O
fantasma da XV
A redundância é uma característica da
minha persona, diz quem me conhece pelo que acha nas minhas redes sociais. E
eles me conhecem muito bem, justamente pelas redes sociais que não são minhas,
ainda que o meu nome esteja lá como vórtice daquelas relações.
Como tais relações prescindem de
relacionamentos, basta que haja um nome para imediata conexão entre carne e
sombra, é de bom-tom que se diga que esse conhecimento é extravagante, porque o
espírito do momento provê as extravagâncias que o nutrem.
Pela figura que seguem, entendo-me idiota.
Vejo que dão joinha a uma fotografia bem
antiga, de 2005, quando, em Santos, fui fazer endoscopia. Podem curtir, ainda,
outra foto antiga, já em 2014, quando, em Piracicaba, eu comia um linguado à
beira-rio. Pra que passe por desapercebido, dão à aprovação uma foto, clicada
ontem, de quando eu saía duma colonoscopia duca!
O peculiar delas todas? Visto polo
azul-bebê.
Serei tão idiota de vestir a mesma camisa
por anos?
Deixo estar. Olhando bem, dá para reparar
que é o azul-bebê o que se destaca. Mesmo que as peças sejam outras, eu pareço sempre
usar a mesma.
Poucos compreendem que este idiota nada
tem a oferecer que não esteja no que escrevo. Custa-lhes entender que me prefiro
submergido no silêncio de quem supõe nada mais ter a oferecer que não esteja no
que pressupõem seja uma piada.
Uma vez pressuposto que fico muito bem
de azul-bebê, pressionam pela minha validação.
Pois é, Carlito, também perdi o bonde e
a esperança. Não hei de ir às ruas como fumaça, feito lembrança de quem ateia
fogo nas próprias vestes pro seu espectro ser dado em pó.
Quando atropelam para que o corpo seja
venerado, vou às praças; sabendo ir pelo pranteado, seguirei a rir-me.
Do pranto ao riso, reitero que assim
seja.
Se decaí do ouro ao barro? Com o barro
moldarei bezerros de ouro? Sangrarei pelas mãos de quem lapida?
Do riso às gargalhadas, pleiteio que
seja assim.
Galgarei a ladeira da memória.
Respirarei o ar que passa pelo pico que posso atingir. Estarei lá enquanto
comigo continuar a estar. Pelos anos que sobram, procuro me retratar vivo.
Vivo estive na XV. Sentei à entrada da
Confeitaria Schaffer. Com a animação de incauto, à mesa que pareceu ser adequada
ao propósito, fiquei-me à espera do Sugador de Histórias.
Embora a tarde fosse cinzenta, e garoenta,
no afã de idiota que se segura, uma vez que minha cruzada era de fanzoca
solitário, de gente feliz por baixar a guarda quando contasse entrar no radar
do Vampiro, o meu cérebro ardia.
Na graça de ‘78, as chamas da alma restaram
fulminantes, capotei após uns quantos cafés e por não sei lá quantos cigarros. Já
era tarde, bem tarde, porque nunca mais me veria seduzido pelo sujeito de
boina, barbicha e caninos eminentes.
O Sr. Dalton devorado por um idiota?
A vaidade seja dita:
― É fogo!
À vera, seja dito:
― É foda!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de dezembro de 2024.