De
bico molhado
Poderei repetir mil vezes, mas não me
convencerei desta verdade: eu não fiz sacrifício algum ao não botar o nariz
fora de casa em nenhum dos quatro dias de folia.
Como há males que duram mais do que um
alala-ô, foi para não ser afetado por estripulias e excessos dos súditos de
Momo que suei para me manter desligado das bugigangas eletrônicas.
Ainda que, fora do Carnaval, a TV desnorteie
as minhas sinapses, reduzindo os caminhos às veredas tão divertidas, não quis
meus dedos hipnotizados pela volúpia de administrar, por meio do controle
remoto, as doses diárias dessa realidade inebriante.
Isso de ficar menos eufórico que naturalmente
alegre, foi pretensão que também creditei válida para o consumo desenfreado de
dados seja via celular assim como via computador.
Sem TV, telefone e notebook por noventa
e seis horas, sentado na varanda mesmo durante as chuvaradas, vi que o
cruzamento perto de casa não acumulava água.
Apesar das orações por um reinado de suor
e cerveja gelada, notei a surdez dos aguaceiros. Nestes quatro dias de temporal,
sequinho na cadeira, não balancei do que vi, ainda que a tampa do esgoto seguisse
visível no centro da encruzilhada.
Porque a festança não foi por água
abaixo, e cativado pelas carnes endiabradas das foliãs e dos foliões, perseverei-me
na abstinência dos avatares escancaradamente célebres do ciberespaço.
Contudo! Nada como um bloco depois do outro.
Se passava um que se opunha a tocar essa
ou aquela marchinha, vinha outro que empolgava sem índex de canções proibidas.
Se tocar marchinha não empolgava, vinham
bloquinhos de axés, de frevos ou de sambas-enredo.
Se Rita Lee, Beatles ou Bob Marley
podiam soar tão animados, tudo bem, que passassem pelo cruzamento batucados com
animação.
Animado porém lúcido, não apoio quem
opina que carnaval poderia ocorrer em finais de semana, de três em três meses.
Só sábado e domingo? Por que não incluir
a sexta? Se houver ajuda de custo, que tal acrescentar quinta e segunda-feira?
Ter o fígado abduzido por banheiro
químico ꟷ isso dá que seja justo o Carnaval de sexta a terça, com o desfile livre
no sábado.
Digo que os blocos não me fizeram bem
nem mal, entretiveram-me; tanto que chuva caiu, céu abriu e estrelas
cintilaram, todavia a varanda não vacilou.
Pro varandeiro no pique, haja
indicadores. Marquei o ritmo com pés e mãos. Assobiei e cantei. Papei miojo no
almoço, na janta e já na alta madrugada. Folião dedicado, se uma besteirinha
tomava minh’alma, a arrancava sem fraquejar. Mesmo tonto, meu momo interior descartava
que estivesse com sono.
Com cerveja a quem topasse beber, chegaram
mestre-sala e porta-bandeira da Mocidade Austera de Zoroastro. Nos trinques, de
bíblia na mão, cuspiram fogo no brinde. Uma vez que espírito carnavalizado não
perde o rebolado nem com desfeita, me soltei: amém!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2024.