O
homem dos pombos
Com tanta coisa acontecendo ao mesmo
tempo e em tudo quanto é canto, o mundo vive preso a acontecimentos encadeados
a eventos que se transformam em fatos quando uma pessoa, até historicamente sem
noção do que faz, torna público o testemunho do que viu, ouviu, e, jurando por
jurar, afirma não mentir.
Fazendo votos que as pontas soltas não
façam cegos os nós, que o registro prossiga.
No entanto, as memórias mais difíceis de
serem recuperadas sem um arranhãozinho cosmético que as torne verídicas a toda
prova são as inventadas, porque essas são as vividas somente em pensamento, e
pensamento custa sair com sabão neutro.
Aqui, e aqui é lugar deveras indefinido,
podendo ser uma cama no quarto de um motorista, um assento atrás do motorista
num ônibus ou uma privada na garagem dos ônibus. Aí, pasmo como uma folha em
branco, o motorista reage à informação de que perdera a folga, pois há muitos colegas
isolados por aí, com a covid-19.
E fazendo o quê no banheiro?
Não importa, pois aqui, nesta história em
que alguém sem noção não toma parte do relato como testemunha do que não viu ou
ouviu, nesta história urbana, há um arranjo de eventos sobre alguém.
No caso, alguém é a mulher dos gatos.
Embora outras localidades prefiram
registrar tal personagem como a mulher dos pombos, ou das pombas, optou-se
nomeá-la o homem dos pombos por uma única, e muito singular, razão: ela
é um senhor de cabeleira grisalha, face enrugada, costas encurvadas e voz, caso
fosse ouvida, gravemente roufenha, que sobrevive a uma cidade.
Esta figura, cuja existência não depende
em nada da convivência com os cidadãos politizados das residências com água e
luz em dia, ela faz que nem liga para toda aquela indiferença; afinal o povo
todo tem coisa bem mais importante para cuidar.
O velho, este senhor que está sentado no
banco da praça aos pés da igreja mais antiga da cidade, ele provavelmente está aposentado,
miseravelmente pobre, e certamente dá jeito de pagar pela cama de solteiro na
pensão familiar.
Ou seja, com tantas urgências clamando
decisões fundamentais, para que iriam ficar adulando com sentimentalidades um
sujeito cuja função nas relações mundanas está mais do que clara?
Fixe-se, portanto, alguns dos seus
defeitos.
O primeiro deles, evidentemente, está em
compartilhar seu amor à vida dando quirera aos muito humildes habitantes da
praça, dando a eles o cuidado da fala mansa, dando-lhes o afeto de sua vinda
calma; mesmo ultrajados por suas fezes, embora desprezados pelo barulho, ainda
que sejam, e precisamente por serem o que são, pombos.
O homem dos pombos não pede que o
respeitem pelo que faz, ele vem depois das dez e volta depois das quatro. Os
pombos comem e, tendo acabado de comer, voam. O homem também come chão.
Mas, como conta guiar-se pelo final
feliz: enquanto houver quirera, haverá pombos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de janeiro de 2021.