Restos
Passada a vaca fria da virada, o negócio
é turbinar os tamborins pro carnaval pegar. Aliás, por conta das comilanças nem
um pouco prosaicas, à base de peru e bacalhau, frios e pães andaram murchos.
Pão mofado no lixo?
De fato, o cérebro traduz a imagem: é
desperdício.
Mesmo sem pânico nem faniquito, acabo
macambúzio.
O passado olha por mim. Vendo-me triste,
bem jururu nestes dias confinados ao caminho do tédio, quer-me feliz por tantas
glórias.
Todavia, não escondo que me alimenta a
paixão dos fervorosos, a ânsia de quem vive contrariado. Pois opto por andar,
junto e ao lado, dos que não se deixam corroer pela modorra do sempre igual.
Mas, não entendo a rotina só como
mesmice.
Tenho hábitos a preservar, que os vou
construindo passo a passo, uma vez que sinto ter a necessidade da reconstrução
da autoestima a cada ano, mês, a cada dia.
Não exagero, a ponto de dizer o que me
soaria leviana tolice, que busco equilíbrio entre razão e instinto a todo
instante. À vera, acaso desse eu ao momento a primazia da definição da minha
identidade, avaliaria mal, como ilusão, em autocomiseração enganosa. Ou enfim, entraria
pela loucura, e ao louco não busco nem almejo.
Admito, que, vez por outra, entreouço
seus sussurros de pitonisa, ora melífluos, pouco abissais, ora ácidos, nada utópicos.
No fundo, há esse artifício vulgar: como serpente peçonhenta, o mesmo de sempre
sabe hipnotizar.
E notícias na TV asseguram-me que as
chuvas de verão seguem varrendo morros e valas pro leito assoreado de
riachinhos posando de Velho Chico ou Amazonas.
Meus sais, céus!
Só com a mão firme de Maradona pra barrar
o brochante 2020.
Recorro ao 03 de julho de 1990, ao
primeiro tempo da prorrogação em Nápoles, à semifinal da Copa realizada na
Itália, aos oito minutos de acréscimo, ao inexplicável do tempo, à cabeça do
árbitro francês Michel Vautrot, porque houve um treco, talvez um encantamento
por adrenalina, uma febre mental por conta da divisão entre os italianos do
norte e os do sul que o Dios argentino soube explorar, a seu favor, no
duelo dos platinos com a Azzurra.
Será indício de que a realidade me escapa?
Caramba. Não me é possível agir com 100%
de confiança no êxito dos meus atos, nem como ação nem como reação. Assim, comigo
no leme, tchau mundo perfeito.
A minha cabeça tem os seus próprios jogos.
Há pensamentos que brincam comigo, querendo-me submerso em frustrações.
Tenho limitações. Não tenho acesso a tudo
o que penso. Portanto, não me controlo. Passional, ajo racionalmente. Portanto,
tenho como ser diferente. No instante em que vivo, mergulhado na realidade, não
tenho a sensação de estar naufragando. Afinal, resta-me ser humano.
E o quico?
Neste 04/01/2021, há 40 anos, lembram-me
as folhas que o tento, miserável e único, que marcou o Dez Eterno contra o
Brasil foi nesse clássico disputado em Montevidéu.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de janeiro de 2021.
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