Outro
quiproquó
Um daqueles dias? Pois é, mais um deles.
Onde estão os meus óculos? No devido
lugar, no seu nariz.
Cadê a minha máscara? No saquinho, junto
com as outras.
Alguém viu a minha carteira? Na mesinha,
que foi do telefone.
E as chaves? Ao lado do saquinho, que
também não telefona.
Como você, que mora sozinho, consegue perder
fácil o foco?
Você acha que me embanano feito barata
tonta, né?
Não, não, você tem tendência a...
Entendi! Mas não tomo jeito. Sou do tipo
que dispara fazer alguma coisa, que nem lembro a razão óbvia pra não correr pegar
o ônibus e só me descubro sem freio já estatelado na esquina. Não vou negar, sou
fã abnegado de casca de banana distribuída por todo canto. Não posso fazer muita
coisa, pois cair de maduro é comigo.
Como invejo pessoa que se conhece sem o
menor esforço.
Essa é boa. Nem vou entrar nessa briga, pois
a luta pende, quase sempre, contra mim. Não tem jeito, pois não vou me enganar.
É claro que a balança escolhe o outro lado, que chateação.
De chateado pra chato, o caminho é
curto.
Aproveitando aquela imagem do ônibus
desgovernado, não queira saber carecas os pneus bem quando o cachorro resolve cruzar
a rua. Desacelere. Ainda dá tempo, não se perca estúpido.
De deslize em deslize, é triste me fazer
tão imbecil. Concordo.
Se ao menos terminasse as coisas que
começa. Mas, não.
O problema não se resume a me dedicar a
fazer tudo do começo ao fim. Com o acaso à solta no mundo, é complicado querer
levar a vida na serenidade. Sempre pipocam umas complicações.
A ordem natural do universo não faz você
correr que nem doido.
Doido, eu? Só falta me acusar como pai
do caos.
Fique despreocupado quanto a isso. Não
costumo trocar o sentido das palavras. Você não é anarquista nem baderneiro, é
bagunceiro. A sua vida não ficaria perfeita sem esse atropelamento contínuo, talvez
ficasse um pouco menos risível.
Não sou fleumático que acerta o passo
pelo relógio. Aliás, sequer relógio eu tenho. Puxa vida.
Vamos lá! Tenha pulso. Ganhe fibra. Tome
coragem pra enfrentar esse bicho que nem tem sete cabeças.
Então, a vida me chama para pôr ordem na
casa? Isso me tira do sério. Quem tem que limpar os cinzeiros sou eu, porque os
sujei. Mal começo a me livrar das bitucas, viro fumar. Isso é normal, tão
normal, que nem sinto estalo algum.
Aja, paciência, aja. Que sua mão sobre tal
babaquice transforme o desordeiro. Haja paciência, ainda que, raivoso, esmurre
a porta. A ele venha a temperança, pois, menos espaçoso, topará bater à porta.
Caso a vida figurasse reduzida a uma
porta, claramente, buscaria a chave perdida com a sensatez dos previdentes, que
não dão murro em ponta de faca nem atiçam à vara uma onça brava.
Viva!
Quer um Mozart no celular? Dou com a Waldstein
pela metade.
Não repita que... Não! Desta vez, não.
Neste dia 17, Ludwig van Beethoven teve o
nascimento registrado há 250 anos e um mês.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de janeiro de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário