Notícia
do cão do mundo
Neste nosso planeta abarrotado de distâncias
abissais, uma pulga pode pouco. Menos ainda essa aí que, naturalmente
condicionada à sobrevivência, passa aos saltos por entre as mesas
protocolarmente espaçadas. No presente histórico da alimentação desse nosso
inseto, deselegante relatar que a sorte esteja ao nosso lado por nos abreviar à
seguinte passagem:
Prefiro julgar a pintura pelas paredes
que vejo, disse o homem.
Por tê-lo ouvido, a mulher fechou a
cara.
Tanto ouviu que tratou de rechaçar com
firmeza, dizendo que um estranho não permaneceria um dia a mais dentro da sua
residência.
Por sua vez, educado ao ouvi-la, o
provável marido destacou que o cidadão cometera o deslize de ir trabalhar
cheirando a álcool; mas pela ressaca, não que estivesse bêbado.
Insistiu a suposta esposa na interdição
do tal sujeito irresponsável; ficasse ele com o vício, bem longe dos
vulneráveis filhos. Que fosse prestar os préstimos onde o aceitassem, por
ignorância ou leniência. Ela tinha princípios e fazia questão de dar-lhes o
crédito da prioridade sobre o que não punha fé. Portanto, exigia que as
integridades física e moral, suas e as de seus filhos, fossem ambas respeitadas;
e ponto final, posto que as duas eram inegociáveis.
O senhor de óculos, tirou-os, limpou-lhes
as lentes com o paninho tirado do estojo próprio. Não se deixaria derrotar, porque
via o mundo de olho nos resultados. Então, se as paredes estavam bem pintadas,
sem emendas e sem apresentar camadas desiguais na espessura de tinta, por que,
diabos, haveria de ficar caceteando o pobre coitado?
Pintura de parede não é a Santa Ceia, amada
minha.
Por isso, vamos abrir mão do pincel de São
Francisco? Meu bem, se acontecer alguma coisa, não quero saber de lamentações.
O quê? Meu anjo, espero me fazer
entender... A nossa inestimável casa ficará agradável aos olhos, habitável como
nova, boa de morar.
E se o desgraçado fumar um dos seus afamados
charutos?
Não vou bater cinzeiros à cata de restos
de algum Montecristo.
Santo Deus, não poderá o senhor ao menos
dar-se ao trabalho de pensar como deve, como pai de suas crianças?
Amanhã cedo, amantíssima, antes mesmo
que o dito cujo adentre nosso lar, e dou como sagradas as minhas palavras, farei
a gentileza de checar os odores do homem. Isso lhe parece aceitável?
Constatada a embriaguez, faça o favor de
barrar-lhe o acesso.
Em pleno Natal, Maria Aparecida?
Não seja covarde de usar o Natal como
desculpa, José Augusto.
Cacilda!
Não abusemos da ingestão das atualidades,
uma vez que os fatos caem indigestos pela sanidade das Festas.
Assim, dando pinceladas de realismo isolante,
face estarmos bem próximos a tamanho abominável desamor, que em nossa pulga nem
lhe faz ferver o sangue frio, celebremos sem desprezo.
Menos cínicos, apuramos o olfato ao
buscarmos outro cão.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2020.