Daora
Para fazer as compras da quinzena, vou
ao supermercado. Com a quarentena em vigor, o acesso ao interior da loja está
controlado por funcionário da rede. À entrada, garantido o distanciamento, é
lançado álcool em gel na mão de cada cliente que chega.
Um movimento tranquilo. E sem falta de
mercadorias.
Comparo com o que vivi dias antes das
restrições.
Lá estava, de lista na mão, pegando
cada item na quantidade para duas semanas. Comprando o necessário, idosos sem
afobação. Sem demonstrações de medo com o fim do mundo.
Como comprava em dobro, ia calculando
o peso. Resolvi dividir.
Fui para casa, mas voltei uns quarenta
minutos depois.
O frenesi tomava conta do ar. O
supermercado tinha mais gente. A maior parte das mulheres adultas empunhavam seus
carrinhos com comida pra uma multidão. Que coisa! Todo mundo pelejava pra estar
munido com papel higiênico, prevendo iminente a invasão zumbi.
Realmente, o cartão de crédito protege
dos zumbis. Sem cinismo, ricos compram mais porque podem pagar pela diferença.
E nas duas vezes que estive no
supermercado, vi aquele vulto que me é bem familiar, porque moramos próximos: um
velho com pernas de atleta e pulmões de bailarino, o Nero Eugênio.
Explico-me.
Quando estava chegando, o dito cujo
saía. Carregado de sacolas, cigarro aceso. Quando retornei, o próprio estava de
saída. Carregado de sacolas, fumava outro cigarro.
Então, o sujeito se destaca por correr
como um Bolt sexagenário?
Vou direto ao ponto. Fui e voltei,
desabei diante da TV. Panelaços, cantorias, diário do confinamento à brasileira.
Dou um tempo. Vou pra varanda. Quero sol, curtir o horizonte, respirar a ilusão
azul.
Do outro lado da rua, ignorando seus
passarinhos engaiolados na sacada envidraçada, insulta-me ouvi-lo, o babaquara,
tentando bater na vizinha com seus gritos.
Coronavírus que nada! A vida não tem
de mudar nada! É coisa de comunista falir o comércio e prender pessoas em casa!
Mais que nunca, é hora de abraçar as pessoas
amadas da melhor maneira possível: contatando-as por mensagem, telefone ou
vídeo.
Cá entre nós, escolho a varanda; faz
um dia lindo, e não sofro.
Tenho ciência do que posso, preciso e
devo fazer. E faço.
Posso estar enganado, como volta e
meia me acontece, mas o sol não me parece criminoso, não o percebo contrariado,
não sinto a luz irradiada como instrumento de morte. Aliás, sem me purgar de
algum lado sombrio em mim, ele me é benigno. Como desconheço se ando carente de
vitaminas, quero cinco minutos de banho de sol.
Estou em pé, apoiando-me na mureta da
sacada, respirando sem febre e sem tosse. Fico parado, até que os meus joelhos comecem
a acusar o mormaço nos ligamentos, um formigamento barafunde pela espinha e a
nuca peça almofadas.
Como moro sozinho, não me preocupa
conviver comigo.
Oxe.
E quando o mundo aborrece? Fecho a
casa, apenas.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 02 de abril de 2020.