Mera
informalidade
Dos benefícios do desânimo, ficar à
janela enquanto alvorece está entre os mais amenos. Bem entendido, depois de
outra madrugada de calor, faz bem desestressar a cuca longe do sol.
O quanto puder, porque a ideia volta-se
sobre si. Neurônios fritam-se quando expostos, fique à sombra. Já que há dor
que só se percebe depois de convertida em exaustão, podendo resguardar-se, delicie-se.
Aproveite, beberique uma água gelada, pois o sol não tem opção, ele subirá
pelos céus como se fosse de sua vontade redimensionar o corpo pela mente
desolada.
Equivoca-se a mente.
Abatido com o calor o tempo todo, a
rotina tem desses enganos, de dar na gente a crença no que parece ser que funcione
sempre assim.
E a realidade de hoje tem o mesmo sol de
ontem, a mesma rua de anteontem, o marasmo de achar que sou o mesmo do mês
passado, do ano anterior, que vivo na mesma batida há anos e anos.
Por trapaceira, a realidade nem se
esforça de convencer-me de que causa menos torpor percebê-la debilitante. Não
preciso estafar-me, eu ignore as evidências de que a fraqueza embaralha os
pensamentos.
Quando me atrapalho, me desgasto. Melhor
parar, antes que pense em colapso, antes que eu tema colapsar-me.
Cabe a reação. Ainda que não brote a
esperança, ficar à janela bem pode dar uma reanimada. Ainda que o dia siga o
roteiro, a boa jogada é observá-lo. Tenho calma.
Até pra lembrar que nem tudo abate e
cansa, lá vem ele. Com suas ocupações, um tanto afobado, vem aí aquele cão de
todo dia. Quando perto do poste, o rabo sacode o quarto traseiro, o que faz do açodado
um ser em estado de euforia. Quiçá seja inexato falar que ele conheça o
frenesi, mesmo que esteja obcecado com o pé do poste.
Bom camarada, perdido das amenidades?
Perdido não, estou suado.
E disposto a suar um bocadinho mais,
porque bem sinto que o vidro da janela não é isolante. Que nem o cão às voltas
com o poste, também me dou em retrato de outra pessoa afetada pela realidade.
Na minha basbaquice pouco lírica, embora
as observações diárias permitam-me entender que não há dia igual a outro, não
me quero um peso morto, uma marionete do tédio.
Ainda bem que tenho aquele cão pra
observar.
A ele pouco se lhe dá que o observem. Solto
na calçada do lado de lá da rua, também aquele cão tem instintos que o
impulsionam.
Sem firulas, urina. Cobre a mijadinha
com a terra que não há. Torna a cheirar o pé do poste, agora coberto pelo pó que
nem ele vê.
Pra ir adiante, no entanto, o cão retorna.
Torna a cheirar o poste, a urinar, a
cheirar o território mijado, a usar as patas traseiras para varrer a terra invisível
sobre o poste marcado.
Ele avança em direção à jardineira, mas
recua.
Inspeciona o poste com o focinho. Faz
xixi e joga a areia imaginária. Por não ser nenhum abilolado bibelô, ele late.
Tenta que tenta, sem desespero, repete
que repete, este cão tem a minha cara, esse aí é osso.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de março de 2024.