terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Quinze minutos

 

Quinze minutos

 

O momento era aquele. Tinha à frente um caminho a cumprir, pois a vida seguia seu curso. Como um riacho afluindo pro rio mais denso, sabia que as suas águas rasas colaboravam de maneira singela. Sem ostentação boboca, iam desaguando naturalmente.

Não fazia caso de enfeitar o pavão. Seria tolice dispensável querer acentuada a beleza que já possuía; como se a natureza funcionasse melhor com sua ajuda, dizendo-a linda de morrer.

A cauda de nenhuma outra fera estava em causa, o jeito, portanto, era manter a calma. Estando a ponto de precisar tomar uma decisão, aflito, acabaria por estragar a ocasião.

Pra marcar posição com consciência, sem ficar tenso nem sujeito às consequências da precipitação, precisava amenizar a urgência, foi pra isso que comeu umas bolachinhas e bebeu leite.

Frio, mais frio do que parecia realmente esperar bebê-lo. Porém, o que poderia querer, uma vez retirado direto da geladeira. Portando só haveria de estar gelado, obviamente gelado.

Se não bastasse a temperatura, o leite desceu como um torpedo no estômago, fervilhando sob ansiedades mil.

Poderia estar melhor, mas era assim e agia assim. E penava a ser como era, uma pessoa de difícil compreensão. Que o julgavam meio selvagem no trato com os demais, um problemático quando avaliado por seus atos.

Em outras palavras, com o entusiasmo patético de praxe, como se defendesse o estado democrático de direito, pegou o celular, teclou o número salvo e falou, controlando a voz para não dar a entender que poderia estar hesitante ou intimidado, que viessem entregar pizzas.

Com desenvoltura, seguro de que sua empáfia era justificada pelo pedido, de duas pizzas sem borda recheada e com refri de dois litros, enfatizou que poderia ser entregue além da meia hora destacada no material publicitário.

Era bom porque sabia entender o calamitoso da vez.

Ao telefone, e como precisava frisar, fez questão de destacar que uma gorjeta gorda seria paga se tudo corresse de acordo com suas exigências de consumidor razoável.

Tinha por bom esse costume de dignar-se a querer premiados os humildes que o honrassem com a servidão de boa-fé.

Se sua voz manteve-se firme e pausadamente disse as frases, por qual motivo não tinha sido atendido conforme o solicitado?

Ainda que não comunicada à família, tomou outra decisão.

Depois de quarenta e cinco minutos sem ver a cara do que pedira, atenderia o interfone pra gritar que não era otário pra ficar esperando além do admissível.

Havia limites intransponíveis. Uma barriga roncando é diferente de sua barriga estar roncando. E era vergonhoso a um pai de família ter de andar sem parar, à espera do infeliz do entregador.

Perdera o sábado. Perdera o gosto.

Contudo, por nada deste mundo perderia o tesão de participar do momento histórico, com Inglaterra X China arbitrada pela ANVISA.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de janeiro de 2021.

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