A verdade
seja dita
Araponga de mim mesmo, de péssimo
humor, este velho anormal, na lata, trata de revirar o rumo da toada: nada de
sabatina sobre sua saidinha sabática. Fá-lo, pois, pra não perder a linha a
esse respeito, quanto ter saído pra comprar uma calça de moletom, uma
aflanelada, própria pros dias de friozinho bom do inverno, quando voltou,
porém, gastara uns cobres numa flor de beleza inútil até a vinda do caloroso
sol da primavera, teve aflorado carteira afora um bermudão xadrez.
Deixou-se cair na tentação?
Ora, ora, sejamos francos, camaradinha,
bem sabe o senhor que, com a vulgaridade de recorrer ao prestimoso Oscar Wilde,
“influenciar uma pessoa é emprestar-lhe nossa alma”.
A qual?
A nossa,
no caso, a sua que é a minha, e sendo a minha, pondero e
especulo, sem o véu do embuste, todavia.
Quem me conhece sabe que normalmente
não costumo mentir, a não ser quando uma mentirinha sirva para esconder alguma
verdade algo inconveniente.
Claro, claríssimo, longe de mim a
pretensão de ter ideia cristalina do que seja a verdade, ou sobre mentiras
cabeludas. A intuição ajuda a sentir quem embala perfumar o hálito com o verniz
do anis. Mas, se alguém consegue a proeza de me enganar, posso mesmo reconhecer
o talento de quem não passa de um grande mentiroso.
Como todo grande mentiroso não se
jacta de que seja um, ele age com confiança, desenvoltura e engenho. Certo da
invisibilidade que o camufla leal, incorruptível e desembaraçado, vive a ludibriar
quem lhe dá crédito.
Pego no gosto de obter vantagens em
tal comércio com a retidão dos incautos, acelera a curva do lucro próprio. E
quanto mais mente, mais enriquece a fama que o prestigia. Por contradição lógica,
faz-se rotundo perdulário que gasta para o bem da própria fortuna.
Terá destino... Terá caráter...
No entanto, mente quem diz que está
mentindo? Ou a verdadeira arapuca está em dizer que diz a verdade quando não está
mentindo?
Embora decifrar o enigma soe difícil,
não nos furtemos de ouvi-lo.
Assim, atrás de tão lúbrica perversão,
obra o peso da mão leve do logro. Portanto, o grandessíssimo mentiroso não ri com
a gente e não ri pra gente, o filho da mui bucólica devassidão ri é da gente.
E ele ri pra disfarçar que está gargalhando
por dentro. Acha graça em saborear a trapaça na cara de todo mundo. Pra não dar
na vista o ás posto na mesa, facilita o riso. Manipulador contumaz de palavras ― troça, tropeça, e truca.
Mostra a habilidade da fala ágil, afiada,
de duplo sentido. Não tem gracejos de amostra grátis. Vendilhão do turvo, almeja,
sim, o que lhe renda dindim. Dá razão ao coração. Ilumina com a escuridão. Torce
e contorce. Não eleva nem levanta. Confirma sem afirmar. Desafoga no dito o
fogo da desdita. Abusa do uso que nem se acusa.
Pra remontar uma verdade verdadeira?
Se mentira tem a perna curta, tem
Pernalonga a minha prudência.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 04 de agosto de
2020.