Morte
e vida coronavariana
Ontem à noite, por volta das nove da
noite, a postos: à espera das manifestações. Confirmo: nove e três. A vizinha
do quarteirão depois da Jaú chama: boa-noite. Insiste, clama resposta, e obtém.
O chatão aqui nem se esforça pra
disfarçar que desdenha. Gritaria num pandemônio desses? Com tanta panela
tagarela nas varandas, como sacar que tem gente que nem bate boca por falta de Face?
E a morte ronda os altares suplicando moedas?
Há pessoas que começaram a ver que tem
alguma coisa vindo na direção delas; outras tantas já se aperceberam que tem vindo
algo na direção de todo mundo; as poucas que tinham olhos como lunetas e
ouvidos como audiômetros ficam em casa pra evitar que se acelere o pasmo nem se
intensifique a carnificina.
O planeta é um só? Poxa, caramba, vixe.
Algumas pessoas estão perdendo o foco;
outras estão posando no palco compartilhado; estamos numa oitava atravessando a
escala.
Num átimo, do outro lado da rua, entra
em cena, naquela varanda com ar-condicionado, o adorador de derivados do cloro.
Nero Eugênio, exemplo de fôlego, funesto
exemplar.
Os
ventos de perdigotos travam os moinhos? Não se engane, tem gente que está
mentindo. Hidroxicloroquina já! Depois não reclamem quando o diabo vencer a
guerra. Quem com a verdade se liberta, com a verdade libertará. Anote aí o que,
ó que já faz tempo, tenho dito.
Poxa, provocar conflito. Caramba, nem dá
pra respirar. Vixe, ainda bem que pude aprender a lavar as mãos de olhos
concentrados.
Sem conseguir ouvir direito o que se
dizia logo ali, volto pra sala.
Com um gosto amargo na boca, sim,
ainda tenho paladar e olfato, me vem à mente um desânimo, uma frustração, uma
fronteira que foi ultrapassada. Parece que o fantasma martela, bate, vai
perfurando.
Eu
falo. Falo mesmo, porque é preciso dizer. Tem que abrir o olho. O brasileiro é
um tonto que não vê que estão enganando o coitado. Digo, fico repetindo, mas o bobalhão
cai na conversinha dos espertos e não toma jeito. Falo, falo, falo, e nada de
ser ouvido.
Se ninguém escuta, viva o amor livre
dos pandas encarcerados.
Sim, amiga leitora e amigo leitor, o
mundo animal anda curtindo o sumiço dos seres humanos.
Notícia vinda de zoológico em Hong
Kong diz que, depois de uma década morando juntos num cativeiro público, dois amáveis
pandas gigantes, Ying Ying e Le Le, mandaram bem com sol e tudo. Também pudera,
com seis bilhões de pessoas intoxicadas de tanta pornografia coronavírica,
sentiram-se à vontade pra perder a virgindade conjugal.
Sexo selvagem em TVs, jornais e sítios
de família?
Dias bizarros. Quem vive? Uma época rara.
Quem morre? Nunca antes vivi algo assim. Quem vence? E o que posso dizer nessa
hora? Quem é vencido? Como traduzir o que tenho vivido?
Seria um acaso coronaviral... Ou uma
chance coronavirana...
Ô cabeça, de onde vem o título da
crônica?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 09 de abril de 2020.