Carinha
de quero mais
Basta que eu facilite, que ceda um
instante ao disparate de não me contrariar enquanto sonho que eu estou
sonhando.
Se fosse simples, seria simples, mas não
ando sonhando que estou sendo simples enquanto caminho na direção desejada.
Quando não sei por que estou indo em
frente, é aí que não paro.
Se não me viesse a vontade de urinar,
continuaria dormindo com o pescoço forçado no desvio da vértebra. Ou seja,
seguiria estimulando o desconforto, continuaria aumentando a sensação de
desconforto, eu seguiria sendo o agente do sofrimento que a mim me fustigará
quando eu for urinar.
Deixe-me ir, ô diabo, que preciso mesmo
dar uma mijadinha.
O diabo põe-me dengoso quando estou tentado
a falar do que não gosto, então, seu danado, não falo do que não gosto porque aceito
sua influência, seu magnetismo.
Deixo-me ir por onde queira que eu vá;
ele fica aperreado.
Comigo ao seu comando, quem sofre é ele,
porque quem gosta de sofrimento não sou eu. Ele tenta não sentir o tanto que
gosta de sentir-se sensível à dor que poderia afetar-me. O danadinho dengoso
adora tudinho que o desgosta a ponto de gostar-se tão sofredor.
Ô diabo que não gosta de mim quando o acato,
eu deveria recusar as suas ofertas, deveria contestá-lo, contrapor-me a suas
demandas?
O aperreado desconversa, diz que não o
entendo, não estou sendo correto quando digo que o compreendo e aprovo. Ele me
assegura que distorço o meu papel apenas pra espicaçá-lo.
Demônio contrariado, diga que minha
frivolidade me faz beber água usando as mãos em vez dos pés. Sombra que
vocifera, seja racional, mefistofélico, radicalmente calculista, pois minha
porção de gente feliz quer deixá-lo feliz na sua rebeldia.
Acordo com a nuca dura. Estou obrigado a
ir ao banheiro sem girar o pescoço. Estou ciente do que fiz: deitei-me
incomodado mas não fiz o certo, que seria ter deitado de costas.
Acordo agastado comigo.
Não volto pro quarto. O sono me pega na
poltrona.
Contemplo-me, sonhando. De olhos
abertos, ando. Contemplo-me que estou sonhando que caminho. Dormindo de olhos
abertos no meio da rua, dou-me conta das tarefas, trabalho o sonho.
Sou esse sujeito que trabalha sem sentir
cansaço.
Canseira dá essa contemplação, que posso
acreditar-me um cara de sorte, um camarada forte, uma pessoa obcecada.
Observo-me: parado na esquina, parado um
instante, não consigo influenciar-me à fortaleza.
E a realidade percebe: trabalho para não
me cansar.
De fato, que soe a campainha para acordar-me.
Recebo visita. Ela chega dizendo que a
lasanha de berinjela foi feita especialmente pra mim. Como não gosto de
berinjela, faço questão de comer um pedacinho bem na sua frente.
Feliz comigo por ter aprovado seu
quitute com a carranca de quem gostou pra caramba, como um emoji simpático, eu
arremato:
ꟷ Ô mão abençoada pra trazer uma iguaria
tão divina.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de novembro de 2023.