Uma
vaga lembrança
Para expressar uma opinião, é preciso
tê-la.
A questão, portanto, está em ir pelas
pegadas até o ponto que for possível, sem exagerar na dose. Para não acabar borracho,
portanto incapacitado de avaliar se aquela água toda é o mar ou uma lagoa. À noite,
então, melhor nem se empolgar. Ainda que a lua colabore com o seu poético e
brando fulgor. Há encantos, no entanto, que vão além do romantismo, servindo
como detalhes num postal. Ou seja, é bom estar atento aos indícios e tratar de
ir juntando os fios da meada, pois é isso que permitirá a localização mais
precisa: no emissário da José Menino ou às margens da Itupararanga.
Localizando-se, vem outra etapa.
O que estou fazendo? Com esse frio, com
essa garoa escorrendo pelas pálpebras, estarei abrigando o inverno na minha cabeça?
É por experiência própria, mergulhado no
barato dessa psicologia sem elementares fundamentos científicos e sem sólidos
argumentos lógicos, que bebo dessa água. Confesso, estou gostando de bebê-la.
E sem quem me chame à razão, vou
bebendo.
Mas não há consolo, há porre.
Depois, mas antes da água de coco, viro mais
outra dose. Até que amanheça, vou no embalo. Com o dia posto, então, é o caso
de ir pro bar mais longe de casa. Assim a volta poderá se prolongar, tornando
improvável cortar caminho.
Se a opção é sair da rua perpendicular
pra entrar na paralela, em ambas, porém, é possível seguir dando carga às
células nervosas.
Muitas, muitas, e muitíssimas cargas
depois, já convém me admitir encarnado no bêbado exemplar.
Aquele que vomita para abrir espaço para
mais doses, porque ele conhece, sem nostalgia da aguardente, o fogo que desce rasgando,
e vai aquecendo nas entranhas esse desejo de enfiar o dedo na goela. E vale a pena
pensar, especula esse bebum.
Portanto, só com a roupa do corpo, faz
sentido levar dinheiro e os cartões. Faz-se isso pra não dar tempo ao tempo,
cuja sabedoria não se discute.
Política e religião, isso pede debate
acalorado.
Quanto a beber... O melhor é beber por beber.
Não pra esquecer nem pra tripudiar.
Assim, embriagado de mim nesse extravio
pela lembrança, sento praça na conveniência de querer-me autoridade sobre o
assunto. De mim falo eu sem medo de errar. Por isso, é certo, não erro feio.
Diretamente na jugular, e reconheço a
letra só de bater o olho, diz a mensagem na garrafa: toque a vida que lhe toca
viver, José.
Onde estou, José?
Entre esse convidado que só foi entrando
e mim, tenho apenas a memória que não me sai do pensamento. A me forçar a mão, a
pegar pesado pro reconhecimento do que ando aprontando.
Sem isenções de impessoalidade, o que me
enche vagamente de certeza é dar comigo a ler uma entrevista da Cecília Jorge.
Talvez por que seja uma busca pessoal e intransferível?
Destarte, calmo no sereno, faço minha esta
ideia de que conhecer a identidade é uma forma de sobreviver.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2021.
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