aquela miséria toda termine com a luz divina a orientá-las para longe dos caminhos impuros daquela vida rapariga, é neste ínterim que ocorre o atropelamento do ciclista que nem deveria virar mais uma vítima do trânsito tão caótico.

E não será caótica a vida?

As garotas fincaram pé. O motorista chorou assim que teve certeza de que tinha matado o rapaz da bicicleta. Os lixeiros, vendo o morto e o desconsolado, acharam que a situação era mesmo impossível de ser consertada, então, o jeito era tirar o lixo da calçada.

O curioso é você entrar na história botando fé que o sentido do que vem sendo dito mostra o quão absurdo anda este nosso Brasil.

Peço licença para discordar.

E embaso o dissenso afirmando que o universo conspira a favor da nossa gente, ou não pleitearíamos já dois fortíssimos nomes pro ano.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de julho de 2021.

Nenhum comentário:

Postar um comentário