Um
porre e tanto
Você provavelmente conhece a situação.
Quando o domingo entra num chove não molha que não sai do lugar, isso aborrece.
Este, todavia, tem seus encantos. Diferentes.
Embora não chegue a conceber-se de uma raridade inigualável, a memória precisa
fazer um esforço maior que o normal pra que seja constatado o horror.
Sim, depois que o tédio se instala, vem
a sensação desagradável de que tem coisa errada. O mundo anda emperrado.
Enguiçadas, as horas vão rodando que nem
porquinho-da-índia na gaiola. Nem um pouco legal nem nada fantástico, o bicho prefere
ficar olhando. E fica nisso.
Coisa esquisita, até lembra rolha ressecada
desafiando tirá-la sem esfarelar. Esfarelada, sujaria o merlot. Cujo tinto vai
seguir reservado pra quando estiver vivendo um momento mais comum. Pra degustar
com gosto, sem a afobação de encher a cara.
Veja bem, apelar pra porquinho-da-índia?
Com o jogo rolando, é preciso continuar jogando.
Do jeito que dá, e com o que esteja disponível. Procurando organizar as ideias.
Feito chuva que chove no molhado
significando a perda de tempo, o olhar do porquinho-da-índia está indicando
algo, só que, por demais implícito, o sentido confunde.
Como parece que o problema passa pelo
olho que vê pelo filtro da sua miopia, pra despir a boca das certezas que teimam
corrigir o que diz, vê tão mal que não diz nada.
Nem basta esfregar os olhos pra que suma
de vez. Aliás, será erro acusá-lo monstro? Será fácil. E você não gosta de
facilitar.
Temendo cometer sincericídio,
desengasgando o que pensa como prognósticos enfáticos sobre a vida, forma-se
uma película sobre as coisas. Daí o desconforto de ver-se sob a pele
irrespirável do medo.
Avesso a normas universais de validade
profundamente duvidosa, empaca na quietude de quem se obriga a um silêncio
nebuloso, mas útil a evitar vergonhas por falar muito, perdendo-se pelas
palavras.
Se há névoa, se permanece impassível
diante da deterioração da própria reputação, há culpa. Então, culpa-se pela
culpa de sincericida que se cala.
Nascido para aglomerar-se com os seus
dessemelhantes, imbuído do desejo de afirmar-se em meio a quem tanto o despreza
por suas dúvidas conflitantes, surta ao ver-se a perpetrar insinceridades.
Para tentar apaziguar-se, terá de ouvir-se
desencanado. Portanto, sem se fingir de mudo. Apesar de certas dificuldades de
entender-se consigo, procure ao menos escutar o que não fala.
Fosse mais leve, mas não é. Você se angustia
ao não se furtar a prazeres estimulantes. E dependente de endorfina, põe-se à
roda; e carente de adrenalina, prende-se à gaiola.
Dolorosamente fitando aquele
porquinho-da-índia que não existe, precisa separar o vinho do vinagre.
Fantasma livre para nada, suspenso na
intensidade do instante, o domingo não corre.
Não é à toa que a carantonha o assusta,
embriaga-se.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário