Estradista
Nesta Quarta-Feira de Cinzas, não
acordei, fui despertado.
Acordar é ser tirado do sono sem
influência externa, seja por latidos, seja por buzinas, seja pelo ar gelado
massageando os pés.
O barulho da chuva não me acordou, foi o
alarme que tocou às três. Para desligar o despertador, fui obrigado a levantar,
pois eu coloquei o relógio na mesinha a três metros da cama.
Acendi a lâmpada para não ter
dificuldades para escrever porque a luz da rua chegava fraca à mesinha sob a
janela.
Quis-me despertado às três porque
encafifei de que poderia pôr no papel o sonho interrompido. Propositadamente
queria por escrito o que a cachola maquinava. Sem menosprezar palavra alguma, o
desejo era mapear a interferência da mente. Quisera-me retratado.
Este retrato não é fotográfico,
assemelha-se à pintura: cada palavra passada à folha manuscreve a percepção que
toma forma adensada, aprofundada, particularizada, sem a captação mecânica do
obturador que abre-e-fecha num clique.
Seriam máquina, mas os meus olhos não
estão isentos do sono que eu sinto. Poderiam a imparcialidade, mas as palavras
que escrevo são as que formam o meu repertório.
Reporto que, nesta Quarta-Feira de
Cinzas, não despertei viajante, pois comprava uma mochila, punha-a nas costas,
pusessem pesos às costas, testava o equilíbrio, subia e descia a escada, dizia
à vendedora que minhas simulações eram necessárias pelo que eu imaginava que passaria
na realidade.
De verdade, eram três e pouco da matina,
chovia, era uma noite fria e palavras foram riscadas, trocadas, frases inteiras
sumiram, sem que a mochila desejada se materializasse no sulfite.
Realista, achei na internet a mochila tão
sonhada.
Resistente à água, com 60 litros para
equipamentos, com correias ajustáveis na cintura e no peito, é mochila pra
andarilho que não patine de palmilhar milhas até Compostela.
Com a mochila escolhida, a felicidade não
parou a chuva nem meus pés esquentaram. Com uma folha ao meu dispor, precisava
de controle ou, no impulso de arteiro metido a artista, colocaria a mochila no
centro da sala, em cima do tampo de vidro da mesinha de centro.
Desde que não esteja enchida de papel
amassado, a mochila virará uma escultura. Será obra de arte porque trará saco
de dormir, lanterna, fogareiro a álcool, as pantufas, os óculos de sol
sobressalentes, quatro bermudas, quatro camisetas, uma cueca extra e um celular
enfiado na caixinha de aveia, pois eu não encaro as jornadas da vida sem a minha
ração de banana amassada.
Quem vê cara não vê coração ꟷ o que me fala
o tal dito bendito?
Vexado pela ideia de supor um pastiche, a
mochila relida por Beuys, o pudor não traz o rubor porque a folha queda em branco.
Pé na estrada, no duro, é partir amanhã pra
crônica que, por óbvio, tenho que vê-la escrita, cujo título já me faz, aliás, sorrir:
BREJEIRO
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de fevereiro de 2024.
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