quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Uma vaga lembrança

 

Uma vaga lembrança

 

Para expressar uma opinião, é preciso tê-la.

A questão, portanto, está em ir pelas pegadas até o ponto que for possível, sem exagerar na dose. Para não acabar borracho, portanto incapacitado de avaliar se aquela água toda é o mar ou uma lagoa. À noite, então, melhor nem se empolgar. Ainda que a lua colabore com o seu poético e brando fulgor. Há encantos, no entanto, que vão além do romantismo, servindo como detalhes num postal. Ou seja, é bom estar atento aos indícios e tratar de ir juntando os fios da meada, pois é isso que permitirá a localização mais precisa: no emissário da José Menino ou às margens da Itupararanga.

Localizando-se, vem outra etapa.

O que estou fazendo? Com esse frio, com essa garoa escorrendo pelas pálpebras, estarei abrigando o inverno na minha cabeça?

É por experiência própria, mergulhado no barato dessa psicologia sem elementares fundamentos científicos e sem sólidos argumentos lógicos, que bebo dessa água. Confesso, estou gostando de bebê-la.

E sem quem me chame à razão, vou bebendo.

Mas não há consolo, há porre.

Depois, mas antes da água de coco, viro mais outra dose. Até que amanheça, vou no embalo. Com o dia posto, então, é o caso de ir pro bar mais longe de casa. Assim a volta poderá se prolongar, tornando improvável cortar caminho.

Se a opção é sair da rua perpendicular pra entrar na paralela, em ambas, porém, é possível seguir dando carga às células nervosas.

Muitas, muitas, e muitíssimas cargas depois, já convém me admitir encarnado no bêbado exemplar.

Aquele que vomita para abrir espaço para mais doses, porque ele conhece, sem nostalgia da aguardente, o fogo que desce rasgando, e vai aquecendo nas entranhas esse desejo de enfiar o dedo na goela. E vale a pena pensar, especula esse bebum.

Portanto, só com a roupa do corpo, faz sentido levar dinheiro e os cartões. Faz-se isso pra não dar tempo ao tempo, cuja sabedoria não se discute.

Política e religião, isso pede debate acalorado.

Quanto a beber... O melhor é beber por beber. Não pra esquecer nem pra tripudiar.

Assim, embriagado de mim nesse extravio pela lembrança, sento praça na conveniência de querer-me autoridade sobre o assunto. De mim falo eu sem medo de errar. Por isso, é certo, não erro feio.

Diretamente na jugular, e reconheço a letra só de bater o olho, diz a mensagem na garrafa: toque a vida que lhe toca viver, José.

Onde estou, José?

Entre esse convidado que só foi entrando e mim, tenho apenas a memória que não me sai do pensamento. A me forçar a mão, a pegar pesado pro reconhecimento do que ando aprontando.

Sem isenções de impessoalidade, o que me enche vagamente de certeza é dar comigo a ler uma entrevista da Cecília Jorge. Talvez por que seja uma busca pessoal e intransferível?

Destarte, calmo no sereno, faço minha esta ideia de que conhecer a identidade é uma forma de sobreviver.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2021.

 

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