quinta-feira, 29 de julho de 2021

A marca humana

 

A marca humana

 

Sentado ao volante, com alma gentil, tão logo notou o jovem a ponto de precipitar-se degraus acima, o meneio grisalho, pontuado pela mão ajustada ao tom moderado, seguro, sem ser agressivo nem parvo, era mais convite pra sair da garoenta tarde gelada que entrada autorizada.

Subindo, tirando o cartão da carteira, era menos por cortesia que o rapaz cumprimentou quem foi capaz de uma recepção acolhedora. Era porque nem pediu pro chuveiro quente lavá-lo dos pensamentos ruins que tivera durante a noite de sobressaltos intercorrentes, o bem-estar ia pingando enquanto sua mente constatava paulatinamente que a falta de sol e o vento frio daquele dia não o poriam melancólico. Por isso, o seu boa-tarde veio sóbrio, nada forçado, simples.

Já que aos sábados os ônibus daquela linha não eram de lotar, não quis sentar-se sozinho naquele banco às costas do motorista. Assim que cruzou a catraca, cuidando pra não amassar o uniforme nem vazar a marmita, ajeitou a mochila como travesseiro.

Para quebrar o aborrecido cochilo contra o vidro, a realidade, como viveiro de circunstâncias limpas do óbvio e decepcionante presente lido pelo hábito, trouxe a fuzarca.

Saracoteando-se toda pela esquina, solta pela calçada, tomada por uma alegria brincalhona, seguida pela mãe que tutela suas ações sem os rigores de gente exasperada, vinha uma infância a sorrir, bambolear e revelar que a vida bem pode ser passarela, tablado e palco a quem, inocente e instintiva, arrisca-se a conhecer o mundo com baita leveza.

Bailando sem afetações, desengonçada, cantando a sua música de sons inesperados e incongruentes, todavia, melodiosos e harmônicos, a criança entrou mostrando o buquezinho de raminhos murchos e uma medalhinha de latão vulgar como louros olímpicos.

ꟷ Que maravilha! Tô vendo que o garotão ganhou em primeiro.

ꟷ Que nada, motô, ele ficou no último lugar.

ꟷ Não, mãezinha, não fiquei em último. Ganhei em quinto.

ꟷ Isso, filho. Dos cinco que participaram, você tirou o quinto lugar.

ꟷ A diretora disse que quem não foi é que perdeu, motô. Eu fui, por isso, sou vencedor. Ela diz a verdade ou não seria diretora, né?

ꟷ É isso aí, garotão. Se a diretora disse, então, tá certo. E  emendou sem malícia: Meus parabéns, dona. Seu filho tem um entusiasmo difícil de ser visto hoje em dia. Até a criançada parece ter perdido a felicidade bacana de tomar parte das coisas sem a obrigação de ter que vencer a qualquer preço.

Quando ia acrescentar que sua filha de sete anos chora se não tira a maior nota no karaokê, o farol do ônibus parado atrás piscou porque uma buzina apressadinha resolveu passar por ambos para, enviesada a dar ré, tomar o lugar de quem marca passo, esperando a hora de sair do ponto.

Se há tempo para acelerar, há tempo para atrasar, uma vez que, ao fim e ao cabo, tempo há para aprender a viver de modo justo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de julho de 2021.

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