quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O horror

 

O horror

 

Esperando o trem na estação. Sentindo que tem tempo. Sem se dar ao trabalho de ficar olhando para o relógio. Bastando constatar que os carros vêm cheios. E continuam vindo, e vindo, todos abarrotados.

Reclamar seria bobagem. Não tem poder pra alterar nada. Não veio por que tinha que vir? Saiba aguardar. Projetar como estará o próximo trem é inócuo, mas faz isso assim mesmo.

Acerta, mais um trem entupido. Outro mais. Só tem acerto, outro.

Nem percebe, mas graceja. Calcula por calcular. Erra. E erra.

Diverte-se, mas os veículos obedecem a um plano. Entre um e outro carro, há escala. É isso aí! Cada um fica parado um espaço de tempo preciso. Com poucos segundos a mais ou a menos. Mas dá para medir o quanto permanecem junto à plataforma. Entrega-se.

Quem embarca e quem desembarca? Virem-se. Há lógica. Não se perca: segundos são importantes. Que não haja atrasos, pois o mundo tem urgências, emergências, impaciências. As pessoas têm que correr, chegar ao encontro, têm que seguirem. Mas, destinadas a quê?

Queria ter compromisso com o tempo. Desconfia, sente que tempo perdido não acaba sendo recuperado apenas apertando o passo.

Como queria ter cabeça pra manter o foco. Sem ter que se lembrar de permanecer focado. A sua mente, porém, gosta de dar uma viajada longe das órbitas universalmente definidas.

Não enxerga as pessoas passando apressadas, entrando e saindo dos trens? Está se recordando do peixinho dourado que durou, talvez, menos de quinze dias? É claro que não! Está preocupado em apostar; a infância fique fora da estação.

Quando vê, está pisando a faixa vermelha. Aliás, precisou olhar pro chão. Seria amarela ou vermelha? De fato, vê a cor: é amarela aquela faixa de alerta. Perigo! Cuidado! Abra o olho!

Não ouviu os sapatos no concreto do piso porque não foi necessário pisar forte como quem sabe muito bem que imagem é tudo.

Imagem?

Ou você exibe a sua persona de gente que faz o que faz, age como age, porque tem mesmo condições para representar-se como indivíduo decidido, alguém que se empenha de coração a realizar o que tem pela frente, e vai em frente, com obstinação e perseverança, sem titubear, procrastinar, improvisar. Ou perde, porque os fracassos justificam tanta entrega à identidade de pessoa que só marca bobeira.

Todavia, prefere esperar. A sua paz depende de si.

Os trens do metrô vão e vêm. Vão apinhados, e isso incomoda. Vêm do mesmo jeito, e continua incomodando.

Entrar no aperto? Sufocar-se querendo espirrar? Perder o equilíbrio sem ter em que se apoiar? Irritar-se com fones altíssimos?

De uma hora pra outra, foram-se os minutos que tinha disponíveis. E não poderá querer que as condições melhorem. Terá que ir. E sofrerá empurrões. E acarretará constrangimentos. Sob pressão, pressionará.

De repente? De novo.

O terrível não é perceber-se sem tempo, é aceitá-lo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de agosto de 2021.


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Contra o vento

 

Contra o vento

 

De castigo, tomando vento na cara. Era assim que entendia a sua situação. Tentando ter poder sobre os pensamentos. Pois a cabeça fez sentir-se um desgraçado. Remoendo-se. E não se queria moído.

Fora a desfeita do vento, que vinha e parava. Pois o mundo queria que sofresse. O desafio era não piorar o que estava ruim. Uma tensão que atiçava as caraminholas.

Era castigo que não merecia. Ou talvez merecesse, mas não a sua família. Que ela não tinha de sofrer junto com ele.

Vento, não piorasse.

Para que pudesse agir com naturalidade. Para que as pessoas não rissem quando fosse falar. Para que falasse sem dar razão a chacotas. Precisava ter paciência consigo. E precisava muito.

Por isso batia os dedos. A ponta dos dedos batendo no poste.

Queria ritmo. Queria falar num ritmo que não atropelasse o ar nem cortasse as palavras. Queria dizer sem medo o que tinha para dizer.

Se conseguisse, teria a vitória para contar aos seus.

Que a voz não pipocasse. Que a mente e a língua seguissem passo a passo, sem correr o nervo pela espinha. Que os indicadores no poste martelassem direito, então, o ritmo ajudaria a falar manso.

Era pai de família. Tinha muito a considerar.

Tinha que dar exemplo ao caçula. Ainda mais que ele deu trabalho para vir ao mundo, mas veio. Agora dava orgulho, pois era danado de esforçado. Tão novo e já carregando caixote pela feira afora.

Das meninas, se não tinha reclamações, tinha obrigações. Que elas estudassem até tirar diploma. Que ficassem instruídas. Fossem vender roupa. Com capacidades para soma e divisão, mesmo de cabeça. Que ele sabia que as suas meninas não foram nascidas para ter o coração conformado por cachumba, sarampo e catapora.

Já o seu peito estava pulando. Tinha perdido o ritmo das batidas. O poste não sumira, os dedos é que perderam o sentido.

Será que existe desmaio de olho aberto?

Poste não some no ar. Precisava se acalmar. Precisava do fôlego. Tinha que ter o coração no lugar.

Batendo no ritmo, mantinha o pulso.

Mesmo que o pigarro ordinário viesse querer atazanar, não poderia acabar engasgado com saliva seca, de gente besta. Não era não.

Gente que se assusta com nada é que não pensa direito.

O pigarro confundia a cabeça. Ficava encafifado. Parava de pensar nas palavras que precisava ter encaminhadas. Pois tinha o propósito de falar com clareza. E que não mostrasse ter medo.

Não morderia a língua. Ferido, gaguejaria. Não seria mais o homem que não se humilha. Teria de ficar repetindo que nunca foi de passar a perna em ninguém. Passaria por mentiroso.

Foi quando um grupo de meninos fez vento. Todos tinham pipa. Iam troçando uns dos outros com pirraças de criança. Iam rindo. Iam ladeira acima, porque tinham o céu para dominar.

Já indo junto, contudo, mudou de rumo.

Como queria ventania para provar que taquara madura verga mas não quebra, foi beber pinga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de agosto de 2021.

domingo, 1 de agosto de 2021

A manhã do mundo

 

A manhã do mundo

 

Há um mundo lá fora, mas no banheiro, diante do espelho, observa sem nada dizer, e não fala porque o rosto diante de si torna evidente a mentira tantas vezes negada. Sim, a soberba impede que abra a boca porque se permite aprimorada pelas acomodações.

Saber se portar, aprender a comportar-se, conhecer bem o quanto ter bons modos é essencial, porque agir com decência é lutar para ser aceita, porque as imposições são mesmo para disciplinar a rebelde tola a se fazer fiel a si, a ser teimosa ao defender-se do mundo.

Já sendo outra, reconhecendo-se como criança boboca que já não é, ela se lava. Sem sorrir ao encarar-se, seriamente ajustada ao perfil de gente crescida, pessoa conhecedora da dor, ela se lava.

O mundo lá de fora conta com sua postura de gente esclarecida, já que não convém o fingimento. Não há que fingir porque não se entende fingida porque está agindo com a lucidez que a faz comedida.

Chora quando não controla os nervos. Ri quando não se controla.

O espelho mostra a cara que precisa de retoques, ou alguém há de apontar as rugas que as amarguras vão carregando na pele. Além do quarto, da sala, do elevador, da chave do carro, pois é nesse além que haverá quem diga que os problemas enxovalham a cara.

Séria, e incapaz de trair-se, porque ponderada, dominadora de suas explosões, permite-se bufar, permite-se virar as costas e bufar.

A sério, quer e bufa.

Uma vez que não dará ao mundo que anseia por seus deslizes de pessoa desconcertada, desconcentrada, descentrada, a esse mundo não dará o gostinho de capitular quando testada, pressionada, aviltada, ignorada, diminuída, comprada, vendida, trocada, emudecida, exposta, tapada, escancarada, deslocada, cutucada, ferida, remediada, quando a mão do próximo a atirar longe, e para bem longe de quem é.

O mundo que se debate para manter o ar em movimento não há de vê-la sucumbir aos medos que suas carnes comem, trituram, digerem, expelem, porque ela se esforça, respira com esforço, faz com que seus dedos não tremam.

Pois, não tema. Não se veja tremendo em vão.

Recuse, respire.

Seu cabelo pede escova; os dentes, a menta do creme; o rosto não pede, suplica: que olhos e boca expressem a felicidade de estar viva.

Por uma face menos soturna, ilumina-se. Mesmo que saiba o quão inútil será a máscara ao final do processo. Não se recrimina, pensa que maquiagens não rebaixam nem agridem, apenas configuram, uma vez que o espelho não disfarça o que não alcança, dentro de si, onde a dor faz-se irretocável.

Sem trapaça?

Sob controle, a mão ajeita o que parece mesmo precisar de retoque. Para trazer ao mundo o que traz entranhado nas suas vísceras, age.

Sem ficar indiferente às dores, tem horror.

Porém, uma coisa é gerar compaixão; bem diferente, humilhar-se.

À luz da porta, entre o noturno da lua e o sol do improvável brota a manhã do mundo?

Bom-dia!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de agosto de 2021.


quinta-feira, 29 de julho de 2021

A marca humana

 

A marca humana

 

Sentado ao volante, com alma gentil, tão logo notou o jovem a ponto de precipitar-se degraus acima, o meneio grisalho, pontuado pela mão ajustada ao tom moderado, seguro, sem ser agressivo nem parvo, era mais convite pra sair da garoenta tarde gelada que entrada autorizada.

Subindo, tirando o cartão da carteira, era menos por cortesia que o rapaz cumprimentou quem foi capaz de uma recepção acolhedora. Era porque nem pediu pro chuveiro quente lavá-lo dos pensamentos ruins que tivera durante a noite de sobressaltos intercorrentes, o bem-estar ia pingando enquanto sua mente constatava paulatinamente que a falta de sol e o vento frio daquele dia não o poriam melancólico. Por isso, o seu boa-tarde veio sóbrio, nada forçado, simples.

Já que aos sábados os ônibus daquela linha não eram de lotar, não quis sentar-se sozinho naquele banco às costas do motorista. Assim que cruzou a catraca, cuidando pra não amassar o uniforme nem vazar a marmita, ajeitou a mochila como travesseiro.

Para quebrar o aborrecido cochilo contra o vidro, a realidade, como viveiro de circunstâncias limpas do óbvio e decepcionante presente lido pelo hábito, trouxe a fuzarca.

Saracoteando-se toda pela esquina, solta pela calçada, tomada por uma alegria brincalhona, seguida pela mãe que tutela suas ações sem os rigores de gente exasperada, vinha uma infância a sorrir, bambolear e revelar que a vida bem pode ser passarela, tablado e palco a quem, inocente e instintiva, arrisca-se a conhecer o mundo com baita leveza.

Bailando sem afetações, desengonçada, cantando a sua música de sons inesperados e incongruentes, todavia, melodiosos e harmônicos, a criança entrou mostrando o buquezinho de raminhos murchos e uma medalhinha de latão vulgar como louros olímpicos.

ꟷ Que maravilha! Tô vendo que o garotão ganhou em primeiro.

ꟷ Que nada, motô, ele ficou no último lugar.

ꟷ Não, mãezinha, não fiquei em último. Ganhei em quinto.

ꟷ Isso, filho. Dos cinco que participaram, você tirou o quinto lugar.

ꟷ A diretora disse que quem não foi é que perdeu, motô. Eu fui, por isso, sou vencedor. Ela diz a verdade ou não seria diretora, né?

ꟷ É isso aí, garotão. Se a diretora disse, então, tá certo. E  emendou sem malícia: Meus parabéns, dona. Seu filho tem um entusiasmo difícil de ser visto hoje em dia. Até a criançada parece ter perdido a felicidade bacana de tomar parte das coisas sem a obrigação de ter que vencer a qualquer preço.

Quando ia acrescentar que sua filha de sete anos chora se não tira a maior nota no karaokê, o farol do ônibus parado atrás piscou porque uma buzina apressadinha resolveu passar por ambos para, enviesada a dar ré, tomar o lugar de quem marca passo, esperando a hora de sair do ponto.

Se há tempo para acelerar, há tempo para atrasar, uma vez que, ao fim e ao cabo, tempo há para aprender a viver de modo justo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de julho de 2021.

terça-feira, 27 de julho de 2021

O rumo da prosa

 

O rumo da prosa

 

Seguindo os protocolos do estabelecimento, foi sentar-se no lugar indicado, no canto ao fundo, de onde tinha uma visão panorâmica. Ao lado da parede recoberta por espelho, o que dava a impressão de que a padaria era maior. Para quem, como ele, tinha problemas em ficar tranquilo em ambientes fechados, estreitos, apertados, era bom ter a sensação de estar em um espaço mais amplo.

Mais amplo, só que não tão arejado. Uma vez que chegou com uma discussão em andamento.

Os dois homens, que não amarelavam, eram fervorosos defensores de posições antagônicas.

ꟷ Tenha dó. Isso não tem a menor importância.

ꟷ Pois eu acho que tem muita diferença, sim, senhor. Pra mim, não é a mesma coisa você dizer “ganhar” em vez de “conquistar” ꟷ com as aspas prontamente destacadas pelos gestos das mãos. Quando se diz que a pessoa “ganhou” (idem quanto às aspas) a medalha, isso passa que a premiação veio de bandeja, caiu no colo, que não teve nenhum esforço pra merecer a honraria. Com um sorrisinho de quem faz pouco: Ora essa, “ganhou”. ꟷ ibidem pros dedos.

ꟷ Ora, ora. O que vale mesmo é a medalha no peito.

ꟷ Caraca, que tremenda besteira, hein? Então, o camarada passou um tempão ralando, ficou no maior perrengue contra a balança, rezou pra não quebrar nada, e aí vem um sabichão diminuir todo o empenho do atleta bem no momento glorioso do hino no pódio.

ꟷ Com o devido respeito, quem está falando bobagem é você. Isso é coisa de quem fica fazendo onda porque não passa de um simplório.

ꟷ Simplório, eu? Você que é um teimoso daqueles, meu amigo. O que estou tentando dizer, e está difícil de entrar na sua cachola, é que o que a gente diz revela como a pessoa vê o mundo.

ꟷ Vejo o mundo com clareza, espertinho. Não colo pelo em ovo pra mostrar o quanto tenho faro apurado pra não desgrudar do rastro das maravilhas maravilhosas. Isso de ficar descobrindo a América em cada palavra tem a cara de quem não tem coisa melhor pra fazer.

ꟷ Não é só questão de semântica. A maneira como a pessoa narra os fatos diz bem quem ela é, rapaz.

ꟷ Quanta intimidade, ꟷ com as aspas dos dedosꟷ rapaz. Como se pretendesse levantar-se: O senhor me respeite.

ꟷ Respeito? Parecendo que também iria se levantar: Hein? Diante daquela face enfezada do outro, engrossou o coro: Hein?

Com fregueses perdendo a razão com mais assiduidade, o dono da padaria tratou de encher uma cestinha com uma dúzia de pãezinhos de queijo ꟷ bolinhos precisamente contados para evitar que o debate partisse do mundo das ideias para virar embate sem nada de platônico ꟷ e colocou-a entre os arrebatados contendores.

Sem o propósito de causar tsunami ou barata-voa; sem a intenção de só reclamar de tudo, mesmo do gás e da luz elétrica; não querendo atiçar o vespeiro falando que prata é pra quem fica em segundo lugar; achando-se singelamente ambidestro:

ꟷ E se trocassem o Borba Gato pela Fadinha?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de julho de 2021.

domingo, 25 de julho de 2021

Feio na foto

 

Feio na foto

 

Passam nenúfares. Percebe-se, há uma correnteza que os faz ir em frente. Algo está vindo. O objeto que vem na sequência parece pesado, bem pesado. Lento. Como as plantas, não está sendo arrastado, boia. O silêncio acentua a lentidão destas passagens. Vão flutuando. Dá pra sentir, há submersão. Estranho, o escuro que só deixa ver apenas uns palmos do ambiente não distorce o que se vê. Sequer os nenúfares.

Não se pergunta como a escuridão silenciosa não sufoca.

Aquilo se aproxima. Calmamente, chega. É madeira esculpida. Há ondas na cabeça. A coisa vem definida. Do pescoço à cabeça, as suas ondulações  não se mexem. Nem precisam flutuar na água para deixar evidente que aquelas ondas de madeira entalhada revelam-se crinas.

A coisa, aquilo, o objeto é um cavalo.

O marrom do corpo é fosco. Nota-se, pois ele torna a passar. Volta o que tinha vindo. Passa. O que não se arrasta vai passando devagar.

Tem água a perder de vista e tudo bem. Esquisitíssimo.

De novo, a peça torna a passar. Sem que se possa ter com precisão o quanto de tempo tenha passado, está de volta. É da vida retornar.

Claro, fica estabelecido um ritmo. A movimentação, no entanto, não indica música. Configura um pulso. Um vaga-lume que encanta.

O cavalo sem crinas flutuantes não relincha. Seus olhos vidrados, todavia, reforçam a imagem pintada de forma tosca, primitiva, bizarra.

Se almeja realçar aspectos selvagens, fracassa. Não produz medo. Porém, não provoca o riso. Carranca a subir e a descer na água muda. Bicho-papão que vai e volta. Circula esse totem despido do sagrado.

Fosse burlesco, cômico, infantil, talvez incomodasse menos.

A raiz da circunstância aflitiva está na familiaridade com o vivido. Já tinha passado por situação parecida. Só que a memória não ajuda.

Foi quando? Onde foi?

Não raciocina. Consegue ver que a coisa que circula é um cavalinho porque a luz ilumina. Põe foco. E se mantém ligada.

Que luz é essa, afinal? Parece de farolete.

Se tivesse disposição, poderia refletir. Tem uma luz e esta luz é de um farolete e a luz deste farolete está iluminando a cena.

Nem é preciso dizer que tem a nítida percepção de que tem gente pondo aquela luz na sua cara. Bastante incômoda.

Se pode piorar, vai piorar. E piora.

Então, parece que estão chamando. De fato, chamam pelo nome.

Será possível? Não tem nada de especial pra virem chamá-la.

Se bem que no mundo tem milhões de mulheres chamadas Maria.

O endereço é outro. A pessoa é outra.

Aliás, que delícia dormir com o capuz do moletom na cabeça. Só o nariz e a boca pra fora da coberta. Bom mesmo é ficar parada, quieta, tão quentinha no edredom.

Então, parem de ficar chamando.

Quer ficar sonhando. Não pode?

Que aporrinhação.

Como nem pernilongo está vendo aquela partida de vôlei, que nem é do Brasil, que nem tem Maria alguma jogando, desliga a TV.

Jogo numa hora dessas, Japão?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de julho de 2021.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Exemplares

 

Exemplares

 

Amanhecendo, eis um jovem adulto falando ao celular:

“A culpa não é minha. Preciso correr. Tá muito frio. Foi quase agora que o Marx vomitou. Tô com os dedos duros. Não dei nada de anormal. Eu sabia, não tá onze graus, tá bem menos, tá seis. Nem consigo dirigir direito de tanto frio. Poxa, ele comeu só a ração de sempre. O sinal vai abrir. Depois a gente se fala melhor. Não dá pra confiar nesses relógios de rua, o daqui tá marcando três graus. O câmbio é automático, só que as mãos no volante são as minhas. Tá gelado pra caramba. Já cheguei. A equipe tá esperando. Não dei batata frita pro Marx. Tchau, tenho que desligar. Claro, assim que tiver notícias. Pode deixar. Ligo, sim. Mesmo que o Marx morra. Beijos. Por que não ligaria? Tô indo, mãe.”

Pulando pro jantar, o que dizer desses casais bebendo vinho?

A mulher não costumava lavar, punha no fogo e, quando começava a estalar, desligava e servia.

A filha da mulher preferia lavar, medir em dobro a água pra um copo e ficava fuçando no telefone até ouvir os estralos.

O marido da mulher mais jovem não lavava o arroz integral pra não tirar os seus nutrientes; despejava uma xícara do grão nas três xícaras de água fervendo na panela de ferro; não punha óleo nem temperava; e ficava assobiando até sentir o cheiro bom daquela comida boa.

O homem mais velho, casado com a mulher que nunca lavou arroz nem assou um bolo, salivando ao recordar-se do arroz delicioso que a sua querida mãezinha sempre costumava fazer, disparou ralhar com o garçom, por cuja mente até passou atirar o tablet e a caneta eletrônica na cabeça daquele babaquara uniformizado de canarinho.

No meio-fio do outro lado, envolvidas por uns farrapos que um dia foram cobertores, duas meninas bebiam coquinho, pois um tormento a oito graus vinha, de quando em quando, lamber os gambitos.

Indo pra aurora do dia seguinte, passando num ônibus vazio, já que são cinco e cinquenta e cinco de mais outro sábado que começa com aquelas mesmas daminhas da noite bebendo coquinho, o motorista ora por elas, e, pedindo que aquela miséria toda termine com a luz divina a orientá-las para longe dos caminhos impuros daquela vida rapariga, é neste ínterim que ocorre o atropelamento do ciclista que nem deveria virar mais uma vítima do trânsito tão caótico.

E não será caótica a vida?

As garotas fincaram pé. O motorista chorou assim que teve certeza de que tinha matado o rapaz da bicicleta. Os lixeiros, vendo o morto e o desconsolado, acharam que a situação era mesmo impossível de ser consertada, então, o jeito era tirar o lixo da calçada.

O curioso é você entrar na história botando fé que o sentido do que vem sendo dito mostra o quão absurdo anda este nosso Brasil.

Peço licença para discordar.

E embaso o dissenso afirmando que o universo conspira a favor da nossa gente, ou não pleitearíamos já dois fortíssimos nomes pro ano.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de julho de 2021.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Ode ao copo d'água

 

Ode ao copo d’água

 

Um homem cochila na praça.

Por sua figura de sombra maldormida, sabe-se, houve obstáculos a impedir que a noite vingasse calma. Até aí, nenhuma novidade, uma vez que os dias imploram: é preciso cautela, pois há perturbações que, tão angustiantes, tiram o sono a todo aquele que pretendia comezinho outro dia de vida.

De fato, caiu esquisita no esqueleto a madrugada que precisava vir serena, já que a vida tem demandado entregas tensas à sobrevivência.

Como ao homem alquebrado saiu má outra noite, irmana-se a ele um cotó que se abana todo. Assim, não há fraquezas a uni-los.

Quando algum ser noturno apodera-se das carnes, sofre-se um tal desajuste obscuro que as horas não bocejam e não piam. Nenhuma coruja vai pousar na cabeceira da cama e sequer um andarilho bêbado mendiga gotas de orvalho às pálidas estrelas.

A mansidão escorre dos ossos, torna liso o piso, chão hostil a olhos de peixe. Se nuvens floreiam o céu, não apraz querê-las sopradas pelo canto do sono, porque não há sono nem escapatória.

Balas e bolos poderiam brotar, mas não brota nenhum sonho.

As carnes deixaram passar alguma coisa. E aquilo foi passando do dia pra noite, da noite pro dia. Foi isso, então, que o acordou, como um dedo frio na sua testa distraída.

Do contrário, se tivesse notado com discernimento a farpa na alma, os joelhos não estariam retesados, cobertos por uma escuridão gelada.

Então, cotovelos, doendo? Doloridos, dispensou movê-los.

Então, atrevido pensador, não se sentou na cama?

Então, cara mágica, sentiu a fisionomia enevoada, como Velásquez revisado por Bacon?

A cama, o trono ꟷ daria causa a tanto desassossego?

Sem deixar de fustigar a cabeça com a noite roendo seus nervos, até o comove guiar-se pelo fastio. Quase acordado, babando de lado, segue vivo. Pra guardá-lo dos vigilantes que não o farejam semelhante, ronda aos seus pés o tal pulguento só osso.

Sapatos batem nas pedras. Crianças gritam quando o cachorro late alto. Pombas arrulham nos fios. Uma velhinha dispara um palavrão dos mais cabeludos. Então, praça, sente a gravidade destas agonias?

Há o mundo. Com esperança, e por mais um dia.

Há a vida. Dá-se outro passo à beira do precipício.

Há o instante, essa fenda abissal. E essa, agora?

Assim desaba do sonho, posto que dormiu menos que o necessário pra entender o que precisa fazer pra não acordar feito eco qualquer.

Poxa!

Ele olha pro relógio da torre e calcula o tanto de atraso.

Nega que o fira a solidão. Nega que está querendo coçar a bunda. Nega que transpire sem ter nada na cabeça.

Será por nada que não tem dormido bem?

Desnorteado, sequer se lembra de ter lavado o rosto.

Está sem banho, e sem fome.

Como consegue deixar de pensar que a noite virá, e tentará dormir, e outra vez será tentado?

Prensado dentro do terno, força o pigarro. Consegue.

Há mãos que calam a boca com um copo d’água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de julho de 2021.

domingo, 18 de julho de 2021

Que azar

 

Que azar

 

Parece que foi ontem, e não foi. A lembrança surgiu aparentemente sem motivo. Não dar com a razão do surgimento, porém, não anulava o sentido de ter lembrado de repente. Não só pela irrupção quase que instintiva, se não estivesse escamoteando pormenores, era um retrato muito rico que ganhava vida. Aliás, sua memória era pródiga em fusões sem pé nem cabeça, o que deixava difícil pro destino dobrá-la.

Gostava de bagunçar, muito, e sem se esforçar. Vivia tomando para si o que nunca vivera. Achava-se protagonista em eventos que sequer presenciara, tal o grau de convicção com que pintava o só imaginado. A sua imaginação era mesmo dada a carimbar como verdadeiro o que concebia real, exagerado que era ao fantasiar tantas realidades. Mas se a realidade tinha falhas, sentia-se à vontade ao preenchê-las.

Numa ocasião, no lançamento de um livro, de mais um livro daquele poeta que não via há tempos, súbito trouxe-os de volta: o autor do livro sendo lançado e o episódio dessa noite de autógrafos.

Sem pensar que a sua vida não conhecera, por experiência própria, o que podem provocar acontecimentos dramáticos, ele estava tirando cisco do mindinho quando a senhora ao seu lado perguntou que horas eram. Batendo no vidro do relógio, certificou-se: ele estava parado.

Então, notando um zunzunzum na biblioteca, a pessoa responsável pela organização disse que os trinta minutos de espera bastavam. Pois o público presente não tinha que pagar por quem não veio a tempo.

O homem, cujo nome cintilava de ponta a ponta no alto da capa, se perguntou se a chuva não teria um dia melhor para cair. Emendou que chuva era coisa boa, porém fosse cair em lavoura ou cabeceira de rio, porque uma quarta-feira à noite, dia de jogo na TV, já era bem ruim pra quem queria casa cheia. Ainda mais quando se lança poesia neste Brasil que tem mais poeta do que leitor de Drummond, Cabral e Bandeira.

Todavia, a arte não tem plateia. A arte com a maiúsculo, essa arte não tem chamariz pro grande público. Essa gente prefere ficar em casa vendo novela em vez de vir prestigiar o artista que fala o que é preciso falar. O poeta de verdade não fica repetindo chavões sem saber o que já foi dito por Drummond, Cabral e Bandeira.

O homem, cujo nome em vermelho vivo ia de lado a lado no alto da capa, era alguém feliz, pois tinha sido honrado com a orelha escrita por uma pessoa realmente especial, muito importante na sua vida, alguém cuja amizade vinha de bem antes que a sua voz como locutora de FM servisse para identificá-la.

Pena que estivesse demorando. Provavelmente, culpa do tempo. O trânsito pesado, perigoso, isso poderia estar atrapalhando a chegada. Não que aquela presença fosse mais relevante do que a de quem já estava ali. Não iria se lamentar dos ausentes na frente dos presentes, isso ele não faria. Era só falta de sorte.

E a azarada comendo pizza...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de julho de 2021.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

O choro e a vela

 

O choro e a vela

 

Morgado de tantas chalaças, a sua foto sem legenda diz:

ꟷ Pra que os mal-amados não digam pelas costas que sou leviano, já adianto que não tem alma em conflito coisíssima alguma. Podem ir caçar sapo porque não autorizo ninguém a falar asneira em meu nome.

Andei a esmo, meio amalucado, ouvindo coisas, vendo fantasmas, mas eu quero mesmo é dormir. Dormir pra caramba, porque estou bem cansado. Poxa, preciso dormir.

Como se pudesse acordar de uma noite tranquila, não queria ouvir a droga do despertador. Queria espreguiçar gostoso. Queria virar e dar com você dormindo. Com aquele sorriso maroto de quem vive o sonho de estar vivendo sem passar nenhum apuro.

Queria pegar você dormindo. Putz! Como eu queria.

Só que acordo com o vazio do meu lado. Dá um nó no peito acordar sem ter ninguém pra ouvir o pesadelo que nem quero lembrar. E esse indigesto embrulha o estômago que só consigo pensar direito quando ponho leite condensado no pão de forma. Adoro lamber faca.

De qualquer jeito, tenho que tirar isso de dentro de mim. Preciso pôr isso pra fora de uma vez, caramba. Senão o bicho vai pegar. E quando o bicho pega, quem me conhece sabe que solto fogo. Nem mesmo eu arrisco chegar perto. Dá medo a cara que eu faço quando viro jararaca. É mesmo algo muito feio, um troço danado de ruim.

Porque se tem uma coisa que todo mundo precisa saber é que sou do tipo de pessoa que gosta de tudo certo, sem mimimi e feito conforme manda o figurino. Porque não gosto nada de ser contrariado.

Tratem de obedecer sem nhenhenhém. Porque é insuportável ter gente que fica exigindo o que ninguém gosta de dar. Eu não gosto.

Danem-se os chatos que vivem apenas pra ficar reclamando, como se a coisa mais importante fosse ficar dando explicação pra tudo.

Ora, sou somente quem sou.

Se estou falando às paredes? Que sei do feijão pela hora da morte? Pra que escancarar as queimadas das Amazonas? Um índio não pode tirar foto da oncinha pintada com celular? Uma garota pode sair por aí acusando um tiozinho mais carinhoso? Jogo bom tem que ficar apenas no rádio? Cadê a liberdade se não ouvem a verdade que tenho a dizer?

Que tristeza, acordo sozinho. Olho pro lado e bate o vazio. Só com reza forte pra desanuviar o peito. Deus me livre e guarde do olho gordo que jogam em cima. Tenho mais que clamar aos céus que me protejam da urucubaca alheia.

Para que a paz aventada oriente os surdos à verdade do amor que a todos nós deveria nos unir, peço por mim e minha família.

Ilumina o momento, pois a escuridão das baratas vem dos esgotos.

Dá ciência a quem foge do verbo arruinando o que nem foi erguido.

Servo de Ti, Senhor, cobro a Ti, Senhor, que, humildemente, afasta de mim a serpente de todo vil, Senhor.

Em outras palavras:

ꟷ Vai, perdoa os soluços que me fazem o que se sabe.

 

Com a autoridade de vestir-se de branco, muito diz quem fala:

ꟷ Calma! Não é laxante, é a hidroxi.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de julho de 2021.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Deus ex machina

 

Deus ex machina

 

Súbito, a vontade de urinar quebra o encanto. Levanto-me rápido e dou de cara na parede. Saído da cama pro corredor, sem luz acesa, a desorientação fica evidente quando enfio o nariz na parede do lado de lá da porta do quarto. Um desastre, não o apocalipse.

Me desencanto.

Frustra-se o idealista, pois a realidade é descontrolável. Acontece, está acontecendo. Até quando desconfio que nem esteja, está mesmo. Não se tem controle sobre o que acontece, nem como ideia. Afinal, até as ideias têm autonomia, e vêm de tudo quanto é canto. Aprovando-se ou não, os pensamentos brotam que é uma beleza. Encharcam a alma. Dão calafrios na espinha. Por que o inconsciente apronta tanto?

Como a cachola me faz desconhecido até pra mim, a realidade que conheço é um mistério. Tem vez que fico bem desanimado.

E a solidão vem de mansinho. Quando vejo, já estou na garupa.

A brisa na cara minimiza o processo. A bicicleta vai macia, disfarça. Sem solavanco, a paisagem fica maior. O horizonte se afasta. Vou que nem percebo que o ar que me circunda pesa nas coxas. Permanecer em movimento fica difícil. Os músculos doem. Há esforço. Respiro com dificuldade. Penso que não vou dar conta de prosseguir. Preciso parar.

Solitário, quero um remanso para poder descansar um pouco. Mas não vejo onde plantar os pés.

Se devo tomar pulso de mim? Tomo.

Deito-me no escuro. Em descompasso, quero um tempo pra dar ao metro a medida exata. Se resolve? Acredito. Tenho esperança de estar realmente acalmando o desequilíbrio. Porque a decisão que me afeta cabe a mim tomá-la. A mais ninguém cabe decidir o que a mim me seja melhor. Mesmo sem clareza do que preciso fazer para acertar o passo no vai-da-valsa. O calo dói. Se a solidão machuca, sofro ao vivê-la.

Feito bicicleta, resolvo parar. Escolho.

As rodas parecem paradas. Parece que a corrente não passa mais pelos dentes da catraca. Nenhum ruído. Nada. O silêncio parece estar indicando que estou parado. Estacionado em mim, isso me perturba.

Como aliviar a carga?

Escuto música. Não a ouço, escuto-a. Se posso estabelecer em que condições escutarei uma obra musical, não procrastino nem tergiverso. Fecho portas e janelas. Corro as cortinas. Apago a luz. Ponho os fones. Pra que não agridam meus tímpanos, ajusto o volume. Sem distrações, quero vivenciar a realidade que os sons tenham a oferecer.

Não suporto ficar ouvindo só o barulho que o mundo produz. Uma cachoeira não é L’Orfeo. Um ganido não é Pierrot Lunaire. Nenhum flato se compara a The Yellow Shark.

Como explicar o bem-estar que a música orquestra em mim?

É simples!

Que a consciência orgânica volte no tempo, viaje ao princípio, antes do surgimento do homo sapiens, instale-se no carbono que ainda nem sabe de si, para que a vida ganhe o sentido de ir apurando-se, até sem linha reta, pra não tirar de ouvido o dó-ré-mi-fá do cosmos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de julho de 2021.

domingo, 11 de julho de 2021

Visionários

 

Visionários

 

Um amigo de infância, quer melhor maneira de encontrá-lo do que ao acaso? Sem nada programado, sem nenhum assunto pendente, ao bel-prazer de um papo descontraído, que verse sobre a aparência de sobrevivente que poderia disputar um festival. Se ainda houver quem louco o bastante pra organizar a série de mata-matas cuja taça é arcar com a cerveja morna pingando pelas rachadurinhas de fuleiros copos de plástico. Daí não surpreender que viesse à baila o gol que marquei no campinho, naquele trapézio fora dos padrões, péssimo mesmo para padrões varzeanos, pois foi nesse terreno, com seus oásis de grama, que o Zico bateu a falta usando magistralmente a minha canhota.

Como irmãos, abraçando-se. Com o mesmo vigor espontâneo que outrora acabava por converter o abraço em socos e pontapés, quando os hormônios selvagens faziam de cada um de nós baluarte bárbaro a defender o time do coração, ou o afeto pelo coração da mesma amada. Só que nunca nos dispúnhamos a guerrear por esse ou aquele político safado, um ladrão de uma figa, outro grandíssimo pulha sem-vergonha ꟷ uma vez que, embora descontrolados, honrávamos o nosso brio.

De repente, ao menos para quem de fato não as aguarda, chegam a grande amiga de infância, esposa do fraternal amigo reencontrado, e uma jovem de sorriso adorável.

Sem ter comigo nenhuma história em comum, a filha mais velha do casal amigo enverga o uniforme elegante de um prestigiado comércio, outra rede que sofre por ficar longe da mão-de-obra tão colaboradora.

Quando nem se pensa nos ouvidos apurados de paredes arrivistas, quer melhor lugar que a rua pra ficar inteirado das alegrias de ter parido há quatro meses o primogênito mais sonhado dos netos?

Incontrolável, a vida das ruas tanto leva quem prezamos quanto traz quem menos imaginávamos vivo.

Fere a carne do meu pescoço aquela unha desastrada. Com dedos cadavéricos, de um anil demoníaco, aquela mão, de notório parentesco com o Drácula do Vincent Price de tantas madrugadas imberbes, tem por dono uma pessoa cuja presença eu nem tinha consciência de que a projetava submersa na areia da memória, que achava impolutamente trafegável.

Tal camarada está indo comprar um ventilador. A ele não pergunto que utilidade há de ter um aparelho desses em pleno inverno.

A sua pressa tem razão de ser. Quer um bivolt. Que seja de marca. Que tenha fama, mas de preço bom. No caso, é o que dê pra ser pago à vista. Nada de parcelar, pois os juros quase valem outro. E resta mais uma loja, que nem deve estar esperando por mais gente. E tomara que tenha o treco. E que o Bom Deus tenha dó e faça ter promoção nesta última que falta.

Todo apressado, o sujeito sequer se despede.

Vendo-me finalmente só, fico arrepiado. Pois acabo de me lembrar do imperdível compromisso noturno: acompanhar a caçada implacável ao Saci, pitador de capim-guiné.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de julho de 2021.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

O impossível

 

O impossível

 

Há repetições que são indispensáveis a quem fadado a cometer os mesmos erros reiteradamente, uma vez que, portador de idiossincrasia deveras incorrigível, deixa à mostra, em tudo que faz, deficiências que, basicamente, precisarão ser retificadas.

A quem procura ganhar tempo ao tempo, sabendo de antemão que seu melhor desempenho está em aprimorar o feito às pressas, tão logo confie ter realizado o que tinha para fazer, capital é debruçar-se sobre a fissura que o seu olhar reconheça como sendo a principal, posto que, é bem provável que não se deixe equivocar, a falha que dá sustentação ao malfeito esteja produzida de modo evidente.

Para maior aperfeiçoamento, repetir.

Todavia, sempre que posso, cuido não cair na lábia dos agourentos. Porque sou fraco, me impressiona fácil a ladainha dos nefastos.

Não sei quanto a você, mas costumo evitar determinadas pessoas, as que fazem parte daquele tipo humano, grupamento vasto e atuante, que raramente é capaz de transmitir notícias alegres, positivas, boas.

Assim que vejo representante desse aziago pessimismo ambulante, troco de calçada sem maiores constrangimentos. Fujo, pois fugir reduz o impacto negativo que as infelicidades provocam na minha alma, tão suscetível aos augúrios do fim do mundo.

Nestes dias, que mais parecem emperrados, parados pela roda da vida, desequilibrados por ação malfazeja, me sinto mais desafortunado que o mais azarado dos fracassados, pois, então, nestes dias horríveis, prefiro maritacas tagarelando à solta.

Uma vez que estou sofrendo, carente, que ando mesmo precisando de amor, compaixão e carinho, confesso minha vulnerabilidade. À boca miúda, tenho caminhado cabisbaixo, temeroso de ouvir a mim mesmo, acredito-me vero imbecil, um bobo a dar voz ao tartamudo.

Com a rua formigando, pensava nas doses cavalares de clemência que preciso pra me animar a querer o equilíbrio entre o desassossego e a tranquilidade. Mas a pacificação pede a consciência das emoções, as quais, sem terminar subjugado, nem sei bem como encarar.

Na falta de prática de ler com isenção o meu rosto como arena em que atuam as paixões, se fosse alguém sabido, escolheria observar as expressões das pessoas que passam por mim.

Sem fazer alarde, sem despertar antagonismos à minha disposição de observá-las amiúde, com intervalos curtos e por breves que fossem as olhadelas, queria os meus olhos convertidos em uma máquina para tirar esses retratos.

Assim, a posteriori e sem cutucar nas pessoas suas feridas abertas, poderia examinar os desejos registrados.

Para imagens fidedignas, a minha mente precisaria ter captação a mais cristalina possível? Creio que demandaria ser a tal grau sensível, que permitisse intuir as sutilezas com que as faces se camuflam.

Em outras palavras, minha cabecinha anseia o impossível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de julho de 2021.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Realmente

 

Realmente

 

Estou menos oco, realmente. Foi olhando a moça do caixa a pôr as compras em cada sacolinha que veio a ideia que estava faltando para explicar o desajuste a me apoquentar desde que fui confrontado com o queijo que evaporou de modo inexplicável. Era um enigma e tanto, pois o queijo sumiu mesmo hermeticamente protegido na geladeira.

Com senso de proporção, volume e peso, a funcionária do mercado demonstrou o quanto tinha de habilidade e técnica ao ir encaixando os itens no espaço disponível.

Se exagero?

Não sendo nenhum Giorgio Vasari, John Ruskin ou Harold Bloom, mestres de nomeada pela agudeza crítica, entendo que uma bela ideia nunca pede explicações para que seja adulada por mim. Adulo mesmo, inflo-a feito bola que rola redonda pelos gramados do mundo, a pedir um chute certeiro na gaveta, aliás, a suplicar pelo toque de classe bem no ângulo, trivela a encher os olhos de todo Maracanã lotado.

Uma bela ideia, todavia, jamais tive uma, pois sou um cara limitado. A minha inteligência não é daquelas que ata alho com bugalho, o rótulo honesto ao cabernet correto, sem fazer esforço algum.

Minha cabeça mediana não é pródiga em insights desconcertantes, surpreendentes, estupefacientes. Não tenho talento nem vocação para fantasias, como um Merlim a comandar dragões. Não tenho o dom de cartografar cavernas subaquáticas ou supraterrestres. Sou desses que enxergam mesmo só o que conseguem ver. Ou seja, não me lamento estar conformado por um dia a dia parco de maravilhas, raso de fábulas e despido de quimeras.

Não sendo gente que fica hipnotizada quando intui que a naja está dançando para que o flautista não pare de tocar, não perco o fôlego ao me pegar cometendo o que não sei fazer.

Não vou inventar uma explicação do arco-da-velha. Como o danado do queijo foi desaparecer do nada? Como vou ficar irritado quando não coço pulgas atrás da orelha? Como a porca torce o rabo sem mim, só de pensar em cumplicidade o ar foge de repente.

Se posso alegar ignorância?

Por notar que a noite estava querendo aprontar, foi botar a cabeça no travesseiro, porém, para que o ovo da serpente chocasse com meu calor de dorminhoco. Deveria ter encarado a madrugada e me despido para sentir o frio que sente quem vive nas ruas? Poderia ter a coragem de ter ido ao banheiro e não urinado na cama feito criança medrosa.

Contudo, o mijo gelado me enregelou até a nuca!

E na falta do Leviatã no mar noturno do meu sono? Saúvas.

Hein! Saúvas a penetrar a porta inexpugnável do refrigerador?

Se estivesse lúcido na vigilância do meu mundo, certamente não ia engolir uma barbaridade dessas. Mas foi em sonho ferrado que pude ver claramente. Minha razão pouco tem de formicida, e a coisa devorou o meu queijo inocente enquanto eu estava sonhando que não era eu a atacar na escuridão das horas.

Sim! As saúvas são um baita problema, Policarpo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de julho de 2021.

domingo, 4 de julho de 2021

Logística

 

Logística

 

Quando a manhã está destinada à glória de não mais desaparecer no esquecimento das eras, cada ação conta para contrariar o banal de estar vivendo só mais outro dos dias sempre rotineiros.

A começar pelo grito vindo do terraço do prédio em frente de casa, comigo na varanda a ultimar a ilustríssima leitura das notícias.

Achando que era um cumprimento urbano, retribuí com um aceno, como ao bom-dia protocolar retribuísse com igualmente, vizinho.

O morador do lado ensolarado da rua estava ouriçado, tagarelando, e eu o consegui compreender apenas supostamente.

Como almoçaríamos quibe de forno, deixei-o fixando na mureta do seu apê aquela bandeira com o inconfundível tucano azul e amarelo.

Pra colher hortelã, foi com essa intenção que fui pros fundos.

A gatinha veio ver o que estava ocorrendo, cheirou tudo, caçou no ar um inseto ou outro. Satisfeita de ter feito o que tinha pra fazer, voltou dormir no sofá, o seu cantinho predileto da casa.

Sem saber o que mais teríamos no almoço, não tinha me esquecido de que o arroz pedia cubos de bacon e provolone. Bastava ir comprar, e, porque responsável pela minha parte, fui de uma vez.

Um sujeito interpelou-me, como não traduzi aquele grunhido, fiz um positivo com o dedão. E segui em meu caminho.

Entre a fila de frios no fundo do mercado, cujo ar gelado não negava que estava condicionado pela plenitude do inverno, e o fundo do prato fundo do qual encheria sem moderação a colher de sopa com o fubá com a couve cortada finíssima, houve esse trânsito ao qual não fugi.

Macambúzio pelo desejo imaginário da sopa, cruzei com o mesmo sujeito, que, assim que me viu, passou a gesticular mais enfático, mais enfurecido, provavelmente ralhando comigo por algo que não teria feito nem na ida nem na volta.

Com o dito cujo controlando a esquina?

A ele não fiz nenhum sinal, sequer levantei a cabeça. Tratei de ir no meu passo, sem transmitir o desconforto daquele incômodo.

Com tamanha agressividade, queria que tirasse a máscara.

Nem sob vara iria tirar do rosto a proteção, ainda mais com aqueles perdigotos possuídos pela demência. Não ficaria exposto àquela baba contaminada pelo vírus do que há de pior à solta. Jamais me sujeitaria àquela saliva infecta, de pessoa que prefere vituperar contra a saúde coletiva, o bem-estar comunitário e a consciência individual. Nem a pau que iria me permitir fraquejar, ainda mais com toda aquela pantomima de gente autoritária desmascarada no passeio público.

Mesmo com as lentes embaçadas, não tropiquei. Fui em paz.

E fui logo cortando tomate, pimentão e cebola, pondo sal à vontade e algumas gotas de azeite. Todavia, pra ir misturando-os com o patinho moído, teria de ter espremido o alho e amassado a hortelã. Então, por meia hora, desde que tivesse ligado o forno a 300 graus...

Lógico!

E a gata? A sumida estaria no guarda-roupa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de julho de 2021.