terça-feira, 4 de agosto de 2020

A verdade seja dita

A verdade seja dita

 

Araponga de mim mesmo, de péssimo humor, este velho anormal, na lata, trata de revirar o rumo da toada: nada de sabatina sobre sua saidinha sabática. Fá-lo, pois, pra não perder a linha a esse respeito, quanto ter saído pra comprar uma calça de moletom, uma aflanelada, própria pros dias de friozinho bom do inverno, quando voltou, porém, gastara uns cobres numa flor de beleza inútil até a vinda do caloroso sol da primavera, teve aflorado carteira afora um bermudão xadrez.

Deixou-se cair na tentação?

Ora, ora, sejamos francos, camaradinha, bem sabe o senhor que, com a vulgaridade de recorrer ao prestimoso Oscar Wilde, “influenciar uma pessoa é emprestar-lhe nossa alma”.

A qual?

A nossa, no caso, a sua que é a minha, e sendo a minha, pondero e especulo, sem o véu do embuste, todavia.

Quem me conhece sabe que normalmente não costumo mentir, a não ser quando uma mentirinha sirva para esconder alguma verdade algo inconveniente.

Claro, claríssimo, longe de mim a pretensão de ter ideia cristalina do que seja a verdade, ou sobre mentiras cabeludas. A intuição ajuda a sentir quem embala perfumar o hálito com o verniz do anis. Mas, se alguém consegue a proeza de me enganar, posso mesmo reconhecer o talento de quem não passa de um grande mentiroso.

Como todo grande mentiroso não se jacta de que seja um, ele age com confiança, desenvoltura e engenho. Certo da invisibilidade que o camufla leal, incorruptível e desembaraçado, vive a ludibriar quem lhe dá crédito.

Pego no gosto de obter vantagens em tal comércio com a retidão dos incautos, acelera a curva do lucro próprio. E quanto mais mente, mais enriquece a fama que o prestigia. Por contradição lógica, faz-se rotundo perdulário que gasta para o bem da própria fortuna.

Terá destino... Terá caráter...

No entanto, mente quem diz que está mentindo? Ou a verdadeira arapuca está em dizer que diz a verdade quando não está mentindo?

Embora decifrar o enigma soe difícil, não nos furtemos de ouvi-lo.

Assim, atrás de tão lúbrica perversão, obra o peso da mão leve do logro. Portanto, o grandessíssimo mentiroso não ri com a gente e não ri pra gente, o filho da mui bucólica devassidão ri é da gente.

E ele ri pra disfarçar que está gargalhando por dentro. Acha graça em saborear a trapaça na cara de todo mundo. Pra não dar na vista o ás posto na mesa, facilita o riso. Manipulador contumaz de palavras ― troça, tropeça, e truca.

Mostra a habilidade da fala ágil, afiada, de duplo sentido. Não tem gracejos de amostra grátis. Vendilhão do turvo, almeja, sim, o que lhe renda dindim. Dá razão ao coração. Ilumina com a escuridão. Torce e contorce. Não eleva nem levanta. Confirma sem afirmar. Desafoga no dito o fogo da desdita. Abusa do uso que nem se acusa.

Pra remontar uma verdade verdadeira?

Se mentira tem a perna curta, tem Pernalonga a minha prudência.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 04 de agosto de 2020.


domingo, 2 de agosto de 2020

Quatro cenas e uma explicação


Quatro cenas e uma explicação

Tirando o sumo, laranja é só bagaço? Diante do rumo do universo, mesmo sem pôr influência na erradicação da malária entre as emas, doida para mostrar o uso da sensatez para manter-se inconsistente, a crônica pede calma enquanto bica o próprio umbigo.
Se há razões bastantes para tão animada demência?
Ocupado em fazer direito o que o cosmo parece ter-lhe incumbido de prestar contas, com a afobação momentânea pelas circunstâncias dadas no presente, o velho anormal, no figurino de careca de pijama amarelo, cuidava do café quando uma distração de origem estranha, surtindo sua gravidade metafísica, mui agravada pela pandemia geral logo às cinco da matina, foi quando o suporte do filtro tomou para si a decisão de tombar sobre a mesa.
Com este tombamento, desencadeou-se uma série lamentável de eventos, dos quais o destaque fica pra mistura de pó de café com os cacos fumegantes das palavras, amálgama largado no chão por uns minutinhos porque pelando de quente.
Antes de dar o domingo como terrivelmente perdido, mas imbuído das prerrogativas de cronista, vendo-se, portanto, compelido a soltar desculpas a quem lê, eis que o texto admite umas tantas cenas, uma vez que, isoladas da estupefação que as ideias costumam provocar quando agitadas pelos ventos da inspiração, podem apanhar sentido justamente pela súbita fulguração.
A primeira das cenas sucedeu-se na esquina Pinoia com Brasil:
― Corruptados? Uai, então, no Senado não tem corrupto?
― Tô falando de outra coisa. Se tem corruptado, tem corrupteiro.
― Entendi. Então, instalaram luz vermelha no Congresso?
Como foi dito acima, a mistureba traz para perto o que a distância encobre: a desconectividade dos fios. Por improvisados, com lapsos embromando a impedância, a lâmpada da inteligência pisca, pisca. O comprovante? A seguinte anedota.
Diz o vagamundo do cão:
― Careca do pijama amarelo, por que exibe sua máscara amarela aqui nas ruas de gente gris de tantas mágoas acumuladas?
Ao que responde o homem que traça histórias a granel:
― Sarna que fala, vim pra mais bem ouvir os meus silêncios.
Pra evitar que mijo de cão resulte em vacina a quem babando uns imoralismos diante das emergências do clima, engata-se a terceira:
― Quanto tempo, dona paciência. Andava sumida, hein?
― Como não vou me adaptar ao que me testa sem parar, tenho cuidado de mim, seu ódio.
― Quanta lucidez.
― Não mango do riso a desalinhar-se do prumo do siso.
Quando mal se espera...
A nossa quarta cena, singela e humílima, com raízes no coração e florescência na cabeça, como toda beleza convulsiva, vira uma brasa, queima no céu da boca, busca o tépido d’água de Alhos & Bugalhos do Paulo Mendes Campos.
A fiar? O sim.
Parceiro dos encantamentos mamulengos de quem não se dá por vencido, pleno de planos e já ébrio da pimenta deste rango, firmo,

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de agosto de 2020.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Jogo jogado


Jogo jogado

Na tomografia do instante, não falta o que pensar. E quem vive em paz põe o mundo em ponto morto? Se acelerar não resolve porcaria alguma, talvez um adiantamento dê jeito na coisa. A coisa de sempre. Pois o tempo masca, masca, e, como trem que custa a enjoar, cospe fora a massa de carne já com a boca torta. E não responde pelo que faz. É sério? Está decidido. E ninguém perde por esperar. Hoje o dia está ganho? É jogo jogado.
E vai ganhá-lo ficando na cama. Abrirá mão de comer ovo, lavar o sovaco, mandar e-mail. Sequer lerá as mensagens no celular. Aliás, o telefone ficará desligado. E não pense que é para deixar no mudo ou em modo avião. Tome tento do caso, esqueça o aparelho. Deixe-o lá. Estará ferrado se se lembrar de onde o tinha deixado ontem, antes de apagar a luz e deitar-se, contrariado.
Já deletou o surto que teve?
De novo, foi por ir. Nem o sono tinha vindo dar a cara. Foi só por obrigação. Pro dia seguinte, este ora corrente, vir com o roteiro dado como certo. A vida condenada ao ordinário? Redobram-se as tarefas.
Francamente.
Dê um tempo. O tempo que seja. Livre-se das aporrinhações, nem que dure apenas uma mentira. Conte-a, até três. Talvez funcione e a fornalha dos dias alcance a pressão necessária. Descarrile-se.
Não chore. Choro é pros impávidos? Então tá, chore.
Só não invente de dar descarga no telefone. Finja que o encontrou assim, meio no susto. Estava passando por onde nem sabia que era. Quis pegá-lo, arque com as consequências. Mimimi ultimamente tem desentupido bem menos os encanamentos. E a turma do prédio anda louquinha pra vir socar a porta. Que ficar cobrando explicações acaba levando a alguma resposta? Até às sensatas.
O vento sacode a janela. É o sinal.
É sinal de que não dá para deixar nada para depois, então, melhor nem começar. Pois começar por começar é arriscar a nem terminar e tem tanta coisa que tem ficado pelo caminho.
Tipo a fatia de queijo em cima da mesa. Até as baratas estão com nojo. Aquilo mofado, já fedendo. Você poderia ter comido. Anda sem apetite? O mundo não quer saber. Lave e coma.
Se ao menos não tivesse trocado as pilhas do relógio, ficaria sem saber que a roda gira, rodopia, enovela os fios do progresso. E mente sadia ignora os ponteiros; ela vê a hora e não os seus agentes. Aliás, pare de mimar a quarentena como um bichinho de colo.
Quer colo?
Isso de dormir menos, comer menos e abusar do leite, isso nunca vai impelir a compreender aquele povo todo indo atrás do jogador? E sem dar um tostão por lhe sungar a farda canarinha.
Se bem que... Pode ser. Vai que seja. Está parecendo que vai ser hoje? Vá à luta. Pois há pontos na história que ocorrem quando nem se sabe que há um antes e, de repente, passa a ter um depois.
Que gracinha!
Nada como viver um momento único...
Contra o Brasil, às 12h30 da sua TV, faz 131 dias que a Azzurra vem se mantendo uma invicta bicampeã.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de julho de 2020.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Mas entretanto


Mas entretanto

O velho anormal manda lembranças. Em vez de flores?
Sim, mandar buquês é de outros tempos. De uma era de poesia e de romantismo piegas. Parecido com o mundo a ponto de... Todavia, não direi: há cinquenta anos se amarrava cachorro com linguiça.
Acaso delirasse assim, na utopia nostálgica ainda entraria a minha cadelinha pequinês. Brincando comigo num quintal imenso de árvores frutíferas, e não naquela gaiola de chão cimentado entre os paredões laterais dos prédios vizinhos. Tocando a farsa: mamãe chamaria para comermos; a companheira e eu iríamos de imediato; e comeríamos o que o sonho tivesse ousado comprar, menos bife, arroz e feijão. Sim, cão e gente seguiríamos dividindo do sóbrio repasto. É vero, mesmo a passados não adaptados ― cães e gatos não comiam ração.
Aliás.
Desde que me entendo por gente, quando passei a ter permissão pra falar do tempo em que não era pessoa, era criança. Embora seja anacronismo apontar que toda e qualquer criança seria então pessoa humana. E com tamanha fartura de linguiça, todo e qualquer cachorro seria muito bem alimentado que só correria atrás do próprio rabo para manter azeitada a mandíbula.
Seria um idílio na Terra, o paraíso melhor que o Éden e verdadeiro Eldorado. Embora haja quem pense, diga e aja como se aquilo fosse regra. Dizem que estou enganado. Havia famílias e famílias. A minha é que tratava criança como aprendiz sob as varas da lei, e ai daquele que pusesse em questão a ordem dada por eles, os adultos.
Como cópia atual de mim, porém em versão revisada, apropriada aos códigos em vigor, longe de mim querer atentar contra o vigoroso padrão de vivência social, porque a hora do instante faz-se de lucidez e respeito. Entretanto, não me alimentarei da loucura?
Tendo na cabeça a boa prática sanitária na intimidade do lar e na convivência pública, passei a pensar na mulher nua que vi.
“Atena” desafia os cães de guerra ― afirmaram.
Um pelotão armado? Empunhando cassetete, atrás de escudo, de saliva lubrificando caninos, calçando botas: o poder incontestável.
A tropa deu um passo. A majestosa abriu as pernas.
E fim de jogo?
A musa estava de costas, nas fotos mostradas na TV. Então, meu demônio favorito, o interior, foi ele que riscou o fósforo para mostrar a profundidade da minha ignorância. Bebi da água obscura que ilumina os meus recônditos mais sombrios, tentadores, sedutores, que atiçam o louco em mim. E atiçado, mordi a própria sombra.
De costas pra mim: teria o sorriso enigmático da Mona Lisa ou os olhos marotos da Maja de Goya? E de frente para o ódio espumante: desarmara com rosa tão ardilosa?
Ora, como velho anormal que não sabe ler, leio do meu modo.
E meio tonto, meio turvo, pude ver o que vi?
O renascimento de Afrodite, a poderosa.
Vige!
Atarantado que só, até me arrepiei gargalhando dos juízos.
Que cão danado da peste...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de julho de 2020.

domingo, 26 de julho de 2020

Apocalipses


Apocalipses

Estando no mundo a trabalho, empenho-me a fazer com alegria o que a mim me toca fazê-lo. Por designação ou desejo, porém pouco à vontade com alvarás e procedimentos, todavia em razão da entrega à persona do curioso, retiro a máscara de quem sabe o que faz com o que pode. E se bem o faço?
Mais repulsivas as tentações, mais estimulado a fracassar.
Hedonista, vou ao Concertgebouworkest; de Beethoven, nos seus 250 anos de nascimento, regozija-me a sua 7ª sinfonia, em Lá Maior, a opus 92, na versão estreada em 03/06/2020, vista numa terça-feira, mais um 21, de outro julho, deste 2020.
Tendo ouvido, passo aqui a apurar os sentidos:
“O coitado, digno de dó, fazendo o que sempre faz, sendo quem é, esvaziava as garrafas, enchia os copos, até que a noite o vomitasse pra cama, de volta ao consolo dos sonhos abandonados. O infeliz, o desabrigado de si, recorrendo ao despropósito permanente da fuga, corria aos supermercados, comprava mais das mesmas marcas, até que o dinheiro o jogasse no carro, farto do desprezo dos próximos tão assemelhados. Mas o amor quebra a espinha, disseminando as suas contrariedades, fortalecendo as rupturas, fraturando suas rotinas. Não vou generalizar, somos todos iguais. E matamos nossos amados com o bom-dia antes do meio-dia. E adulamos nossos ventríloquos com o boa-tarde depois do almoço. E conservamos nossas misérias quando ajoelhamos em vão, escarrando nosso boa-noite a quem nos antoja. O insatisfeito, armado de boas intenções, recupera-se da insônia ao insistir com a vigília dos desesperados, porque abrimos nossos olhos, escancaramos as janelas, porém o vento traz morte, inocula venenos, dá alento a quem insepulto. O passional, o senhor dos descontroles, dita à razão o que julga ferver nas veias, suas artérias entupidas de gordura, as suas opacidades de doido varrido, de menino mimado, de maior aporrinhado. Bebe do fel que baba sem notar. Até que a morte o separe: à direita com a sua bengala inútil, à esquerda entregue aos ratos. Há ratos por todos os lados, aí, em baixo da cama, em cima do forro, dentro da pia, fora do espelho. Não há o que fazer? Nada. Caso tenha pensado em comer pipoca, falta o milho, sobram as desculpas. Quando nada pode ser feito, nada há para ser perdoado. As notícias chegam antes, apressadas pelas esperanças perdidas, vilipendiadas, ignoradas. Não há nova que não envelheça, apodreça. E não há noite que não amanheça, aconteça. Não. Afinal, não é não. Antes que tudo se perca, percamo-nos. Sinto. Às vergonhas que me expus, as nunca antes mencionadas ao público, deixei-as atrás das paredes da casa fechada, detrás das portas do guarda-roupa trancado, por detrás do zíper do casaco cujo couro resiste às chamas do fogo interno”.
Eco!
Gozará a música do intraduzível?
Porquanto não afino o tino somente pelo que domino, amo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de julho de 2020.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

À flor da pele


À flor da pele

Uma árvore cai na mata, o estrondo não tem testemunha humana. À vista de tal condição, o evento terá ocorrido de fato? Sim, ocorreu. A realidade existe, ainda que o ser humano pressuponha a chancela de dizê-la universalmente percebida.
Percebemos, logo criamos.
Se pesa um bocado em quem se dispõe a narrar as aventuras da espécie? Que responsabilidade.
Acerto o passo.
Pessoa amiga, a Luísa, nome trocado para preservar a identidade, costuma dizer que meus textos parecem relógio: como nada está fora do lugar, tudo funciona na hora certa.
Vem-me a imagem da matriosca. Aquelas bonequinhas russas: da maior à menor. Assim, tiro do assunto amplo um tema mais focado e deste retiro o tópico específico, e vou até chegar à palavra-chave.
Exemplo?
Eis que baixei no computador o Zoom, meio a contragosto, mais a pedido da Bruna e do André, ambos nomes mudados pra obviedade da mentirinha. Enfim, pro bate-papo virtual via internet, instalei a dita cuja ferramenta na bugiganga eletrônica que utilizo.
E a conversa estaria restrita ao trio?
Mal começamos, entrou em cena uma senhora que não conheço. Encantadora, lembra a voz da Divina e pelo centenário de nascimento da cantora, passo a chamá-la de Elizete. E ela botou reparo na minha crônica Retrato fiel, que ficaria mais saborosa se o bolo de morango citado levasse cobertura de chocolate.
Nem sei bater bolo...
Mas, acrescentei que o parágrafo naquele texto tinha a função de destacar o uso da preposição sobre com os significados em cima de e a respeito de. Ora, está na moda dizer “discutir sobre a lei” em vez de “discutir a lei”. Ah!
Em Retrato fiel, não escrevi chocolate. Desejei ir por outra vereda que não a do racismo, por isso tracei o perfil de um cínico.
Mas cínico tem muitos tipos. Seu Rodrigues, de que tipo?
De quem fala de boca cheia: povo, vontade popular, humanidade.
Que povo? Qual vontade? De que ser humano está se falando?
Dessa gente aliviada porque a pandemia atingiu o platô, como se, ultrapassando mil mortes por dia, pudéssemos retomar os rotineiros comércios. De pessoas querendo o novo normal de sempre, como se fosse natural negar ao fluxo mudar de rumo.
Dá raiva? Dá.
E dou Cego de amor.
Ouvindo-me, a Elizete, tendo compartilhado este texto no grupo de leitura, alegrou-se com suas amigas que entenderam narcisista quem ama seu semelhante mas odeia não ser correspondido.
E como nutre a ilusão de não ter preconceitos. Quem?
Quem, com muitíssimo orgulho de si, se intitula brasileiro, patriota, nacionalista, gente comum, igual a todo mundo. Sim, sim, igualzinho a quem não viu, não vê e continuará sem ver a cor da maioria deste outro Brasil: a dos jovens mortos pela polícia, de quem sobrevive nas ruas, de pessoas desalentadas.
Latindo de ódio, respiro.
E minha matriosca não lavra o amor como outro relógio pulsando no peito.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de julho de 2020.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Retrato fiel


Retrato fiel

Então, a crônica de hoje é sobre o quê?
Poderia ser sobre a cobertura de morango num bolo de morango. A dizer respeito à camada que fica em cima, uma tentação pra mudar a cara destes dias. Se poderíamos falar sobre o queijo? E justamente por imprecisarmos disso, a verdade seja dita: quando falamos sobre o queijo, nele jogamos perdigotos, espargimos aerossol. Um horror!
Sim, a consciência abre os olhos da gente.
A palo seco: curando a sarna, ficam as pulgas?
Corpos a mais, mortos a menos.
Que a imprecisão alivia o que entendemos por achatamento, pela visibilidade do tal platô. No limite da platitude, escancaramos.
Até aqui viemos, então daqui voltaremos.
Mais à frente. Voltaremos dois passos à frente. Para o futuro. Sim, não retornaremos, pois somos do amanhã, de onde Sebastião ainda espera. Fomos ungidos a priori. Batizamos a lágrima serena da noite do universo. A nós não nos resta senão cumprir com o nosso caráter.
Destinados à glória; submissos à glorificação em vida.
Sem desdém, vamos.
E se há fios soltos, com eles tecemos a humildade da nossa fibra. Com as gotas de sangue de nossas pacificações tropicais pincelamos a irreverência de nossas alegrias tacanhas. Com a galhofa de nossos pecadilhos confessionais nutrimos os famintos que desabrochamos a meio do caminho de lugar nenhum.
Pelo povo, pela vontade popular ― não estamos a passeio.
A pedir mais. Quer porque quer. A ele seja negado. Pra que possa o aprendizado da dor, da fome, da miséria. Perca o enfezamento.
A brisa noturna lambe o chão das covas. O triste sofre e chora. De cara amarrada. Fechado no mistério. Tem mãos pro trabalho, mas os calos lamentam, imploram. A luta ainda está vindo, segue vindo, não para de vir. À venda? Venda-se.
Se conhecemos? De passagem.
Abençoamos a nós que nos julgamos abençoados. Seguimos pela modéstia que nos faz bem-humorados, cientes da iluminação que nos orienta na escuridão dos sentidos. Temos luz interior, somos farol. A quem perdido, ditamos o caminho. Basta ouvir. Ouça nossa voz. Siga à sombra. E coma do farelo, porque o nosso pão é doce, energético e salubre. Não há no mundo mágoa que nos paralise, nem infelicidade que nos vitime, e nenhum eco nos guia. Soltamos à palavra o que em nós é água, maná, origem que perdura, inesgotável fonte, compaixão que nos faz desbravadores. Vocacionados, tradutores do amor. Sim, amar nos faz condutores, então induzimos. Solidários, motivamos.
Mas, conseguirá suportar? Suporte; dê sustentação.
Seja ombro, seja amigo.
Vê? É nosso o céu do Cruzeiro, das Três Marias.
Ah! Sim!
Com o lobo intacto, o coração em faíscas, mãos untadas de cuspe abundante, tomemos a dose certa do amor. Gozemos por abraços. E beijemos por aliança. Amemos agora, bem na hora.
Pra completar este retrato do cronista feito cão vivo?
Alegra... Pondera... Gardenal!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de julho de 2020.

domingo, 19 de julho de 2020

Viagem na carne


Viagem na carne

Disposto a encarar o dia que chovia, ocupei o posto de observador equidistante: protegido pelas lentes lamentáveis dos meus óculos; e seguramente a quatro palmos da tela do computador de mesa.
Entre o factível e o fictício, o factídico.
Foi quando, neste dia 13/07/2020, neste Estadão, neste Caderno 2, nesta matéria assinada por Julio Maria, não sei o quê me assaltou desde as garrafais: sons da alma em construção.
Logo me pus a cofiar uns fios do cavanhaque.
Não relinchei nem escoiceei, todavia empaquei. E empacado, este pônei miúdo de suíças em cultivo coçou a calva, lisinha por lâmina de barbear. O careca de pijama amarelo gosta de deliciar-se com a pele desnuda da cabeça. Algo infantil, num prazer de deslizar a mão pelo cocuruto. Sem estudá-lo na forma, reconfortando-se com o quentinho. De um gostoso calmo, tranquilo, sereno.
Uma gota de serenidade brotou-me da página em que escrevo, aí a imaginação viu diversamente: o que se forma.
Irei mudado pelo que acho que vi?
Os sons das palavras, a delícia de dizê-las em pensamento. Que morar sozinho admite relacionar-me comigo apenas na cabeça, dizer aos neurônios o que me dá na caçoleta. A escutar-me vivo a viver. No impulso, o momento de agir por mim. A vivenciar-me sem a obrigação do juízo certinho, de ouvir a voz da razão. Sobretudo, sem medir cada uma das minhas bobagenzinhas, aquilo que faço sem o compromisso da sanidade que pondera, calcula e ajuíza.
Quero a conta errada, imperfeita, fora do prumo da chave posta.
Cacos de um espelho fosco. Mole, pelo sorrisinho malicioso.
Deliciosamente vago, flutuando no ar da sala. Livre em mim, tendo a cachola mergulhada em ir pensando sem pensar que pensa. Que a âncora siga sendo a cadeira, com o corpo sentadinho. Sem o líquido e certo, sem a frieza do gelo, sublimando-me rarefeito. E que a mente siga enfunada pelo vento da imaginação, rumo ao desconhecido que em mim navega em silêncio.
Sem palavra, sem sentido?
Uau!
Tem o outro. Este outro. Aquele outro. Tantos, num só. A fazer-me esquisito. Sem a autorização de sentir-me estranho. Não me outorgo o direito de instituir-me familiar. O mundo informa, deformo. Conforme a hora passa, me reformo num segundo.
Mesmo já? Agora.
Há um propósito que faz cócega na ponta dos dedos. Há a barriga que ronca, vem pra página. Há a brisa boa que não afoga a realidade nas abstrações mentais. Poderia fluir na corrente das sensações que fervem nos vasos do corpo.
O que não calam os cotovelos? Que a carne tem dores.
E a minha boca, nada? Salivo.
Se caído estivesse, com os braços apoiados no tampo de vidro da mesa e a tela recolhendo o que vou digitando, poderia jurar que estou tonto, rodopiando no imóvel.
E como ninguém de nós foi sugado pro mundo da lua, a título de quê assumo que a sensualidade seduz?
Obviamente, analisa-se bem melhor quem faz análise.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de julho de 2020.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Brilhante


Brilhante

Em A vida e o tempo, texto do dia 12 de julho de 2020 no jornal O Globo, atribuindo a Nietzsche, Martha Medeiros citou: “Aquele que não dispõe de dois terços do dia para si é um escravo”.
Nem bem me ocorre se acaso serei, soa o interfone.
Minha água acabou, o entregador veio rapidinho trazer o garrafão. Até aí, nada de novo sob a chuva; a não ser a capa plástica deixando molhados os pés enfiados na típica sandália de borracha, cuja marca nem preciso nomear. Mesmo na adversidade, a perseverança. Mas, divago. Retribuindo o bom-dia, o jovem fez o sinal com a mão que por estas plagas quer dizer... joia.
Subo para continuar a ler os jornais, em versão digital, cópia fiel à edição impressa. Ao final do texto, é-me oferecida a oportunidade de avaliar o que li por meio de dois sinais gráficos: o polegar para cima, gostei; o polegar para baixo, não gostei.
Para entender a semiologia da coisa, visualizo a minha identidade. O documento de registro geral, o famoso RG. Uma vez que a cédula de identidade contém uma série de dados, como o nome, a filiação, a data e o local de nascimento, origem e data da expedição, o número do registro, com a localização de lavratura.
E a foto?
Digo que, nas circunstâncias em que é preciso a comprovação da idade ou o reconhecimento físico, o RG é solicitado. Você quer entrar no cinema pra ver filme só permitido a maior de 18 anos?
O seu RG, por favor.
O lanterninha estabelece a conexão entre você, de carne e osso, e a imagem no documento. A foto é sua. Contudo, não passa disso: uma representação da sua pessoa.
A ubiquidade... Que tentação vivenciá-la.
Será banal saber o quanto há de mim em quem me conhece?
Vence a vontade.
Então, nas redes sociais não fica surgindo gente do nada só para atormentar, perseguir, atacar as pessoas que ganham fama?
Bem instruída, essa gente age como se nem gente fosse, pois tem o dom de multiplicar-se e atingir milhares de pessoas numa rapidez.
Por curiosidade, entro numa página. Algumas fotos. Pouquíssima interação com os amigos do perfil. Amigos?
Continuo, seleciono comentários idênticos. Procuro mais. Prossigo e vou entrando nas páginas de pessoas com poucas fotos e raríssima relação com outra leva de amigos tão diferentes.
Quando vejo, isso de ficar indo atrás de perfis que se comportam como fantasminhas nada camaradas, gastei uma boa parte da tarde.
Que babaquice a minha.
Cada minuto, cada clique... Sem que me pedissem, fiquei gerando dinheiro pros robôs, fiquei trabalhando de graça.
Nos coliseus do mundo, não estou nas tribunas entre convivas de togas elegantes nem nas arquibancadas boquirrotas, e nem na arena como leão que ataca ou cristão assassinado, sigo me condenando a exercer o posto de narrador da carnificina nossa de cada post.
De novo, fígado, quero ter outro futuro?
Irra! Preciso da Lei de Abolição de Servidão Digital.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de julho de 2020.

terça-feira, 14 de julho de 2020

Moléstia factual


Moléstia factual

São seis horas e sete minutos, começo o texto.
Fiz questão de marcar o início, pois esta é uma experiência inédita para mim. Nunca antes escrevi sem rascunho, direto no computador. Digitando letra a letra, palavra por palavra, frase depois de frase, sem o auxílio de dicionários, sem apagar nada, sem perder tempo. Dando ao pensamento a velocidade dos dedos que batucam as teclas.
Sim, esta é uma vivência toda minha. Por que me decidi fazê-la?
Acordei no horário habitual, mas virei pro outro lado.
De ontem para hoje, esfriou. Está chovendo. Uma chuvinha fria. O esperado, próprio da estação, algo típico do inverno. As andorinhas e os cães, no entanto, eles e elas não sabem carregar nos corpos estas prescrições. E haverá quem sustente: irracionais.
Não me definiria irracional nem me acusaria mandrião, vagabundo ou imbecil, por ignorar em mim alguma característica moral a que me possam, de fato, atribuir, como caráter. Traço próprio, marco típico, e procedimento previsível de adversário à ordem natural das coisas.
Minha cabeça está cheia de coisas. Por fazer. Mas, vá lá: admito a inclinação de ficar quieto, longe da disposição que este dia requisita. Com um sentimento difuso que me põe incapaz de agir conforme ao figurino do óbvio, quero mais é ter tempo pra não fazer nada.
Contudo, não vou transformar o sofá em divã. Estou desconfiado que as tempestades que minha mente julga como fundamentais para definir quem sou não passam de fumaça. Nevoazinha sem febre, que a brasa é fantasia de quem não tem tutano para enfrentar fantasmas de origem inconsciente. Daí a densidade da nuvem, estacionada em mim como preguiça.
Pego o Lafarque que havia separado para ler hoje, todavia "uma estranha loucura está possuindo as classes operárias das nações em que reina a civilização capitalista. Essa loucura arrasta na sua esteira misérias individuais e sociais que, há séculos, estão torturando a triste humanidade”. Largo o livro.
Continuo a escrever sem criar expectativa alguma. Para não gerar decepções que, sem dúvida, irão me aporrinhar, como frustrações.
E aí, como eu lido com as minhas frustrações?
Quimicamente humano, recorro a cápsulas, pílulas e comprimidos. Por prédica profissional, ajeito minha mente. Fisiologicamente, estou sereno. Prudente, ignoro a hora informada pelos fatos. Sinceramente, desconheço a história que não busco. Honesto, escolho a sabedoria de não confirmar a realidade configurada pelas notícias.
Aos fatos ― o que acontece, o que conta como acontecido, o que produz reações ao que se conta como teria acontecido. Donde posso concluir que há uma fantasia, um discurso artificial, uma narrativa que conta pra mim o que pensa e faz o mundo.
O que estou fazendo? Quero viver o momento?
E o sofá ali.
São seis horas e treze minutos... Adeus, crônica.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de julho de 2020.

domingo, 12 de julho de 2020

Anatomia do abismo


Anatomia do abismo

Em vez de autorretrato: outrorretrato. As visões dos outros ajudam a ver-se com matizes variados, além do branco e preto das certezas. O que pode ser um problema a quem não quer dúvidas, certo de que o mundo só fica complicado quando há normas, regras e leis que ora dizem, ora contradizem. Com história única, própria e particular, cada pessoa contribui para torcer e distorcer, travar e destravar, avançar e recuar a figurinha que cada qual faz de si.
Muitas vezes, ouve-se mais a voz interior, dando valor exagerado ao que o ego diz. Outras tantas, ouvidos moucos dissimulam o que se pretende projetado de quem está por perto. Entretanto, a comédia e o drama resultam das misturas, das sopas que se faz, errando a mão, o passo retificando.
Quer agradar? Aborrece. Quer-se repugnante? Apetecível.
Mas... Saindo da abstração.
Aí, por estes dias, me peguei pensando em Leonor Watling, atriz e cantora espanhola, casada com o cantautor uruguaio Jorge Drexler. E vejo/ouço o casal em Toque de Queda. Ambos estão recuperados da Covid-19, então, acolho: que o amor penda a balança para a vida.
E posso recolher da coluna de Hélio Schwartsman, Por que torço para que Bolsonaro morra, a lição ética do racionalismo, um cálculo moral do consequencialismo que supõe que as “ações são valoradas pelos resultados que produzem”, porque, passando de 70.000 mortos no país, para que vidas sejam preservadas, a lógica deve prevalecer.
Indiferença ao milhão de infectados numa estatística?
Alvoroço pela personificação num título?
Tento ouvir o mundo. Há gritarias. Há trovoadas. Há tornados. Há sussurros. Há silêncios. Há pardais pipilando. A vida ouve o mundo? Quem dá ouvidos ao que a vida diz?
Não ando sofrendo de surdez. Todavia, com o volume mais baixo dos ruídos cotidianos e com o espaçamento entre os barulhos, posso comparar ontem e hoje.
A minha deficiência auditiva baseava-se em ouvir sem escutar, no automático, sem prestar atenção. Agora, me certifico da respiração e acompanho o pulso. Impressiono-me, pois noto o meu corpo vivendo. Assombrado, mantenho a escuta sensível ao que antes sequer ouvia, mesmo consciente de que, sob as mesmas camadas do defectível e sondável de sempre, a realidade está tão factícia por suas sutilezas.
Enquanto me for suportável, mantenho o abismo da vigília.
Não obstante, com um pé na razão e outro na emoção, assisto ao Sr. Brasil na TV Cultura, edição comemorativa dos quinze anos do programa. De Êta nóis!, cantada por Ney Matogrosso e Luli e Lucina, compositoras da canção, colho: no milagre da lida, o amor vira mel.
Para reconstruir o destruído?
Ainda do programa do Rolando Boldrin, de Pesadelo de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, colho: quando um muro separa uma ponte une.
E retorno a Leonor: poco a poco la pena se va.
E que vá? O amor canta que: vá!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de julho de 2020.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Luz da mirada


Luz da mirada

Leonor, estou com um ciclone nas veias...
Cansado, descanso? Nada.
Como os dias não estão fáceis, corro. E dou uma corrida em mim, que não me entrego ao facismo. A facilidade atrapalha, pois coloca o carro nas costas do boi. E já viu: se vai um boi, vai uma estrada.
E estrada não tem calçada. E pela calçada: vou parar na fila. Nela fico quase duas horas e meia. Quinto dia útil do mês. E torro no sol.
Foi terça?
Com esse tanto esperando para pagar contas, as minhas leituras dos jornais ficam acumuladas. Corro ler as edições do Estadão, não consigo. Me embanano todo. Retomo. Recomeço de segunda e volto pro sábado. Me confundo, mas me acerto.
E também a Folha. E ainda O Globo. Tudo junto?
Tem ainda o Fernando Pessoa que levo comigo ao sonho diário. E será que “sussurro gemebundo” é do Ricardo Reis? E “sinto todo meu corpo deitado na realidade” é do Alberto Caieiro?
Nem respondo. Já estou desejando outra coisa.
Desejando coisíssima nenhuma, é que já estou pegando imagens públicas na internet.
Quero juntar uma mão verde e outra amarela, ajuntadas, que nem estivessem rezando. Há em mim este amor ao próximo que muito me descontrola e, desabalado de tal maneira, bolo a frase que digito no rodapé da figura: rezando pela pronta recuperação do Brasil.
Risco do Brasil e coloco de todos nós. E assim:
rezando pela pronta recuperação de todos nós.
Ajeito daqui, arranjo dali. Aprovo as mudanças. Posto na rede: as mãos em oração, com a legenda em caixa alta, em negrito vermelho.
Quarta-feira na correria. Nem consegui ler os jornais, ainda.
Sei lá o que me deu, mas troquei o travesseiro fofo e baixinho por um mais alto e mais duro. O resultado?
Estava testando. E atento ao que me podia ocorrer: a coluna voltar a doer, como houvera acontecido recentemente. O pescoço, a nuca e as agulhadas problemáticas, incômodas. A densidade do desconforto e o meu método científico de experimentar na pele, digo, no corpo.
E bastaram três noites: de sexta para sábado, deste para domingo e deste para segunda. Troquei o travesseiro, voltei com o anterior.
Ah... Então, estou sob tortura.
Toca ouvir Ennio Morricone. Já estou embaralhando Cazuza com os convidados do Fronteiras do Pensamento, com Mia Couto, Paula Toller, Andrew Solomon...
Caramba. Faz trinta anos que o Cazuza morreu.
Maravilha. Cacá Diegues especula sobre a raiz comum de solidão e solidariedade... Ele diz algo bem bacana: a solidariedade é “o amor sem sentimento de propriedade sobre o outro”.
Antes da pane, o pânico? Não. O pânico já é a pane.
Tentando manter a sobriedade, apesar das horas aceleradas que andam comendo a rotina. Uma ova que tá tudo bem.
Li certo? Paula Toller? Para falar o quê?
Preciso correr pro YouTube, quero ver Peça, monólogo com Marat Descartes e direção de Janaina Leite.
A crônica? De um jato.
Ai! Que pena, que peninha, Leonor...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de julho de 2020.




terça-feira, 7 de julho de 2020

Que coisa mais doida


Que coisa mais doida

O jornalista Zuza Homem de Mello anuncia uma biografia de João Gilberto. Hum...
Pessoas admitidas à privacidade do famigerado bossa-novista de Chega de Saudade relatam que o baiano, premiado com um desses raros fenômenos da natureza, tinha ouvido absoluto. O compositor de Bim Bom era capaz de reconhecer uma nota musical sem precisar de referências. Sua percepção era de um profundíssimo apuro, o que lhe permitia identificar semitons de imediato.
Assim, para dar ao público sem audição naturalmente preciosa ou tecnicamente estudada, ele ensaiava durante horas, ficando a repetir um único acorde até expressar as variações microscópicas que podia escutar de modo tão aguçado.
A sua técnica não estava a serviço da perfeição como costumam julgar, dava-se em função educadora, para que os tímpanos comuns pudessem gozar de experiência estética peculiaríssima.
Talvez seja historinha ao redor do mito, mas contam que o Mestre de Juazeiro tinha verdadeira fascinação por pessoas azuis, aquelas que têm voz afinada em si bemol e não em dó maior como a maioria.
Sei. Algo me diz que o referido músico era... doidinho.
É carinhosamente crítico este doidinho. O exemplo de ser humano diferente da chamada loucura “normal”, dos que se acham um Nero ou Napoleão. O termo é aplicável àqueles que vão levando uma vida pacata, cotidiana, sem grandes abismos metafísicos, que, entretanto, tem particular fixação por algum detalhe, alguma minúcia, o que só a eles deixam malucos a ponto do exagero, da desmedida, de se verem atirados ao sério, de fazê-los parecer dementes de tão atraídos.
Bem capazes de ficarem horas e horas no bendito acorde, até que o gato, bicho que possui uma audição assombrosamente aumentada, resolve pegar o chapéu para ir miar em outro canto. Fato este, aliás, sempre citado quando se quer carimbar como mal-agradecido quem prefere a privação das sutilezas expressas naquele bim bom bim bom bom bom.
Caramba, isso de associar cor com a pessoa, por sua voz ou pela aura da sua presença, dá o que pensar. Será que foi por causa desse ouvido absurdamente refinado que Van Gogh usava cores berrantes, fora do padrão, ou teria cortado a própria orelha?
Opa. Sem a pretensão de retificar o que me parece um equívoco, não sigo quem diz o mesmo em relação a Arthur Rimbaud. No poema Vogais ele tratou de associar vogais a cores, assim o A é preto; o E é branco; o I é vermelho; O é azul; U é verde.
Ah tá! Quando ouço “dia” não imagino algo rubro-negro. Por certo, minhas limitações põem o sol brilhando no céu de anil.
Aliás, longe de mim querer me juntar ao poeta francês ou ao pintor holandês, que tinham certos cacoetes, de nascença ou pela força de hábitos invulgares. Como gosto muitíssimo de ambos, fico tentado a chamá-los... doidões.
E?
E no vaivém da vida, valsa mal este cronista... doido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de julho de 2020.

domingo, 5 de julho de 2020

Zaragata


Zaragata

De bobeira, por intuição. Talvez por que seja domingo, ou por que esteja com uma sensação de alívio. Quiçá o sufoco da ocasião tenha saído dar uma voltinha no quarteirão.
Uma saída...
E ir sem pressa. Ir com a disposição dos descobridores. Não, indo com olhos que inventam o caminho. Ir disposto a inventar-se menos pesado, angustiado. E deixar-se ir mais afeito ao contentamento que não se explica, vive-se. Uma maravilha.
Tratar de viver os sentimentos que estão vindo sem mais. Porque o instante é agora, com o sabor do inadiável, do que se faz único.
Tolice? Bobeira, mesmo. De uma leveza. De quem não está nem aí para projetos, projeções, programações.
De graça. Bem engraçada.
O negócio mesmo é não ter cabeça para negociar. Poder degustar o momento. Fazê-lo, o prazer de estar de bobeira, inegociável. Então, por que um grão de silêncio quer se passar por algaravia?
Uma palavra cheia de luz. Praias que escancaram o horizonte. De alegrias contagiantes. E de tamanha magnitude: algaravia.
Ó algaravia que está na alma, dá-me, ó encanto, a calma de quem ouve a grama crescendo. Por um momento, ouve sem perceber.
Ó algaravia que brota da lama, venha-me, ó quietude, traga-me a chama que ilumina o ar que respiro. Por um segundo, brilhe a paz.
Ó algaravia que resgata o corpo, abriga-me, ó sopro, no lume que regenera o músculo estafado, o tendão agastado, o nervo enfatuado.
Por um instante, por este instante, sem cálculo. Para existir a seu bel-prazer, pelo bom de vivê-lo à medida de sua oportunidade.
Assim, os olhos encontram os olhos. Que sorriem. Estão sorrindo. Sem saber que sorriem, que podem sorrir, nem pedem para sorrir. Os olhos dão com o olhar que encontra porque não o estava procurando. Porque havia de descobrir o que não estava encoberto. Porque há de revelar o que não está oculto.
Basta este encontro, o fortuito.
Entretanto, para que o acaso possa o enlace, a união de universos tão distintos, é preciso estar desatento, distraído, como ausente de si, em si. Entretanto, que se permita a presença na lacuna, no vazio que se abre entre um passo e outro, na passada que não cessa.
Então, neste estado de espírito, nesta emergência do que ignora o sentido do que está sendo feito, nesta existência que dispensa o teor do que se vive, aí o inefável, o indizível, o incomunicável, sorri.
É o sorriso da gata que se lambia todinha, se limpava de alguma coisa invisível, se entrega àquilo, e, repentinamente, o inesperado se desprende.
Da cor da beterraba... Da terra.
A danadinha esteve fuçando os vasos. A discreta esteve cobrindo suas pegadas. Esta bichinha de sete meses, tranquilamente no sofá, no seu lugarzinho no sofá, é aí que ela basta a si mesma, é daí que o infinito escapa e, sorrindo, se deixa materializar como encantamento.
Nana nina não? Sim.
Só um bobo para acolher a misericórdia que mia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de julho de 2020.