Aquarela
em carne viva
Se posso expressar meus sentimentos,
jorrando à realidade o que passo de momento, digo explicitamente que não tenho
vocação para crítico de arte. Portanto, engana-se quem, a partir do título da
crônica, possa estar imaginando que escreverei sobre Adriana Varejão.
Nada disso. E com outras preocupações, emendo:
ꟷ Conhece a Bíblia da Barsa?
Pois é, derrubei-a com suporte e tudo.
Foi estrondoso meu fiasco, já onze e pouco da noite.
Meus vizinhos certamente, assim como eu,
de cabeça quente com o andamento preocupante e vergonhoso (com pintas de
criminoso) da vacinação, e viro fazer barulho de repente.
Que homem erra matar um pernilongo
ordinário? Um bobo.
Dei bobeira, fiz bobagem, banquei um boboca.
Sobreveio a besteira do livro sendo
derrubado por causa de gesto mal calculado, pela distância imprecisa, pelo olho
torto de raiva.
Catei o trambolho do chão. Assentei-o de
volta no lugar. Ao acaso, abri o tomo e deu em Tobias, que me lembrou de
Sulamita.
Conheço a Sulamita personagem das minhas
leituras erráticas da Bíblia e a esposa de um Tobias, que um dia foi estudante
de Filosofia na mesma universidade em que me graduei em Letras.
A mente monta sua banca pra vender
ilusões, compro-as por amor ao próximo. Ainda que a irritação com as atualidades
me faça passar por um sono assediado por fantasmas de carne e osso.
O que estou querendo dizer?
Queria pra hoje uma crônica sobre o
centenário de João Cabral de Melo Neto, cuja efeméride foi em 2020, que nem me
lembrei. Queria, mas do ruído noturno brotou Sulamita. Justamente esta Sulamita
tão apaixonada pela poesia do João Cabral.
ꟷ Seu Rodrigues, que fim levou o bicho?
Pra não repetir o fracasso estúpido de
uma ação desastrada, tratei de esperar que assentasse onde o tapa fosse a
solução e não motivo pra renovar a fúria num espírito já meio sem limite.
Ele pousou na escrivaninha onde fica o computador.
Não titubeei. E com gesto simples e certeiro, dei cabo do danado.
ꟷ Voltou a dormir feito anjo, seu
Rodrigues?
Quem dera fosse possível ter em calmaria a madrugada.
Nem bem apaguei a luz, uma barata veio
estragar a tranquilidade.
Por demonstrada incompetência pra lidar
com pestes domésticas, e me refiro literalmente a pernilongos e baratas, já
antevendo a vinda de ratos, democraticamente paro a crônica um instante.
ꟷ Seu Rodrigues, pra quê isso?
Entretanto parei. Mesmo não assinando o
retrato apocalíptico que meus demônios teimam pincelar com traços exageradamente
tensos, dei-lhes razão. Humildemente, fui telefonar à empresa especializada em
extermínio desses animais pestilentos.
Enfim, como não tenho pesadelos por
querer dormir em paz, como está ao alcance da minha alçada não transformar a minha
casa num chamariz, fi-lo pra evitar futuras rondas noturnas, porque dedetização
não é urgente, é ação preventiva.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de janeiro de 2021.
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