quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Notícia do cão do mundo

 

Notícia do cão do mundo

 

Neste nosso planeta abarrotado de distâncias abissais, uma pulga pode pouco. Menos ainda essa aí que, naturalmente condicionada à sobrevivência, passa aos saltos por entre as mesas protocolarmente espaçadas. No presente histórico da alimentação desse nosso inseto, deselegante relatar que a sorte esteja ao nosso lado por nos abreviar à seguinte passagem:

Prefiro julgar a pintura pelas paredes que vejo, disse o homem.

Por tê-lo ouvido, a mulher fechou a cara.

Tanto ouviu que tratou de rechaçar com firmeza, dizendo que um estranho não permaneceria um dia a mais dentro da sua residência.

Por sua vez, educado ao ouvi-la, o provável marido destacou que o cidadão cometera o deslize de ir trabalhar cheirando a álcool; mas pela ressaca, não que estivesse bêbado.

Insistiu a suposta esposa na interdição do tal sujeito irresponsável; ficasse ele com o vício, bem longe dos vulneráveis filhos. Que fosse prestar os préstimos onde o aceitassem, por ignorância ou leniência. Ela tinha princípios e fazia questão de dar-lhes o crédito da prioridade sobre o que não punha fé. Portanto, exigia que as integridades física e moral, suas e as de seus filhos, fossem ambas respeitadas; e ponto final, posto que as duas eram inegociáveis.

O senhor de óculos, tirou-os, limpou-lhes as lentes com o paninho tirado do estojo próprio. Não se deixaria derrotar, porque via o mundo de olho nos resultados. Então, se as paredes estavam bem pintadas, sem emendas e sem apresentar camadas desiguais na espessura de tinta, por que, diabos, haveria de ficar caceteando o pobre coitado?

Pintura de parede não é a Santa Ceia, amada minha.

Por isso, vamos abrir mão do pincel de São Francisco? Meu bem, se acontecer alguma coisa, não quero saber de lamentações.

O quê? Meu anjo, espero me fazer entender... A nossa inestimável casa ficará agradável aos olhos, habitável como nova, boa de morar.

E se o desgraçado fumar um dos seus afamados charutos?

Não vou bater cinzeiros à cata de restos de algum Montecristo.

Santo Deus, não poderá o senhor ao menos dar-se ao trabalho de pensar como deve, como pai de suas crianças?

Amanhã cedo, amantíssima, antes mesmo que o dito cujo adentre nosso lar, e dou como sagradas as minhas palavras, farei a gentileza de checar os odores do homem. Isso lhe parece aceitável?

Constatada a embriaguez, faça o favor de barrar-lhe o acesso.

Em pleno Natal, Maria Aparecida?

Não seja covarde de usar o Natal como desculpa, José Augusto.

Cacilda!

Não abusemos da ingestão das atualidades, uma vez que os fatos caem indigestos pela sanidade das Festas.

Assim, dando pinceladas de realismo isolante, face estarmos bem próximos a tamanho abominável desamor, que em nossa pulga nem lhe faz ferver o sangue frio, celebremos sem desprezo.

Menos cínicos, apuramos o olfato ao buscarmos outro cão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2020.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A cereja do Natal

 

A cereja do Natal

 

Como assim, sentir-se péssimo não faz ninguém pessimista?

 

Ora, ora, ora. Tão logo o verão chegasse, viria o Natal.

Vindo, quando nem parecia que cumpriria com sua palavra, tanto aguardada, a alegria, mais humana que propriamente cristã, o tchan contagiante do Natal, trazendo-se em festa, chega.

Mas vindo como nunca, por conta do ano transfigurado pela peste, terá de ter espaço na agenda pra correr atrás dos presentes.

Oxe.

Sentado já faz algum tempo, sem sequer ter pedido seu expresso com pão na chapa, trazia explícita a última noite. Toda ela passada a lutar consigo, a noite anterior doía como uma chaga.

Atestam-no aquelas rugas do cenho, aqueles pigarros rançosos e umas malditas agulhadas no lado posterior direito do pescoço. Isto é? Como osso tenso a mordê-lo, o bicho pegou-o de jeito e ainda seguia ativamente cravado nas suas carnes, de ser indigente a suplicar que a sua condição flagelante não fosse visualizada.

De certo, porém: dera conta do dia.

Cuidou se virar com umas poucas das habilidades das quais podia assegurar-se de tê-las como úteis no dia que vivera. E àquela altura da manhã, quase sete, queria dele ver-se livre, queria que aquele seu ontem estivesse encerrado.

Mas o cansaço, não somente o físico, minava a ideia da entrega muscular e emocional ao que era de sua responsabilidade, o instante desse momento, ao qual teria de voltar-se, ocupar-se, preocupar-se.

O que trazia da véspera?

O lençol foi do varal pro colchão, nem bem tinha voltado do banco, onde quis em ordem as pendengas dos boletos, indignantes boletos.

O pijama foi enjeitado. Pelo tombo de boca aberta, ficara de cueca babando de roncar, num espetáculo grotesco.

A roupa do corpo era a que vestira anteontem. Haja perfume.

Algo feio de sentir e, pior, bem pior, uma pantomima tenebrosa de presenciar. Sem dúvida, parecia um espantalho, espantalhadérrimo.

Fútil negar que precisava parar, até pra refletir direito.

E sentara.

Adiantado lá bem quase uma hora, que viera dar ali sem se notar à inércia dos negócios. Com as suas dobras, exposto à alma cheia de vínculos com uma realidade tão perturbadora quanto intraduzível.

Como ideia lógica: poderia o luxo de ter tempo pra desperdiçá-lo.

O tempo, essa coisa selvagem, um lobo astuto, caninos abstratos a tentá-lo à discrição, tecendo-o invisivelmente, a desfiá-lo cordato.

Sua maneira de lidar com desassossegos insidiosos que o querem preso aos embates contemporâneos?

Tem muitos compromissos, muita coisa pra fazer, por isso espera impaciente que, na maior xícara assentada perfeitamente no maior pires da cafeteria, o fumegante do cafezinho dissipe-se de todo. Para beber num gole, precisa que o café esteja frio, frio.

 

Talvez você possa concordar com os pensadores rigorosos que já bolaram que ninguém alcança libertar-se de si mesmo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de dezembro de 2020.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Os haveres

 

Os haveres

 

Havia na casa dois relógios, nenhum deles inaugurado com banda tocando dobrado. Havia um par de gatos. Havia esses felinos felizes, porque os relógios da casa não tinham aquela batida chatíssima dos movidos a corda. Havia duas vasilhas pra água. Havia duas tigelinhas pra ração. Havia duas caixinhas de areia, que os bichos usavam sem que fosse preciso pedir-lhes que usassem. Havia duas caminhas, que os gatos ocupavam quando bem queriam. Havia o tempo das novelas na TV bem como o tempo pra miados fora de hora, embora regulados pelo foro íntimo lá deles, de gatos familiarizados. Havia muitas tarefas a impelir os humanos à desmedida desatenção às necessidades dos bichanos. Havia buliçosas confusões que nem modernas psicologias podiam aclarar, embora pessoas vivendo sob aquele teto carecessem de amparo, ou desabariam na pinga ou largadas no sofá, sujeitas que estavam ao bom funcionamento do controle remoto ou a destemperos de barriga vazia. Havia tal compulsão de manter carregadas as pilhas dos aparelhos comedores de pilha. Havia de conservar a lucidez sem o sono que vivia perdendo. Havia certa dor de cabeça, que a falta de sonho ardia pela mágica acachapante dos analgésicos tão preferidos. Havia a cara amassada de ficar virando de lado, em implicâncias com travesseiro, meias, cobertas. Havia tanto que descansar. Havia pouco pescara. Havia, sensivelmente implacável, o despertador a despachar outra das noites do barulho.

Há madrugadas que surtam de cio. Há gatos que adoram telhado. Há a ordem natural que as coberturas mais seguras põem abaixo. Há machos que piram na batatinha quando têm um formigueiro no rabo. Há fêmeas que não sossegam o facho mesmo quando embaraçadas. Há que se ater aos fatos. Há que se fixar no acasalamento animal. Há de ter juízo pra coisa não desandar num saco de gatos. Há de ter-se o cuidado de lembrar-se de que até gato escaldado roça a língua em lata de sardinha. Há muito azar mesmo ao se cortar. Há que lavar as mãos pra tirar o cheiro de peixe. Há lixeiras que castram a satisfação garantida. Há gatos que ficam doidos só de ouvir falar em banho.

Haverá de acordar no horário. Haverá de ajustar-se pelo incômodo dos desajustes. Haverá de aprimorar-se quando o adiantado da hora andar acelerado. Haverá de dar os passos indispensáveis à frente tão logo o atraso sinta-se abrigado no que vigora. Haverá de trocar o leite nas tigelinhas. Haverá de cuidar da saúde dos gatos, dando-lhes paz. Haverá de pensar na vida. Haverá de ter respeito pelos gatos da vida. Haverá de considerar a dignidade dos animais, assim como pensa na vizinha que ama poodles. Haverá de amar quem se entrega a banho, tosa, remédios, comidinhas. Haverá justa festança se as calendas da ciência não datarem víveres outras agendas.

Haja o que houver, havendo haveres por haver-se, reaja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de dezembro de 2020.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Campeão de Araque

 

Campeão de Araque

 

No começo era só uma desconfiança, que mal dava dorzinha na barriga. Se bem que, por prevenção, passou a tomar um caldinho de galinha antes de detonar qualquer opinião pública.

Como quem troca de camisa pra manter limpa a imagem, as suas palavras sempre deveriam ser usadas para contrariar quem quer que fosse. E como lutava pra acabar feio na foto.

E já podia exibir um álbum cheinho de melhores momentos, todo repleto de sucessivos sucessos. Que ninguém é de ferro se for audaz polivalente, um verdadeiro herói de ouro justo pelos pés de barro.

Pra não cair na real de estar alijado do teatro do mundo, inventava laços de família, distribuía sangue do próprio sangue em quem viesse dar-lhe tapões nas costas. Suas catarradas não eram só um tique.

A coisa notável era sair falando pelos cotovelos que sabia mais do que falava, pois sua língua jamais seria trapo pra passar o pano.

Embora não tivesse nenhuma generosidade genérica, poderia ter ouvidos moucos aos quatro ventos, que não dava um dó para afinar a dor de si que não tinha nada.

Não que fosse incapaz de alimentar segredos de polichinelo. Não que deixasse mofar o pomo da discórdia em cada palavra trocada em miúdos. Talvez até soubesse que parar de falar era para ouvir poucas e boas sem fazer caras e bocas.

Queijo, queijo?

Vida boa é para viver de peito leve.

Sem medo de ser feliz?

Porque de perto todo mundo tem aquela mistureba de louco e de artista que é um mamão com açúcar a quem faz suas contas de viver de mentirinha as mentiras que deveras conta.

Se hão de chamá-lo pão bolorento?

Como nunca entrega os pontos antes da chegada, precisa apostar o que tem, pedindo a lambujem da vitória moral, querendo vencer por qualquer preço, pesando nos custos, pedalando os prejuízos.

Quando o chamarem na chincha?

Como quem empurra o rei com a barriga nua, é sábio beber até a dose pro santo. Uma vez que santo de barro, que tem a cara de pau de ser oco, não engole a seco quando molha a mão de quem cobra o cobre do seu quinhão.

Se sempre é tarde para admitir os próprios erros, fácil é tapar o sol com a peneira quando desencana soltar o verbo sobre os ventos que traz encanados na mente.

De tanto comer ovo cozido?

Nem tanto ao cão nem tanto ao gato. Talvez no meio do barco que boia no meio do rio que corre pro meio do oceano. Se vai e não vai, é pra marcar o lugar que lhe cabe no mapa.

Por ficar refazendo planos, sabe maravilhar-se com o próprio rabo na fotomontagem que traz por rosto o ventre alerta que pisca quando massageado.

Não dando no pé nem rindo da própria sombra, gosta de agir feito mula sem cabeça. Dado a fumar lascas de ipê em cachimbo de prata, pula todo bobo quando atira bolinhas de gude em telhado de vidro de lapidário falido.

De olhar tapado e mãos de pirata, é maluco o bastante para tatuar na testa: IMBATÍVEL.

No Reino de Araque, é campeão quem não perde pra ninguém.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de dezembro de 2020.

 

 

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

A nova guerra dos traquinas

 

A nova guerra dos traquinas

 

Interrompendo a aula logo no comecinho, o alvoroço do tropel veio porta adentro. Virando rolar no taco o bolo daqueles dois menores de nove anos, naquele terceiro dos nossos anos de grupo escolar.

Outros tempos eram aqueles, uma vez que dona Marinalva tinha o poder da autoridade sobre a classe, que, por seu hipnótico silêncio, a comovia instruir-nos àquele vira-vira de água em nuvem de gelo.

Entusiastas das lições que aprendiam, alunas e alunos amávamos testemunhar a professora passar dos escritos na lousa, manuscrita só em giz branco, aos enigmas das ciências, ainda muito mais científicos quando ministrados por aquela voz deveras em riste.

Dando sequência ao imbróglio desfeito pela mão enérgica daquela mestra incontestável, Joãozinho teve de exibir o copo suficientemente parado para não molhar o chão e Zequinha virava-se para manter útil a maçaroca de algodão sob o sopro inquebrantável do ventilador.

Em outras palavras, água líquida é rio corrente que o vidro amolda enquanto não viramos beber o conteúdo refrescante, já o ar que nem se percebe que respiramos tem orvalho que céu afora condensa.

Posto perante o colosso sapiencial da diplomada catedrática, esse nosso povo, humilde humano humilhado, desejava mesmo era ficar a par do que havia levado à rusga os truculentos coleguinhas.

Uns pintas-bravas bem truculentinhos, por sinal.

Não se pense que eles chegaram atrasados, de modo algum seus pais ousariam afrontar a escola. Ambos foram prontamente desviados da sala para ir tomar bronca na diretoria, porque haviam depredado o jardim recém-plantado à entrada do prédio.

A muda de pau-brasil emplacada no dia da árvore tinha de render uma fogueirinha incrível. Todavia acabou baldada a tentativa de atear fogo ao fiapinho de madeira.

Se fossem menos criadores de caso, eles saberiam que ninguém vira incendiário usando vareta úmida de verde.

Contudo, juntos arrancaram a plantinha do chão. Para fazê-la em pedaços, o filho de um causídico consagrado na comarca, João como o pai, usou seu canivete suíço. Para que pegassem fogo de uma vez os pedaços ajuntados, o neto de um dono de posto de gasolina jogou diesel em tudo. Cada qual da duplinha dos infernos descarregou sua caixa de fósforos.

Em vão, quiseram espetáculo; por mérito, ganharam atenção.

Sob ameaça de surra, sob pito trovejante ─ ficassem espertos.

No recreio, entraram na fila da canjica doce. Tornaram a entrar só pra desrespeitar a ordem de não repetir a merenda. E fizeram a festa jogando no lixo tudo o que pegaram, sem nem lamber os beiços.

Se foram dedurados?

Houve quem não os temesse. Houve quem não ficasse com medo de seus pais. Houve quem soubesse dar valor à comida. Havia quem não tinha o que comer em casa.

A moral que dá para tirar diz que não basta pôr a mão no fogo pro angu queimar o filme.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de dezembro de 2020.

domingo, 13 de dezembro de 2020

O caso da casa viva

 

O caso da casa viva

 

Havendo a vela acesa no quarto, que pinte o provável.

O que tem o chão? A concretude do mundo? A certeza da vida ao alcance dos sentidos? O chão parece mesmo estar fugindo?

Percebe um formigamento subindo desde a planta do pé. A coisa ganha o corpo mantendo a velocidade, passa pelo calcanhar. Segue arvorando-se, vai pela canela. Quando articula dobrar-se, galgando o joelho, morde uma polegada a mais. Bem na coxa, transfigurando-se sublimado, o clandestino aninha-se. Assim à tripa-forra, traz à luz sua morada ─ a mente em eclipse.

Como o quê, um espectro a sentir-se em casa?

Talvez aí resida o mistério.

Por que está acesa? Não poderia estar apagada? Assopra.

Só não usa a saliva no pavio apagado.

No escuro, acha melhor tê-la acesa. Onde pôs os fósforos? Anda esquecido. Por que terá deixado de pegá-los? Nem dá tempo, a vela acende por conta.

Terá enlouquecido do nada? Se não crê que possa, talvez esteja.

Já que fantasma existe apenas em universo paralelo, quem sabe a autocombustão aristotélica passe a servir de explicação.

Sim, já leu em algum canto: a insanidade faz alterada a percepção do corpo. Que parece diferente, já incapaz de medir distâncias. Ou as quinas dos móveis passaram a brincar.

Sonso, não estão a caçá-lo. Estão definindo o ambiente.

Pra experimentar o espaço, arreia os braços. Acuado no breu, não alcança tocar nada. Entretanto, cercado nas quinquilharias, as tantas topadas ilustram a sua falta de tato.

A casa como refúgio? O conforto do lar?

O caso é sério. Ou está inventando.

Quão perturbador viver em mundo novo de outro padrão.

Está terrivelmente só? Só se não contarem os hematomas...

As mãos estão cegas. Cego está o juízo que não ilumina sequer a vela que está resolvida a não ser afligida por dedos desgovernados.

Fácil dizer que está cego; mas que não vê, simples. Portanto, não conseguir ver não é o mesmo que cegueira.

Haja felicidade de não falar coisa com coisa, falando.

Não se lamenta por ater-se ao nó? Tchau, simplicidade.

Talvez pudesse chorar sem pensar nas circunstâncias; devesse a vela agir direito.

A luz da vela volta a minguar-se; o medo dobra o escuro.

Terá exagerado no macarrão à bolonhesa? Nem jantou.

Teria sono? Estava dormindo quando o jogo começou.

Desce da cama. A um palmo da porta, bate o joelho na folha.

Dispensada do calço, a folgada está entreaberta. Ora, e não venta nem ventou. Ora, pensando bem, nem precisa encontrar a razão.

Passado o afã de medir a empatia pela simpatia desprendida, não enfrentou responder se caberia à paixão calibrar o contrassenso pelo dissenso.

Haja realidade? Haja excesso de consumo de realidade.

Como vem dando mancada feito bobo, cabe alegar ter bebido uma caipirinha a mais... Ou pode ser loucura.

Sem nenhum motivo aparente, pegou-a.

Já na hora de ir?

Revelando-se noturno, o mundo canta os seus galos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de dezembro de 2020.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A irmã

 

A irmã

 

Vibra de fundo, no peito. Do banal ao extraordinário, vibra. Em ser o que pergunta. A perguntar-se, corpo que pensa no que vibra.

Pessoa cuja existência faz-se consciência da presença.

E se não para de questionar-se, em que medida poderá mediar-se como intérprete de si?

Um tenso e tanto, intensifico-me ao identificar-me com sua verve, a animalidade em sua graciosidade.

Peço licença... Você tem persona de genuína formosura.

Invejo muitas das suas agudas virtudes; e viro pensar nas gentes aborrecidas que se aborrecem por bem pouco.

Posso moldar-me a partir dessa sua crônica cordialidade racional a instaurar um caminho, entre a remediada violência despudorada e a ácida resignação civilizada, poderei?

Dizem, digo: um modelo.

Você bem sabe que o pudor impede a mim a manifestação maior de apreço que faz da sua imagem um ídolo, que a posso imitá-la. De primeira hora, desde que passei a envaidecer-me tê-la visto na TV.

Brioso por sentir-me incluído na ciranda, mas o mistério não está em ficar assistindo. Há passos pra alegrar e tumultuar alegremente o esqueleto na dança, desde que dance inteiro corpo.

E preciso voltar sempre àquele depoimento. Nele há mal-estar, aí é que fica justificado repassar tal caminho, refazendo a travessia pela memória como história ao ser contada. Como guloseima, eterna.

Por um doce acaso da vida, Elisa tinha você por irmã.

Por um doce acaso do mundo, Tanya tinha você por irmã.

Sem nenhuma ironia, Elisa e Tanya tinham você em comum.

Pretenso mano. Tão humano... Que muito me engano.

Projeto-me, tenho o instinto. Protejo-me, tenho a intuição.

Faço-me resposta às perguntas que permaneço.

Não sossego, mobilizo-me. Anseio.

Da coisa do real à realidade da coisa?

À beleza, o amor.

Beleza é casca, ameaça de cicatrização, ferida que age latejante, virulenta, existência tocada quando sentida, e irremediável, cura.

Se não tem um senão?

Estava bebendo com amigos. Um deles abriu o coração, onde tem guardada a carteira. Com contas vencidas que não param de crescer, esse bom conhecido me convoca pra comprar-lhe uns livros.

É... Fui.

Embora impresso, bem apresentável, limpo de nódoas pegajosas, de odor aceitável, a maioria daquilo não atraía.

E... acontece.

Todos os contos. Todas as crônicas. Todas as cartas.

Bem poderia bancar a besta quadrada e sair dizendo que entendo. Mas não entendo, fico perdido. Desando a pensar. Anoto, risco. Volto a tomar nota, especulo. Palpito, e por escrito.

Queria sentir menos, mas me perco na sua escrita. Queria mesmo não erguer mais entrelinhas na linguagem, que a repagino labiríntica. Queria me sentir autorizado, mas seria ridícula a banalidade de dizer que a compreendo só pela leitura.

Surto de vez. Compro os três.

Terei cópias a mais pra em mim me cultivar um fiel leitor, pois não acredito que vou parar de comer mosca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2020.

 

 


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Coração noturno

 

Coração noturno

 

A noite está vigorando. O homem não sabe nem quer saber quais leis regem aquele funcionamento. Deitado no escuro do quarto, finge que sonha. Enquanto for sonhando, a noite seguirá intocável.

Sonhando, o homem pode ocupar-se com afazeres intermináveis, inadiáveis, incontornáveis. Em vez de delirar com maravilhas, o nosso homem, coitado, nem liga explicar os mecanismos do seu fastio.

Cada sonho traz dormências às suas angústias. E nenhum sonho se parece com outro. Embora possa haver confusão, tal essência não doma a realidade.

Sonhando que está acordado, o coitado nem percebe que emenda sonho em outro. Contraditório, o desânimo estimula-o a querer mais.

Tanto está viciado em sonhar que a sua vida já começa a perder o limite do que é real. Ou melhor, já está há tempos fora do pão, pão da vida que nem tem consciência do quanto de chão já tem andado.

Na rua, o lunático zanza mesmo pelo mundo da lua.

E porque curte viver acordado de olhos baços, o cidadão relapso pisa fundo num buraco. Pelo contratempo irritante, põe reparo que a chuvarada sugere ter algo errado no planeta.

Quando tira os pés daquela incongruência, bate a lama com tanta confiança que nem controla a mão frenética sem tempo pra tapar um buraco. E logo esse tão real?

Como toma a sério as opiniões, até ficar doente, prefere roncar. É por isso que nem especula sobre torcicolo, ou ronco.

Sua, e suado precisa dar um jeito.

Não irá deitar sem banho tomado. Porém, vai ingerir a janta bem devagar. E a TV será degustada prodigamente.

Naturalmente, não sendo médico nem ilusionista, dormirá.

Consegue; o quanto o corpo aguenta na posição única, de bruços.

Ainda estava escuro quando acordou. Viu-se incomodado pela dor na nuca. Todavia manteve os olhos fechados mesmo com ferroadas, e tantos sentimentos difusos.

Se não teria de acordar cedo, por que acabou deitando errado?

Queria ter o radar de andorinhas, pardais e maritacas, que sabem, com autonomia absurda, da alvorada desgarrando-se da noite.

Viria? Virá.

Ainda que pouco soubesse dos engenhos do universo, o homem que acorda tendo a si mesmo como um condenado ansioso suava em profusão.

Que coisa chata, suando no escuro. Cansativo.

Se a noite tem vez na ordem do universo, o corpo desconhece. As pupilas ignoram fronteiras, passaportes. Cansadas, as pálpebras não desdenham nem ironizam, querem mais sono. Precisam de sono.

Assim, o corpo suporta a passagem pra face diurna da vida.

Assim, a mente acorda o homem de mente que não dorme.

O homem tem razão de acordar abatido. Ignorante, nada sabe das necessidades simétricas, de longitudes e latitudes. O mundo erguido pela lógica talvez tenha sentido. Mas ele não se ouve.

Incompreensível ao homem que acordou na hora de sempre, feito relógio atento ao absurdo de saber-se operando no escuro, ele pensa que sonha, mas vive.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

 

domingo, 6 de dezembro de 2020

Em fogo brando

 

Em fogo brando

 

De novo, que sentido pode dar validade ao que uma pessoa faz?

Frustração neurótica, a isso não a mobiliza dar atenção, pois será especulação vulgar, com fundamentos no banal.

E banalidades matam. Ainda que orientem suspiros, podem matar poeticamente.

Poeticamente, a ponto de abandonar-se ao equívoco de não parar de insistir nessa aventura. De seguir sem notar que os caminhos que se bifurcam são os mesmos nós que prendem a paralisia.

Paralisam, sem petrificação. Pois tanto perturbam.

Então, o mal está na razão. E talvez esteja.

Assim, o perturbador está em delimitar até onde a razão alcança.

Posto que alcança, sustenta. E ampara, acolhe. Dá domicílio a si, à razão proporcional ao propositado. E se?

Mesmo que leve ao exagero, à loucura do desmedido, ao colapso da energia concentrada, é abismo que sorri, canta, a dançar.

O que a maioria das pessoas teme, assim mesmo, é que pede por aplauso ou vaia em quem arrisca, aposta e perde.

A brincadeira alegra e contenta precisamente por que está perdida desde o princípio?

Vem, compartilhe comigo a ternura que tenho esquecida em mim quando os momentos de angústia tocam a morte.

Hei de lembrar qual a chave para abrir a porta, dando franquia aos pensamentos fracos, que em meus instantes de desonestidade digo pertencerem a outro, a mais alguém, talvez àquele anônimo distraído em tremores. Pessoa que passa no lugar errado, na hora errada.

Trago na boca a alegria sem sorriso, já engessada pela dor, talvez me recorde do balanço ao lado da capela onde minhas faltas ficavam sérias, maiores que minha infância.

Vem, ando precisando de um ombro forte, firme, que me permita ver o mundo além das fotografias. Quero que me sustentem por mais um segundo, enquanto abro os olhos para a beleza de amar.

Ainda que muito me engane, não me quero um poeta sem poema, ou cão fechado no sufoco.

Diante da dor do filho enterrado, há esperança sem misericórdia?

Ainda disperso poderei pedir por mais ar, ainda assim terei portas abertas. Não porque a chave, o instrumento que mais preciso, venha de todo ser-me inútil por perdida, ou por jamais fabricada.

Algo além de mim faz-me abri-las. Mesmo que me falte o alívio de tê-las abertas, darei em igual medida amor ao desespero.

Vem, peço ao sol da solidão o menos abrasivo, o menos tórrido, o mais humano, o mais sustentável. Suportável e digno.

Vem, que a hora triste passe. Ainda que rasteje, passará.

Vem, embora espinhos firam-me a mão, quero oferecer a rosa que vou ainda colher.

Vem, o pouco que ofereço é-me do amor fonte singela.

Vem, que não dou por mim o melhor. Por melhor, o possível.

Vem, a hora é agora, bem na hora em que estou ficando pronto. E não prometo que estarei pronto, mas asseguro que poderei estar.

Vem, sigo acreditando que vou estar disponível ao encanto.

Vem, estou disposto, como café mantido aquecido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de dezembro de 2020.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O mordomo

 

O mordomo

 

Sim, foi o mordomo.

Antes, contudo, de chegarmos ao culpado verdadeiro, façamos o percurso que começa justamente com aquele personagem que nos servirá, evidentemente, para que seja apresentada esta insofismável pergunta: quem haverá de ocupar-se a tempo do instante preciso?

Lá vai o sujeito.

Ele mantém o passo, apressado. Com contas pra pagar, mentiras pra sustentar, um estressado. Tem coisas mal postas, por resolver. E que mais ninguém meta o bedelho. É o único interessado apto a atar e desatar fatos e fotos.

Por isso, em virtude da pressa, em razão das ansiedades, tinha já motivos de sobra pra não querer que dessem palpite. Era camarada que fazia questão de disfarçar a cara enfezada, de gente atrasada.

Portanto, culpemos as bitucas e não o fumante que se livra delas.

Poderíamos culpar o cronista, porquanto ele faça entrar na crônica um parágrafo inteirinho só pra demonstrar que nada tem de centrado, com uma personalidade tola o bastante pra gracejos pueris.

Em outras palavras, vamos agir com condescendência e culpemos a cachola do escriba pelas fumaças pretensamente recreativas.

De passagem, voltemos nossa atenção para a sacola plástica, um típico veículo para transporte de mercadorias. Eis que ela está quieta na boca de um bueiro, só à espera da próxima chuva, que logo virá. Dá-se em exemplo de como barrar o fluxo pluvial, causando estrago, dor de cabeça, levando quem responsável a adiantar-se nas sinceras desculpas por transtornos prejuízos.

Destarte, menos pelo baixo custo e pela praticidade no manuseio, culpemos o polietileno pela durabilidade que torna maléfica a química industrial.

Agora, passemos a sopesar gravemente o temporal.

Empunhando sombrinha barata, discreta, sem estampa do Macho Invisível, equilibradamente em degradê ─ amarelo, laranja, vermelho; reforcemos o ponto, profundamente discreto, próprio a sutilezas.

Pessoa racional, a pedestre de tênis lilás usa a faixa de pedestres. Capaz de engolir a laranjada sem açúcar que o maninho prepara que nem café da manhã, de carimbar errada a data do futuro relatório que o chefe pede no grito, de sentar-se sozinha em ônibus vazio.

Por conseguinte, para que as palavras não rasguem cicatrizes no calçado, culpemos a flora estomacal pelo zíper na boca.

Como águas passadas só movem moinhos rio abaixo, ainda que a menor distância entre o ponto x e o ponto y seja uma reta, preferimos zanzar. Pra vir a casa a ser administrada com euforia?

Pra evitar que bagunceiros tomem a gerência, simplifiquemos, ou melhor, facilite-se a escolha: é sua.

Folgamos ouvi-lo, todavia, quando o mordomo elenca bebedores de café: os que fazem cara feia quando está frio; os que cospem na hora quando está pelando; os que pedem água natural.

Enfim, aqui ninguém falará:

─ Troque de lugar ou arrume quem assuma o figurino.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de dezembro de 2020.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Um achado

 

Um achado

 

Era meia-noite. Outra vez, era.

E quando se faz meia-noite, e de novo se faz outra vez como todo dia isso acontece, o homem que não dorme está sentado no escuro, no chão da sala, com as costas protegidas pelos livros da estante.

Pode tê-las escoradas, sem que isso o faça feliz, sequer satisfeito consigo ou com o mundo que o seu labor fabrica e produz.

Todavia imprudente, deixa-se levar por uma lembrança.

Pensa que dali a pouco, se parar de pensar no tempo que custa a passar exatamente à medida que não pensa em outra coisa, vai ouvir a mulher do prédio em frente cantar. Com alguma alegria, ela cantará.

Naquela sua melancólica alegria de cantar tranquilizada. Naquele tranquilizado canto de pessoa acabada de acordar.

Por volta das seis da manhã, virá cantar até a quem só a ouça.

Se se deixar levar, pensa que poderá ficar sereno também lá pelas seis horas. Enfim, de alguma maneira menos angustiante, ele mesmo deseja chegar à serenidade. Pretende ouvir alguém cuja tranquilidade possa causar forte impressão a quem, como ele, disposto a aceitar-se sujeito às interferências do mundo. Do mundo que vive o seu mistério sem buscar razões para tal existência, bastando-se em existir.

Então, quando a estiver ouvindo, talvez consiga ouvi-la cantar sem a preocupação de estar sendo inconveniente, como se, àquela altura da noite, a solidão induzisse-o a ficar só.

E mesmo tomando café gelado, segue só.

Provoca um desalento qualquer ter de ficar sentado na escuridão da sala sabendo que ali perto há aquela pessoa ocupada em viver a própria vida. Ela vive, e cantará.

Ao ouvi-la cantar, ele poderia admitir seu contentamento de querer ouvir a outra mulher, àquela que não vive sozinha no apartamento ao lado. Embora essa mais próxima não cante e, pelo tanto de calmaria, sequer assobie, ela poderia compartilhar a noite imóvel.

E sem que se perceba, aquela madrugada avança.

Sem saber lidar com este desejo que não o faz consciente de que esta força insondável é que o faz insone, ele masca a saliva.

E prefere ficar na estupidez de seguir mascando o cuspe, até que possa pensar em passar o café. Na hora certa da rotina, pensará no prazer inadiável. Como se fosse um alívio, que tomar um gole de café acabado de passar possa pacificá-lo. Antes de pegar no batente.

Assim, distraído de si, a hora da alegria está mais próxima, porque se permite imaginar ouvindo a mulher vizinha. Quem sabe ela atenda o telefone que anda tocando mais vezes do que o normal.

Desde que tem companhia no apartamento, o celular também tem tocado bem mais vezes. E chega a pensar que o seu telefone parecia tocar como o da sumida que guarda distância já faz um tempo.

Então, na alvorada que o canto do outro lado da rua anuncia, à flor do espelho, o cara assombrado persigna-se: poderia ter marcado sem soprar quais as suas sete dezenas da Mega da Virada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de dezembro de 2020.

domingo, 29 de novembro de 2020

Fatos pingados

 

Fatos pingados

 

Moro vizinho a um casal com gatos. Ali, os gatos são dois: Tales e Nina. Assim como os bichanos, tenho minhas idiossincrasias, dentre as quais ganham destaque a quietude do primeiro e o atrevimento da segunda. Observo, arrisco meus pulos. Atrevido, meço alturas só pelo olhar. Sereno, aceito testemunharem a atuação.

Se não mio nem ronrono, mostro ter garra. Feito Fabiana Murer ou João do Pulo. E vou fazendo que nem noto: salto distâncias, correndo pro abraço, sem pular obstáculos.

E gingo ao tomar impulso?

No ano do Tetra na Terra do Tio Sam, em 1994, estive em Curitiba pela primeira vez. E lá estive como quem descobre a América, que foi aí que as ruas educaram-me pra política da escuta.

Nada tinha me preparado pra tamanho impacto. Por isso venho da Rua das Flores, volto da Boca Maldita, sigo vindo desse meu primeiro ato consciente de escuta. Aprendi exercer o meu direito de escutar o que diz quem fala.

E foi naquele ponto nevralgicamente político no centro da capital paranaense que ouvi um cidadão praticar o humano desejo de pensar em voz alta. Como flor drummondiana, no meio do caminho, na praça de convites, a máquina do mundo se entreabriu a este ser faminto de seres e situações patéticas, e agora?

Há um lugar em comum, a praça.

Gosto de estar numa praça em comum, vindo da infância. Minha infância, essa não para de crescer. Segue firme no passado móvel, a torná-la novinha em folha, já uma página bem transfigurada. E posso admitir ter queda pra lugar que se faz novo a cada vez que se olha.

Tenho memória impressionável.

Se a memória convida a mergulhos terapêuticos?

Quem se joga no tanque da memória percebe que uma parte tem gosto de alga gelada e outra de carpa morta.

Com tanta ponte com tara pra viaduto, melhor boiar noutro rio?

Insisto falar da praça, do chafariz que já não há. Porque houveram por mal desfazê-la, tirar o piso e legar ao mundo um buraco. Quando a água empoça, há luta. Pra não parar, virar verde fétido? Luta-se.

Um sol firme torna insuportável recordar a fonte removida. Porque há vaidade que corrói, causa remorso, faz ferver o sentimento de não ter algo em comum com os vizinhos.

E a sociedade está dividida em pessoas com dinheiro e sem. Por sua vez, pessoas têm muito ou pouco dinheiro. E pessoas com muito dinheiro podem ter apartamento de frente pro mar do Leblon ou casa avarandada pra serra atlântica de Monte Verde. E quem tem dinheiro, muito dinheiro, não tem apenas apartamento no Leblon nem somente casa em Monte Verde, tem ambos; e embora passe pela necessidade de oito horas de sono, convive com monstros embaixo da cama.

Sim, é aterrador ter monstros em comum com gente incomum.

E lé com cré dá?

Tales e Nina não são monstros, são gatos. Há quem admire gatos, achando-os muito gatos. Há quem confunda gatice com gatunice. Pro duplo carpado apoteótico: Baggio ou Boulos?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de novembro de 2020.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Na maciota

 

Na maciota

 

Chamaremos democracia o trabalho contínuo de: transformar uma sociedade em uma comunidade; dar uma nação à pátria; apresentar caminhos, contraditórios ou conflitantes, à nacionalidade comum que sonha e produz a si como aos demais, sejam atalhos, sejam desvios.

Portanto, política.

Chamaremos democrata a quem deposita no voto sua esperança dessa transfiguração.

Ousemos discordar, enquanto em nosso coração houver um olho d'água a saciar ─ a tal sede fundamental, já antiga, já ancestral, que do início obscuro ao fim imponderável, tem bocas sedentas, as bocas de outros e não apenas a nossa.

Portanto, cidadã.

Pensemos por nós o que em nós temos por pensar.

Ousemos ouvir as razões de nosso coração. Tenhamos por utopia saber que pensamentos cordiais, no entanto, podem barrar o sangue, impedindo a oxigenação ali onde seja necessária a utilidade, lá onde o orgânico lixo interno natural e precisamente seja transformado.

Portanto, ética.

Assim, vivamos confluentes e afluentes ─ mente e músculos; mão e cirandas; aplausos ou barreira.

Ou haveremos de perecer, tal qual flor depositada na pedra, chuva a lavrar o mineral da jornada, morte em vida.

No entanto, não sustentemos ilusões, não queiramos que o futuro teletransporte o passado por meio da urna eletrônica.

Voto como veículo do imóvel?

É aqui que olho a hora, tiro o cavalinho da chuva. Tenho tanto pra fazer. Corro ganhar o dia. Ou seguirei metido a besta, dizendo o que sei pouco; ou, de mal a pior, ficarei enrolado quase o dia todo.

Não me ausento de mim quando admito as faltas?

Não darei adiada a ventura de um amor, que me traduza em febre a comoção de uma falta. Porque na falta inteiro-me de mim: pessoa, pelo tanto de humanidade que possa a vir completar o ser vivo que penso, pondero e delibero. E agindo em meu nome passo ao mundo a identidade das minhas vontades, umas explícitas e tantas supostas.

Portanto, admito as minhas carências.

Já o caráter ponho em meus segredos? Ou faço de conta?

Muito me escondo ao me revelar na articulação de satisfações e frustrações, pois ajo e reajo em pensamento e palavras, faço-me por lágrimas e risos, e mesmo, até e ainda, por desdéns e felicitações.

Nada disso, no entanto, impede-me de admitir cansaço.

Assumo que o fastio tira de mim o entusiasmo pelos feitos de cada dia. Das grandes e das pequenas conquistas, é por elas que a tibieza mostra-me exaurido, explorado pelo outro e por mim.

E pelas consequências dos efeitos, como público de mim, produzo expectativas. Ator a improvisar diuturnamente, ininterruptamente, sem dar ou tirar folga, de mim e a outrem.

Mas isso cansa, embota o juízo, põe desconfiança na mente e faz dos nervos corda bamba. A vida, então e assim, passa o tempo, dá o passo a seguir. A realidade criva meus os seus abismos.

Se temo um passo em falso?

Trato de trotar, portanto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de novembro de 2020.

 

 

 

 

terça-feira, 24 de novembro de 2020

O país que não existe

 

O país que não existe

 

No monólogo monomaníaco monoglota, a ladina ladainha ladravaz não dá rum na fonte nem ouvidos à zaragata das maritacas. Dará, ao menos, em bafafá? Sei lá, camará.

Vem a norma bendizer qual normalidade? Bem real é maldizer da realidade. Embora pense dispensável passar o tempo, passa mal. Por idealismo, sem escassez, compensa-se com o material. E haja geleia no miolo do pão. Afinal, nem para quieto ao fazer silêncio.

E vai fechando porta após porta, sem pular nenhuma. Fecha-as ─ às vezes, sereno, compadecendo-se com a ciência do ato; e noutras, espeloteado, espalhafatoso; ainda, contrariado, livrando-se.

O futuro são portas. Incômodas. Atrevidas. Aterradoras. É desafio a quem tem mais o que desvelar. São muitas, e muito ridículas.

Abrir portas ridículas faz ridículo quem ama abri-las no capricho. A cara de quem teme acabar se lambuzando. Aquela fuça que deixa a gota de mel (sopa ou chope) subir pelas tabelas.

Também ridícula fica a pessoa que despreza abrir a quem ridículo. Pra não ficar a ver navios quando o mar não está pra peixe, não ri por último. Ainda que ultimamente nem dê pro cheiro, torra a terra.

Põe fogo na palmeira onde cantava há pouco um sabiá campeiro. Come poeira, pois o arroz deu no pé. Vende a alma ao diabo, dando crédito ao miserável. Assina cheque em branco, pois tem funcionando as digitais. Todavia, a rato empalhado cabe sorrir canhoto?

Pensa, mas pensa com ponderação. Tratando frear o ímpeto, quer cortar o barato pela raiz. É barata, a bravata da praga na praça.

A primeira porta? Se não está atrás nem está vindo de frente, está no ponto de encontro, aguardando que a retaguarda vire vanguarda.

Nem todo evento vira fato? Fumaça queima a foto.

Onde terceiros, de primeira, jamais se dizem de segunda?

No país que não existe.

No país que não existe, enxerga longe quem nunca chega perto.

No país que não existe, sobra chão para cova rasa.

No país que não existe, não mata a sede a água que afoga.

No país que não existe, vale mais o coice que a foice.

No país que não existe, a fome alimenta-se dos famintos.

No país que não existe, o leviano pega leve no pesado.

No país que não existe, a mão que afana não abana, abona-se.

No país que não existe, demora acordar quem anda acordado.

Com tempo de sobra para chegar atrasado, há quem se culpe por passar do ponto ao confessar o que for preciso pra ajustar-se à hora?

Primeiro, anote-se: foi um engano.

Segundo, aponte-se: foi um erro terrível.

Terceiro, aporte-se: foi um pecado horrível.

Quarto, reporte-se: foi um ato vergonhoso.

Quinto, comporte-se: foi um fato vergonhosamente doloroso.

Sexto, reconforte-se: foi um castigo e tanto dar legitimidade à dor que nem parece ter sentido por acaso.

De cabo a rabo?

Quando o que vem depois do final já está decidido desde antes do começo, é melhor abrir de vez a janela escancarada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de novembro de 2020.