O
horror
Esperando o trem na estação. Sentindo
que tem tempo. Sem se dar ao trabalho de ficar olhando para o relógio. Bastando
constatar que os carros vêm cheios. E continuam vindo, e vindo, todos abarrotados.
Reclamar seria bobagem. Não tem poder
pra alterar nada. Não veio por que tinha que vir? Saiba aguardar. Projetar como
estará o próximo trem é inócuo, mas faz isso assim mesmo.
Acerta, mais um trem entupido. Outro
mais. Só tem acerto, outro.
Nem percebe, mas graceja. Calcula por
calcular. Erra. E erra.
Diverte-se, mas os veículos obedecem a
um plano. Entre um e outro carro, há escala. É isso aí! Cada um fica parado um
espaço de tempo preciso. Com poucos segundos a mais ou a menos. Mas dá para
medir o quanto permanecem junto à plataforma. Entrega-se.
Quem embarca e quem desembarca? Virem-se.
Há lógica. Não se perca: segundos são importantes. Que não haja atrasos, pois o
mundo tem urgências, emergências, impaciências. As pessoas têm que correr, chegar
ao encontro, têm que seguirem. Mas, destinadas a quê?
Queria ter compromisso com o tempo.
Desconfia, sente que tempo perdido não acaba sendo recuperado apenas apertando
o passo.
Como queria ter cabeça pra manter o
foco. Sem ter que se lembrar de permanecer focado. A sua mente, porém, gosta de
dar uma viajada longe das órbitas universalmente definidas.
Não enxerga as pessoas passando
apressadas, entrando e saindo dos trens? Está se recordando do peixinho dourado
que durou, talvez, menos de quinze dias? É claro que não! Está preocupado em
apostar; a infância fique fora da estação.
Quando vê, está pisando a faixa
vermelha. Aliás, precisou olhar pro chão. Seria amarela ou vermelha? De fato, vê
a cor: é amarela aquela faixa de alerta. Perigo! Cuidado! Abra o olho!
Não ouviu os sapatos no concreto do piso
porque não foi necessário pisar forte como quem sabe muito bem que imagem é
tudo.
Imagem?
Ou você exibe a sua persona de gente que
faz o que faz, age como age, porque tem mesmo condições para representar-se
como indivíduo decidido, alguém que se empenha de coração a realizar o que tem
pela frente, e vai em frente, com obstinação e perseverança, sem titubear,
procrastinar, improvisar. Ou perde, porque os fracassos justificam tanta
entrega à identidade de pessoa que só marca bobeira.
Todavia, prefere esperar. A sua paz
depende de si.
Os trens do metrô vão e vêm. Vão apinhados,
e isso incomoda. Vêm do mesmo jeito, e continua incomodando.
Entrar no aperto? Sufocar-se querendo
espirrar? Perder o equilíbrio sem ter em que se apoiar? Irritar-se com fones
altíssimos?
De uma hora pra outra, foram-se os
minutos que tinha disponíveis. E não poderá querer que as condições melhorem.
Terá que ir. E sofrerá empurrões. E acarretará constrangimentos. Sob pressão,
pressionará.
De repente? De novo.
O terrível não é perceber-se sem tempo, é
aceitá-lo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de agosto de 2021.