Uma
caricatura regular
Do que se trata, afinal?
Parece que, a noite inteira, passou parado
no sono.
Como pedreiro que fez o seu melhor, tem
esse direito.
Possivelmente, tenha levantado uma
parede, aprumado a massa do reboco, usado a ciência da técnica. Fazendo o possível,
melhor.
Correu com o banho morno; engoliu mais
feijão que arroz; tão logo escolheu livrar-se dos apocalipses da TV, viu que
estava só.
Embora só, é bem possível que se tenha
mantido são, do jeito que pensava ser correto. Como pessoa que se esforça
manter a mesa em pé, solidamente nas quatro pernas de objeto do dia a dia, tem dessas
obrigações.
Ainda a perseverar, queria refrigerante
uma vez por semana. E ele bebia guaraná, por isso era domingo.
Simples, aos domingos podia o
refrigerante, porque se oferecia os luxos bobos de trabalhador austero.
É pessoa que ama a família, dá à esposa
e aos filhos um domingo menos apertado. Não está falido, pois respeita o rigor
das economias ajustadas pelo essencial.
Assim, na solidão, decidiu amar sua mulher.
Então, do que se lamenta?
Da repetição dos dias. Com seus gestos
de esforço, que fosse ao assentar tijolos e ao alinhá-los conforme ao desenho
do projeto, disso gostaria de ver-se dispensável.
Que merecesse outra oportunidade, pois
estudara nas geografias dos mapas, aprendera das negociatas de café e borracha.
Às vezes, pelo que hesita, entra a palpitar.
Contudo, nem que parecesse negativo, insistia
praticar a liberdade de não amar se escancaradas as intimidades indeclináveis da
cama.
Havia alegrias interditas; exibidas, de mãos
dadas a gracejos nos corredores de shopping. Que ele sabia disso por ter ido
para as datas anunciadas fundamentais. E fundamentava sua vida para mães, pais,
nascimentos e Nascimento.
Fiava viver pra melhorar.
Ainda que as costas andassem pedindo
intervenções, precisando dos dedos experimentados em restauração das carnes desnaturadas,
ainda assim, adotava airosamente os remédios, pesados no custeio e de apuradíssimas
soluções biomecânicas.
De maneira geral, do que se esquiva?
Certamente, com tantas tarefas e umas
poucas diversões, bebe o leite que a alvorada fria pede seja esquentado no
fogão. Tem sentido que aquela vida vem forçando os músculos dos braços.
É certo que, na constância forçada da
hora, na sobriedade do que consegue oferecer a si mesmo pelo que lhe pagam,
almoçará a coxa de frango com a macarronada ainda comestível na segunda. Tivesse
opção, devoraria hambúrgueres.
Sem agonia alguma, conta com afagos pra
amar com afeto.
Afinal, num preto e branco de caricatura
em traços ligeiros, é disso que se trata ꟷ de se contentar com o que tem feito;
de se apegar ao sentimento razoável de viver em dores, para flores, por amores;
de se avaliar bem feliz, indecorosamente vaidoso por ocupar a sua vida em manter
assinada a carteira.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de janeiro de 2021.
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