terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Um porre e tanto

 

Um porre e tanto

 

Você provavelmente conhece a situação. Quando o domingo entra num chove não molha que não sai do lugar, isso aborrece.

Este, todavia, tem seus encantos. Diferentes. Embora não chegue a conceber-se de uma raridade inigualável, a memória precisa fazer um esforço maior que o normal pra que seja constatado o horror.

Sim, depois que o tédio se instala, vem a sensação desagradável de que tem coisa errada. O mundo anda emperrado.

Enguiçadas, as horas vão rodando que nem porquinho-da-índia na gaiola. Nem um pouco legal nem nada fantástico, o bicho prefere ficar olhando. E fica nisso.

Coisa esquisita, até lembra rolha ressecada desafiando tirá-la sem esfarelar. Esfarelada, sujaria o merlot. Cujo tinto vai seguir reservado pra quando estiver vivendo um momento mais comum. Pra degustar com gosto, sem a afobação de encher a cara.

Veja bem, apelar pra porquinho-da-índia?

Com o jogo rolando, é preciso continuar jogando. Do jeito que dá, e com o que esteja disponível. Procurando organizar as ideias.

Feito chuva que chove no molhado significando a perda de tempo, o olhar do porquinho-da-índia está indicando algo, só que, por demais implícito, o sentido confunde.

Como parece que o problema passa pelo olho que vê pelo filtro da sua miopia, pra despir a boca das certezas que teimam corrigir o que diz, vê tão mal que não diz nada.

Nem basta esfregar os olhos pra que suma de vez. Aliás, será erro acusá-lo monstro? Será fácil. E você não gosta de facilitar.

Temendo cometer sincericídio, desengasgando o que pensa como prognósticos enfáticos sobre a vida, forma-se uma película sobre as coisas. Daí o desconforto de ver-se sob a pele irrespirável do medo.

Avesso a normas universais de validade profundamente duvidosa, empaca na quietude de quem se obriga a um silêncio nebuloso, mas útil a evitar vergonhas por falar muito, perdendo-se pelas palavras.

Se há névoa, se permanece impassível diante da deterioração da própria reputação, há culpa. Então, culpa-se pela culpa de sincericida que se cala.

Nascido para aglomerar-se com os seus dessemelhantes, imbuído do desejo de afirmar-se em meio a quem tanto o despreza por suas dúvidas conflitantes, surta ao ver-se a perpetrar insinceridades.

Para tentar apaziguar-se, terá de ouvir-se desencanado. Portanto, sem se fingir de mudo. Apesar de certas dificuldades de entender-se consigo, procure ao menos escutar o que não fala.

Fosse mais leve, mas não é. Você se angustia ao não se furtar a prazeres estimulantes. E dependente de endorfina, põe-se à roda; e carente de adrenalina, prende-se à gaiola.

Dolorosamente fitando aquele porquinho-da-índia que não existe, precisa separar o vinho do vinagre.

Fantasma livre para nada, suspenso na intensidade do instante, o domingo não corre.

Não é à toa que a carantonha o assusta, embriaga-se.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2021.


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