quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Estradista

 

Estradista

 

Nesta Quarta-Feira de Cinzas, não acordei, fui despertado.

Acordar é ser tirado do sono sem influência externa, seja por latidos, seja por buzinas, seja pelo ar gelado massageando os pés.

O barulho da chuva não me acordou, foi o alarme que tocou às três. Para desligar o despertador, fui obrigado a levantar, pois eu coloquei o relógio na mesinha a três metros da cama.

Acendi a lâmpada para não ter dificuldades para escrever porque a luz da rua chegava fraca à mesinha sob a janela.

Quis-me despertado às três porque encafifei de que poderia pôr no papel o sonho interrompido. Propositadamente queria por escrito o que a cachola maquinava. Sem menosprezar palavra alguma, o desejo era mapear a interferência da mente. Quisera-me retratado.

Este retrato não é fotográfico, assemelha-se à pintura: cada palavra passada à folha manuscreve a percepção que toma forma adensada, aprofundada, particularizada, sem a captação mecânica do obturador que abre-e-fecha num clique.

Seriam máquina, mas os meus olhos não estão isentos do sono que eu sinto. Poderiam a imparcialidade, mas as palavras que escrevo são as que formam o meu repertório.

Reporto que, nesta Quarta-Feira de Cinzas, não despertei viajante, pois comprava uma mochila, punha-a nas costas, pusessem pesos às costas, testava o equilíbrio, subia e descia a escada, dizia à vendedora que minhas simulações eram necessárias pelo que eu imaginava que passaria na realidade.

De verdade, eram três e pouco da matina, chovia, era uma noite fria e palavras foram riscadas, trocadas, frases inteiras sumiram, sem que a mochila desejada se materializasse no sulfite.

Realista, achei na internet a mochila tão sonhada.

Resistente à água, com 60 litros para equipamentos, com correias ajustáveis na cintura e no peito, é mochila pra andarilho que não patine de palmilhar milhas até Compostela.

Com a mochila escolhida, a felicidade não parou a chuva nem meus pés esquentaram. Com uma folha ao meu dispor, precisava de controle ou, no impulso de arteiro metido a artista, colocaria a mochila no centro da sala, em cima do tampo de vidro da mesinha de centro.

Desde que não esteja enchida de papel amassado, a mochila virará uma escultura. Será obra de arte porque trará saco de dormir, lanterna, fogareiro a álcool, as pantufas, os óculos de sol sobressalentes, quatro bermudas, quatro camisetas, uma cueca extra e um celular enfiado na caixinha de aveia, pois eu não encaro as jornadas da vida sem a minha ração de banana amassada.

Quem vê cara não vê coração ꟷ o que me fala o tal dito bendito?

Vexado pela ideia de supor um pastiche, a mochila relida por Beuys, o pudor não traz o rubor porque a folha queda em branco.

Pé na estrada, no duro, é partir amanhã pra crônica que, por óbvio, tenho que vê-la escrita, cujo título já me faz, aliás, sorrir:

 

BREJEIRO

 

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de fevereiro de 2024.

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