terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Restos

 

Restos

 

Passada a vaca fria da virada, o negócio é turbinar os tamborins pro carnaval pegar. Aliás, por conta das comilanças nem um pouco prosaicas, à base de peru e bacalhau, frios e pães andaram murchos.

Pão mofado no lixo?

De fato, o cérebro traduz a imagem: é desperdício.

Mesmo sem pânico nem faniquito, acabo macambúzio.

O passado olha por mim. Vendo-me triste, bem jururu nestes dias confinados ao caminho do tédio, quer-me feliz por tantas glórias.

Todavia, não escondo que me alimenta a paixão dos fervorosos, a ânsia de quem vive contrariado. Pois opto por andar, junto e ao lado, dos que não se deixam corroer pela modorra do sempre igual.

Mas, não entendo a rotina só como mesmice.

Tenho hábitos a preservar, que os vou construindo passo a passo, uma vez que sinto ter a necessidade da reconstrução da autoestima a cada ano, mês, a cada dia.

Não exagero, a ponto de dizer o que me soaria leviana tolice, que busco equilíbrio entre razão e instinto a todo instante. À vera, acaso desse eu ao momento a primazia da definição da minha identidade, avaliaria mal, como ilusão, em autocomiseração enganosa. Ou enfim, entraria pela loucura, e ao louco não busco nem almejo.

Admito, que, vez por outra, entreouço seus sussurros de pitonisa, ora melífluos, pouco abissais, ora ácidos, nada utópicos. No fundo, há esse artifício vulgar: como serpente peçonhenta, o mesmo de sempre sabe hipnotizar.

E notícias na TV asseguram-me que as chuvas de verão seguem varrendo morros e valas pro leito assoreado de riachinhos posando de Velho Chico ou Amazonas.

Meus sais, céus!

Só com a mão firme de Maradona pra barrar o brochante 2020.

Recorro ao 03 de julho de 1990, ao primeiro tempo da prorrogação em Nápoles, à semifinal da Copa realizada na Itália, aos oito minutos de acréscimo, ao inexplicável do tempo, à cabeça do árbitro francês Michel Vautrot, porque houve um treco, talvez um encantamento por adrenalina, uma febre mental por conta da divisão entre os italianos do norte e os do sul que o Dios argentino soube explorar, a seu favor, no duelo dos platinos com a Azzurra.

Será indício de que a realidade me escapa?

Caramba. Não me é possível agir com 100% de confiança no êxito dos meus atos, nem como ação nem como reação. Assim, comigo no leme, tchau mundo perfeito.

A minha cabeça tem os seus próprios jogos. Há pensamentos que brincam comigo, querendo-me submerso em frustrações.

Tenho limitações. Não tenho acesso a tudo o que penso. Portanto, não me controlo. Passional, ajo racionalmente. Portanto, tenho como ser diferente. No instante em que vivo, mergulhado na realidade, não tenho a sensação de estar naufragando. Afinal, resta-me ser humano.

E o quico?

Neste 04/01/2021, há 40 anos, lembram-me as folhas que o tento, miserável e único, que marcou o Dez Eterno contra o Brasil foi nesse clássico disputado em Montevidéu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de janeiro de 2021.


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