Flanelinha
A minha contribuição foi gesticular como
se soubesse o que estava fazendo, a culpa, portanto, é do motorista que
acreditou em mim.
Dizer que tenho duas caras é um erro, pois
tenho muitas. As visíveis sem nada de extraordinário colaboram para que eu seja
definido como uma pessoa normal. Também faço as surpreendentes, que podem ser aquelas
que espanam a poeira depositada em mim pelas sensaborias cotidianas e aquelas
que despertam censores, aqueles que me rotulam egocêntrico ou os que me invejam
o narcisismo.
– Não nego nunca minha disposição pra
ajudar.
Eu respeito, não abuso da confiança. Mas
me irrita ser interrogado sobre minha cara fechada. Não gosto que me
menosprezem. Peço que seja apontada a razão pra tamanho pé na bunda. Não se
excedam.
– Sim, Antão, a minha casa me agrada. Se
as pessoas reparassem, veriam que a garagem nunca viu um automóvel estacionado.
Meu lar também não tem cão nem gato, pois não tenho tanto tempo assim.
Há quem não se importe de suportar miado
o dia inteiro. Mas viver sozinho não me faz insensível. Precisado de carinho,
qualquer bichano pode chegar. Gosto de acarinhar, e respiro melhor.
– Outra coisa que acalme?
A primeira coisa que me ocorre, é fechar
os olhos por um tempo. E deixá-los fechados ao ouvir música. Mesmo que
falatórios atrapalhem a curtição, aumento o som. Curto a vadiagem, ela refreia os
rompantes. A última coisa que desejo é ser tomado por brusco, um selvagem.
– Sim, Antão, não vejo problema
considerar a minha cama um divã. Na cama, satisfaço os afetos que careço. Nela,
largo à realidade o que desestabiliza. Até consigo falar pro senhor o que
normalmente me falta coragem. Não é mentira, eu sempre sou transparente dormindo.
Não sou dorminhoco.
– Sim, Antão, apago doze horas ao dia. Durmo
oito horas por noite; a pestana depois do almoço dura duas horas; o cochilo
depois da janta dura outras duas horas. Sou um cara consciente, eu durmo só o
quanto preciso.
Dormindo, esqueço que meu time foi
desclassificado no mata-mata. Dormindo, cruzo o rio pela pinguela atrás de
casa. Passo carregando a coroa de flores. Martelo uma escada. Pinto de vermelho
a porta dos fundos. No inverno, trepo no abacateiro. Dormindo, sonho que trabalho
para que o mundo melhore um pouco.
– Sim, Antão, acho que tudo na vida tem
razão de ser. Até quando o carro perde o freio, derruba o muro e atropela o
gato do vizinho. Faz parte, não tem como impedir que o carro bata no muro,
esmague rosas e assuste aquela gente que tem um gato que ronrona quando a gente
faz carinho na sua cabeça.
Se a vida é ronronar para que sejam amorosos
comigo?
– Antão, talvez eu precise cochilar. Talvez,
dormindo, possa pensar sem refletir. Quem sabe tome da coragem para espalhar o
que penso. Quiçá abandone a comichão de ajudar motoristas apenas porque eles não
saem de fábrica com autonomia inteligente.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de março de 2024.