domingo, 17 de janeiro de 2021

Outro quiproquó

 

Outro quiproquó

 

Um daqueles dias? Pois é, mais um deles.

Onde estão os meus óculos? No devido lugar, no seu nariz.

Cadê a minha máscara? No saquinho, junto com as outras.

Alguém viu a minha carteira? Na mesinha, que foi do telefone.

E as chaves? Ao lado do saquinho, que também não telefona.

Como você, que mora sozinho, consegue perder fácil o foco?

Você acha que me embanano feito barata tonta, né?

Não, não, você tem tendência a...

Entendi! Mas não tomo jeito. Sou do tipo que dispara fazer alguma coisa, que nem lembro a razão óbvia pra não correr pegar o ônibus e só me descubro sem freio já estatelado na esquina. Não vou negar, sou fã abnegado de casca de banana distribuída por todo canto. Não posso fazer muita coisa, pois cair de maduro é comigo.

Como invejo pessoa que se conhece sem o menor esforço.

Essa é boa. Nem vou entrar nessa briga, pois a luta pende, quase sempre, contra mim. Não tem jeito, pois não vou me enganar. É claro que a balança escolhe o outro lado, que chateação.

De chateado pra chato, o caminho é curto.

Aproveitando aquela imagem do ônibus desgovernado, não queira saber carecas os pneus bem quando o cachorro resolve cruzar a rua. Desacelere. Ainda dá tempo, não se perca estúpido.

De deslize em deslize, é triste me fazer tão imbecil. Concordo.

Se ao menos terminasse as coisas que começa. Mas, não.

O problema não se resume a me dedicar a fazer tudo do começo ao fim. Com o acaso à solta no mundo, é complicado querer levar a vida na serenidade. Sempre pipocam umas complicações.

A ordem natural do universo não faz você correr que nem doido.

Doido, eu? Só falta me acusar como pai do caos.

Fique despreocupado quanto a isso. Não costumo trocar o sentido das palavras. Você não é anarquista nem baderneiro, é bagunceiro. A sua vida não ficaria perfeita sem esse atropelamento contínuo, talvez ficasse um pouco menos risível.

Não sou fleumático que acerta o passo pelo relógio. Aliás, sequer relógio eu tenho. Puxa vida.

Vamos lá! Tenha pulso. Ganhe fibra. Tome coragem pra enfrentar esse bicho que nem tem sete cabeças.

Então, a vida me chama para pôr ordem na casa? Isso me tira do sério. Quem tem que limpar os cinzeiros sou eu, porque os sujei. Mal começo a me livrar das bitucas, viro fumar. Isso é normal, tão normal, que nem sinto estalo algum.

Aja, paciência, aja. Que sua mão sobre tal babaquice transforme o desordeiro. Haja paciência, ainda que, raivoso, esmurre a porta. A ele venha a temperança, pois, menos espaçoso, topará bater à porta.

Caso a vida figurasse reduzida a uma porta, claramente, buscaria a chave perdida com a sensatez dos previdentes, que não dão murro em ponta de faca nem atiçam à vara uma onça brava.

Viva!

Quer um Mozart no celular? Dou com a Waldstein pela metade.

Não repita que... Não! Desta vez, não.

Neste dia 17, Ludwig van Beethoven teve o nascimento registrado há 250 anos e um mês.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de janeiro de 2021.

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