Boca
aberta
Quem dera a fortaleza dos espontâneos,
mas fraco que sou, ensaio bem minhas deixas. Se de mim não cobram nada, cedo. Nem
reclamo mais felicidade. E até o sabido do Spotify vê que, de bem com a vida, compro
esta onda do feliz.
Disfarçando, soltando piadas quase
engraçadas, meneando a cabeça aos de repentes, tiro espinhos do porquinho. Delícia
é não ter modos à mesa, para deixar o almoço bem temperado. Assim parece, pois camarada
confiante pega da realidade para desviá-la pelo teatro. Embora canastrão, juro ter vocação.
Boca aberta faz questão de matraquear.
Com permissão, rir. Quem pouco pode, muito deve? Como se o dever de servir não
implicasse o quinhão da sua parte, rir. Voluntariado
é o termo apropriado a quem obrigado à entregar-se. Para benefício? Do coletivo
─ e dele está: excluído, na repartição do prato feito; e incluído, pelo amor à
ordem estabelecida. A boca é livre?
Por isso, acho incontrolável a sanha
de me divertir metendo cacos no que vou escrevendo. Tiques de um automatismo
que nada tem de inconsciente, mas digo que é. Para desconsolo do lado racional.
Mas o cartesiano em mim faz festa também, até arrisca um pas de deux, estapafúrdio e bizarro. Posto que: um vai de tênis; outro, de agulha sete centímetros. Patético e pateta, chego ao denominador
comum: escritor.
À vista disto, deixaria de fora o
desejo? Nananinanão.
Unicórnios me mordam! Fabulo ter peito.
Quero provar dos valores que os conto ao me narrar, mas sou tépido. Caramba,
como tremo na base ao pensar no tiro sem saber de onde vem a bala. Carambola, morro
de medo só de me imaginar na mira. Não quero levar bala a troco de miseráveis celular
ou dez paus. Câmeras? Continuam por aí. Se o pânico me desnuda, queria piscar
de volta. Pois não caçarei os unicórnios.
Digo à minha verdade o que ela não
quer ouvir, nem de mim nem de ninguém. A verdade, qualquer que seja, não passa
de articulação de palavras, para que se sustente um conceito, seja o que for. Porque
entendo o que o ordenamento das palavras significa, me levo a aceitá-lo como
verdade. Ou seja, dou fé ao sentido que a linguagem propõe. A semântica revela
metáforas que a revelam. Isto é, o significado é passível de ser captado porque
palavra é metáfora construída com sons (se é falada) e grafismos (quando vista).
A palavra funciona, por convenção. E sem entender o que se diz, palavra é
ruído. Contudo?
Não é porque gosto do que faço que
estou fazendo um bem danado pela humanidade. Mais do que ofício, escrever é
vício.
Que humanidade? A que, das três patas,
logo dá a mental por que é a mais curta? A que, por não saber das horas, corre feito
louca na gaiola? Ou, ainda, a que vem com esta novidade organicamente legal: chega
de enterro e cremação, útil mesmo é cadáver adubar o solo para tulipas e
beterrabas?
Assim como os poetas, humanos somos
outros.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 28 de março de 2019.