quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Bela porcaria

 

Bela porcaria

 

Que bela porcaria é viver, hein Samuel?

Pelo que sei, você abre a janela do seu quarto todos os dias apenas para incomodar-se, ou bocejaria.

Tanto faz, bocejos ou espreguiçadas, a vida incomoda.

Se se houvesse por menos absurdo, daria uma espiadinha esperta pelos vãos da veneziana antes de refugiar-se na cama.

Refúgio, abrigo ou covil?

Se esperança positiva imantasse as traquitanas do otimismo, a roda cósmica pararia no bônus, de mais um dia não sendo um a menos.

Que vida sortuda, Samuel, porque o universo confirma seu ideal, de que a humanidade magnética não norteia larápios, mendigos ou pulhas a levarem a vida como se houvesse amanhã, um amanhã redentor, pra torná-los cândidos, esplêndidos, radiantes monólitos do bem.

Mas radiações expressivas são o cacete; tanto chateiam que Chico, Chicão e Chiquinho não passam de um mesmo Francisco.

Coberta ou descoberta, caro Samuel, a sua mente não tem força de impedir que pernilongo zuna, sugue-lhe o sangue, deposite ovos.

Ele zune e ziguezagueia, tudo por uma picadinha.

Com o inseto pousado, levante-se. Não para matá-lo com chinelada nem porque esteja irritado com o zunido, saia da cama porque não tem que salvar o mundo. Saia da cama, mas saia sem precisar escrever.

Mate o pernilongo ou beba Coca-Cola ou escreva um poema, saia da cama enquanto pode deixá-la.

Trate de arrumar a cama, dobre as cobertas, ajeite a colcha, tire as rugas da colcha, faça o que pode fazer, enquanto ache que possa.

Haverá quem o leia. Haverá quem o divulgue.

Não se mata um leão a cada texto. Nem precisa pôr por escrito onde o leão mata a sede. Vá, não se esconda. Vire a página, Samuel.

Samuca, meu caro Samuca, o pernilongo vem, pousa na sua testa, suga-lhe o sangue, e mais uma vez.

Você pensa: o dia é outro porque é outro dia, e de novo.

Então, mate o pernilongo, beba Coca-Cola, escreva poema, saia da cama, pois você sabe que nada do que faça mudará a verdade: há um dia a mais.

Apesar de tudo, você existe e pode escolher: que a manhã seguinte seja a de mais outro dia, como sempre ou como um dia feito novo; que o dia se renove; que haja renovação.

Achando mesmo que possa estar renovado a cada dia, você é novo. Renovado a cada instante, confie, faça-se novo. Não espere, inove.

Inovação é risco, é aposta pelo que nunca houve.

Samuca, o inédito é o novo que vem pelas mudanças, não somente por variações. Que deixe de ser só cálculo o que seja hipoteticamente plausível.

Agora, repense.

O pernilongo morto ainda há pouco não é o mesmo que será morto. Pois bem, há pernilongo vivo, há pernilongo morto, e sempre serão um pernilongo ꟷ são todos indivíduos da mesma espécie.

Que você cubra ou descubra a cabeça, seu sangue corre nas veias e pernilongo alimenta-se dele, zune e ziguezagueia por ele.

Sem dar cabeçada, o Samuca tem razão:

incrível é ter gente que não acha a vida maravilhosa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de janeiro de 2023.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Aviso prévio

 

Aviso prévio

 

Entro na fila. Depois de uns cinco minutos, ela não andou. Aguardo a minha vez, pois sei respeitar o combinado. Não vou reclamar, mesmo que eu continue no lugar em que entrei.

Andarei quando houver de andar.

Mantenho a calma. Fico na minha, pois fila indiana é mesmo assim: comigo atrás de uma pessoa, comigo à frente de outra.

Nem minhas contas têm asas nem meus pés formigam.

Conservo-me lúcido, e calmo.

Paciente comigo, sei esperar a vez de ser atendido. Mas eu entendo quem perde a paciência com a vagareza dos outros.

Ainda que continue de boca fechada, impaciento-me com a lerdeza de quem me faz ficar um tempo maior do que achava que levaria para pagar o que vim pagar.

Me dou conta de que estou ficando inconformado.

Poxa, não são nem nove horas da manhã. E terei horas e horas até tomar banho, ficar descalço, cochilar na poltrona depois da janta.

Sentir cansaço às oito e pouco de mais um dia cheio dessas tarefas maçantes, admito que preciso descansar.

Que ideia boa para ser acalentada.

Acalento-a. Não me sinto menos cansado, mas minhas pernas não estão tão pesadas. Menos pesado, passo a passo: quase leve.

Aconchegada na esperança, minha alma me põe cordato em outra fila. Por hoje estou destinado a mais e mais filas, e a elas vou eu.

Amanhã enfrentarei outras filas. E depois de amanhã?

Embora um pigarro venha crescendo na garganta, não pigarrearei. A fila não é problema se os dias de folga puxarem meus pensamentos.

Sei que posso aliviar-me desta jornada fastidiosa se pigarrear com discrição. Sem carnaval pros demais, limpo a garganta.

Tanto quanto eu, as pessoas têm contas pra pagar, e pagamos.

Comentam as notícias da hora; concordam, discordam, nem abrem a boca; estamos organizados em fila.

Todos temos os nossos boletos e os pagamos. Com atraso, em dia, pagamos o que podemos, o quanto o dinheiro nos permita pagá-los.

Tenho outra fila para pegar, e não estou aliviado porque paguei dois ou três dos boletos do dia.

Resignação pouco tem de alívio, tem mais que ver com serenidade. Sereno, pois eu sei que estou derrotado.

Pago, não tenho escolha.

Posso deixar de pagar faturas, que elas se acumulem, que venham as cobranças, as novas cobranças, as cartas judiciais, as convocações inadiáveis, o arresto obrigatório, a capitulação.

Tenho mais uma fila, pouco importa se aceito-a ou não. Pego-a.

Como me apresentar aos demais?

Vou à fila com a cabeça banhada nas águas da melancolia, porque a vida segue o seu curso.

Vem aí o carnaval, e não quero estar cansado quando ele começar. Preciso estar pronto pra enfrentar a folia. Sei que não sou bom pra me antecipar aos problemas, mas posso tentar. Como não pretendo piorar tudo, que o dia seja uma tentação inspiradora.

Para que o cotidiano insosso de uma vida em débito automático não me estafe, vou logo avisando: pelos próximos três dias, virei vadio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de janeiro de 2023.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Arte admirável

 

Arte admirável

 

Todavia, quem observa do outro lado?

Distinguir cores, isso não acarreta ações reparadoras como separar do verde o azul pra chegar ao amarelo. Como resto colateral, o amarelo restaurado à mistura segue sendo resquício do que fora.

Há o pervertido que fica excitado como agente a ativar reações que deixam sobras misturadas do que não se quer no desejado.

Há pervertido a quem o excita não reagir, não reativar, é aquele que deseja que o amarelo continue amarelo, sem haver mistura com o azul; assim o verde não resulta da soma do amarelo com o azul.

A apatia como um senão, por escolha e não por desconhecimento, pra que a natureza das coisas permaneça como retrato da inércia. Que a inércia humana continue a produzir a realidade tal qual é sentida.

Então, o inerte pervertido sente prazer ao constatar que: o amarelo e o azul são mantidos separados sem haver interferência; o verde siga sendo verde, sem que haja mistura, que inexista o produto do azul mais o amarelo.

Por omitir o que pensa, o perverso quer que a realidade do mundo continue sendo simples, de fácil percepção, de entendimento cristalino. Que o límpido prevaleça sobre o apurado, o depurado, o reparado. Que a realidade da vida possa ser indolor, que a verdadeira face do mundo enalteça o impassível.

Quem dera a água fosse o básico.

A água, ora essa, a água é fruto dos dois átomos de hidrogênio que se amalgamam com um átomo de oxigênio. Cáspite! Sequer a água é pura.

Como a química não mente, não subverte, não institui inverdade e não constitui paralisias, a vida não para de surpreender quem a ela se dedica a reflexões e pensamentos inesperados.

Sinapses novas, neurônios revigorados: ô coisa boa pro cérebro.

Na janela do outro lado, parece que tem um gato.

Embora me observe, faço perguntas, respondo as que posso, a ele não levarei dúvidas nem as certezas. Ainda que eu permaneça imóvel, a minha cabeça não se omite de pensar.

Será que uma pessoa conseguirá congelar os seus pensamentos? Haverá algum transe que deixe esvaziar-se em pensamento?

Cachola insensata, pulo o muro. De perto, vejo que meu reflexo não desfigura o objeto. Vejo bem: feito à mão, o gato não é empalhado.

Mãos trabalham, dão realidade à apresentação irreproduzível, pois os detalhes são únicos, intransferíveis. Ainda que haja modelo, molde, mãos desejam. Ainda que a linha estabilize a forma, é o olho que vê o gato à janela.

Eu que pulei o muro posso vê-lo de perto, só com o vidro a separar-me do focinho. Sinto que não perdi o meu tempo: ganhei riquezas, até porque o tempo não cria verdinhas.

De pertinho, devasso-o.

Se o enxergo despido de fantasias, saberei empregá-lo melhor?

Num instante, percebo, sinto e penso que este gato não houve nem haverá de ser outro, nem mesmo algum mito desempregado.

Pelo tanto que anda pensando, dona Francisca está admirada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de janeiro de 2023.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

A manhã do pregador

 

A manhã do pregador

 

Da cabeceira da mesa, observando a chuva encharcando as roupas que não têm como dispensar o peso, de roupa ensopada pelo tanto de água que vem caindo desde antes da alvorada, que abaúla os arames do varal, o olhar baço confere ao senhor de longos fios amarelados da basta barba um ar de profeta com veras vivências sapienciais.

Sereno soberano de si, regente de um reino estreito, nesga urbana na malha da cidade, tal vassalo de verdades antigas impõe império de vontades inflexíveis do meio-fio da frente até o meio-fio dos fundos da propriedade, incluídos casa assobradada e pomar de quintal.

Altissonante é a voz que vem do quintal, do tronco da jabuticabeira, do coração entalhado a iluminar rubi a paixão outrora arborescente.

O homem que toma café deixa de tomá-lo desacompanhado porque Pedro vem sentar-se à mesa.

ꟷ Pedrinho, meu querido, se a manhã não fosse de chuva, você me ajudaria a construir uma casa na árvore?

ꟷ Tô de férias, Vovô.

ꟷ Justamente, Pedrinho. As melhores férias, aquelas que você não vai esquecer nunca mais, são quando a gente faz coisas diferentes do que faz durante o ano todo.

ꟷ Mas, Vovô, as férias acabam logo. Com tanto joguinho novo que acabaram de lançar, o senhor me perdoe, prefiro me concentrar só no celular. Não quero que as aulas voltem e eu volte pra escola sem jogar tanta coisa nova.

ꟷ Eu sei, Pedrinho, as férias são curtas, os dias passam rápido, as horas voam, pois a pessoa esquece da vida quando faz o que gosta.

ꟷ Que bom que o senhor me entende.

ꟷ Tudo bem, Pedrinho. Aproveite as férias do melhor modo.

ꟷ Com tanta coisa pra fazer, estou sem tempo, Vovô.

ꟷ Pedrinho, não está aqui quem lhe pediu pra se divertir de um jeito que você talvez nunca tenha experimentado. As férias são suas, então, meu querido, curta-as como bem entende.

ꟷ Não precisa emburrar, Vovô. Quinze dias passam rápido, logo já vou embora e o senhor nem vai ter que inventar essas maluquices que assombram gente nova que nem eu.

ꟷ Pedrinho, não vou aborrecê-lo. Tudo certo. Não é importante que você saiba que o lobo chegou pro porquinho e lhe propôs que sua casa fosse feita de palha. Sim, o lobo queria que o porquinho apanhasse a palha seca dos campos, porque o regime de chuvas estava diferente e não chovia quando deveria estar chovendo.

ꟷ Como raio provoca incêndio, o porquinho deveria construir a sua casa com toda essa palha espalhada por aí.

ꟷ Nada de palha, Pedrinho! O lobo tem que avisar o porquinho pra levantar casa que não pegue fogo fácil. A casa precisa ser de pau. Com tanto galho caído, tanta árvore, o lobo alerte que é melhor construir de modo seguro.

ꟷ Nem palha nem pau, é só pegar a história da Rapunzel pra saber que chuva, vento e fogo não abalam torre feita de pedra.

Depois de Pedro, Paulo e Maria terem opinado, o avô de longos fios da grande barba amarelada achou de ficar quietinho, feliz.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2023.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Amor selvagem

 

Amor selvagem

 

Sinto muito, e por muito sentir o tanto que me aflige, o que primeiro me ocorre quando ouço que o circo está na cidade é: medo.

Outros, talvez a maioria, sintam alegria, busquem-na e a encontrem sem taquicardia, exsudação ou insônia, eu, pobre criatura medrosa, eu fecho meus olhos porque sei que preciso, sei mesmo que tenho de me desdobrar em esforços pra não compreender que o alto-falante reforça o que a faixa nos céus anuncia, que o circo está na cidade.

Agora e sempre, descontrola-me tal notícia.

Desde pequeno, no papel de guri com um bodoque no bolso de trás das calças curtas, eu corria ao pai pra implorar que não me levasse até os palhaços, porque aquilo de pagar entrada era desperdiçar pirulitos, balas e sorvetes, porque o circo, puxa vida, todo circo era passageiro, já o bar da frente, ele seguiria na frente de casa, que assim era desde sempre, mas o pai, tão comovente na sua função de surdo que manda na casa toda, achava divertido aflorar-me medroso, por minhas aflições de garoto.

Posto que bem me recorde: hoje eu temo pelo que eu temia.

Pra todo mundo ficar sabendo, o circo chegava à cidade com desfile na rua principal. Pra que todo mundo pudesse testemunhá-lo, o cortejo era lento, progressivamente lento. Pra que a cidade, meu pai inclusive, ficasse inteirada de que a boa nova era a vinda perturbadora do circo, no desfile triunfavam aqueles seres amedrontadores, os palhaços.

Não acho que seja pelo rosto carregado nas tintas, talvez seja pelos gestos súbitos que sintetizem o caótico do cosmos, quiçá que o cômico que desconcerta venha do âmago, de onde ignore mas sinta que física e metafísica não estão separadas, onde a regra engendre a exceção, porque o riso me recompõe emocionalmente desordenado, próximo do desordeiro que ri da balbúrdia, pelo riso desestabilizante.

Na corda bamba, adeus sombrinha.

Quero crer que a ansiedade instintiva que sinto seja medo de atuar como membro de uma turba convulsionada: de tocha na mão, subindo a colina pra incendiar o castelo vampiresco; com paus e pedras pra dar cabo do monstro que faz maluco o cientista; empunhando forcado, pra tirar do joio o trigo a quem mais padece da fome de pão.

Quando os palhaços estão na cidade, corro logo pro lado oposto.

Eu sei que serei humilhado por minha falta de humor. Mas não sou de rir de torta na cara, sequer na minha. Não pago pra ver que passem a perna pra tombo ridículo, mesmo o meu. Bobo de nascença, porque detesto sarcasmo e malcriações, desqualifico quem ri à toa.

Se fujo do picadeiro, é porque eu não hesito, sei que sou bem capaz de mimetizar aos palhaços sua pantomima recreativa, de leves toques arruaceiros, sutis pinceladas baderneiras, por nuançada anarquia.

Cá pra nós, pra que todo mundo nos ouça: palhaços são artistas, e tais artistas, ó ironia, dão colorido ao bom selvagem que a gente ama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de janeiro de 2023.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Uruca

 

Uruca

 

Rapaz, na ordem natural das coisas, sexta é minha folga. Então, eu estava vindo pra cá sem pressa nenhuma. Vinha vindo com alma leve, na certeza de que alguma coisa boa ia me acontecer no caminho.

Foi quando, logo do ladinho de casa, um cachorro muito brincalhão pegou de virar sombra minha, que achei engraçado o bicho ter comigo sem nem mesmo ser conhecido meu.

Tanto achei graça que fiz carinho nele que nem liguei que ele tinha pulga. Nem pus interesse em averiguar se se coçava por carrapato lhe chupando a carne.

Rapaz, sabe que eu senti um cheiro danado de mijo assim que pisei fora de casa. Pode ser que o danadinho tinha mijado; se não foi ele, foi algum pinguço. Olha que fedia, fedia muito.

Se ressalto, é que dou fé que o bicho era de rua, de virar latão, de mijar em poste, em lixeira. Vim de olho, no pé firme, atento com buraco, principalmente em merda mole no caminho.

Olhando o vira-lata tive na ideia que o pulguento empesteado tinha era fome. O bicho era um esqueleto sobrevivente de sua miséria. Tinha mais osso aparecendo que pele, até me deu dó ver tanta alegria.

Era alegre de dar pena, tão magro, algo feio de ver.

Sua figura era visão triste. Punha na gente o sentimento de ter dele a compaixão. Sozinho na rua, o bicho devia de estar sofrendo, levando essa sua vida vadia, bicho sem eira nem beira.

Muito triste isso, viver a esmo no mesmo de todo dia, em falta.

Rapaz, só imaginar o pobrezinho nas ruas, sem ter o que pra comer, na chuva, no calorão, sem ter onde ficar de fora do vento. Que ele tinha os ossos marcando sua figura, um bicho esquelético de feio. Tive pena dele na fome. Zanzando o tempo todo, bebendo água parada, correndo de enxurrada, lambendo lama, sem gordura como capa na chuva.

O vira-lata veio vindo brincalhão, foi quando logo na esquina, foi no cruzamento que ele deu mostras das coisas ordinárias da natureza, foi então que latiu, avançou, pulou pra morder a batata do pintor.

Ainda bem que ele estava mais no alto, longe dos dentes na canela. Que susto tomou o rapaz que pintava o letreiro da lanchonete nova.

Era outra naquele lugar, que ali tinha fechado outra lanchonete, que passou um bom tempo indo bem, com fila na porta e senha pra não ter nenhuma briga mais séria, pro garrote de segurança.

A lanchonete que fechou tinha movimento mesmo no inverno.

O meu pessoal do zap vivia vindo de sexta e sábado, vinha mais na sexta, dia de promoção: tomando o canecão, ganhava outro.

A turminha vive inventando aniversário, noivado, separação, chama pro diabo a quatro, quase tudo é azo de festa e mais festa.

Rapaz, ainda bem que o bicho não conseguiu alcançar a canela do pintor. Não vou mentir, eu ri. É que latidos e palavrões deram razão ao incontido, que nem eu me controlei da gargalhada.

No apuro de se safar, largou do pincel, foi num cisco que subiu, até pintou na praça uma bem-vinda porção: drumete a pur.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de janeiro de 2023.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

O olho do peixe

 

O olho do peixe

 

É tempo de renovação.

Antes que o engraçadinho zombe de mim nas minhas preces, peço às esperanças que retirem os enfeites, desmontem a árvore e causem-me entusiasmo por sumirem de vista.

Sim! É hora de guardar o que pegaria poeira se eu não conhecesse espanador. Mas me cansei de espanar guirlanda, Papai Noel, festão e bolinhas. Sim! Sim! Chega de rou rou rou.

Que hoje eu me faça o favor de não rezingar pelo fado de outro ano entronizado pela singela mudança do último dígito. Porque calendários e folhinhas fazem automaticamente a continha: 2022+1=2023.

Feito o ajuste, farei o desajuste.

Reis, meus reis, retirarei os enfeites e desmontarei a árvore, pois já elenquei o que vou fazer neste ano que acabou de começar e, pessoa sintomaticamente ajuizada que eu sou, a fim de evitar o olhar de peixe morto sobre mim, não ventilarei o que espero fazer.

Se o juízo é sintoma, sejam escarafunchadas as circunstâncias que me levam a agir moderadamente como sempre tenho feito: como quem afiança o que pensa, pondero porque creio em mim.

Creio que renovar as esperanças é manter o pé no chão, é dar força à consciência que especula sobre a realidade que a individualiza.

Já que minha máquina cerebral não para de avaliar, não interrompo o pensamento, pois azeito a cachola com reflexões autônomas.

Sem medo de emperrar quando balanço, ergo os olhos, levanto os braços e balbucio: Guirlanda, guardá-la na caixa é pra que o ano seja novo. Papai Noel, não ponha a barba de molho, já vem dezembro, que nem jujuba chupada por criança. Jano, Januário, Janaína, que os onze meses sequem o olho gordo que me figura azarado. Ó Ventura, peço que nos meus pés não brote olho de peixe.

Além de mim, quem mais ouvirá tais muxoxos?

Alimento o cansaço fazendo coisas que poderia evitar. Se evitasse fazê-las a cada vez que recordo o quanto me alegram, estaria livre do cansaço de ter exagerado. Quando coisas me dão verdadeira alegria, me divirto, me contento, me aborreço, cansa o blábláblá.

Quero-me só um pouquinho saciado das coisas que dão felicidade, pois nem empanturrado entenderia o que a guirlanda diz. Mesmo que não a compreenda, que a caixa fechada volte pro armário.

Não sei qual filósofo, ou algum vagabundo, tenha se surpreendido: sem compreensão, de que adianta o mistério?

Cadê quem venha criticar a circunstância da pessoa de bem com o mundo que não cobra na mesma moeda.

Espero que alegria gere alegria, pois acho justo que haja felicidade se ajo pensando na felicidade.

Pela felicidade de ter feito alguma coisa boa, não me orgulho. Certo, quem lacra caixas nem precisa acreditar que o Papai Noel exista. Ora, vender imagens não condena ninguém a comer panetone só depois de o Natal ter passado.

Olho no olho: ainda que o Menino na manjedoura tenha ficado todo tempo no armário, Ele Mesmo será símbolo espirituoso do Amor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de janeiro de 2023.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Moral da história

 

Moral da história

 

Não preciso de silêncio, preciso de lápis e papel.

Para dar uma animada geral na minha disposição de pessoa atenta aos detalhes, quero que fique registrada a ideia de que oportunidades aparecem, já para serem amadurecidas com cogitações pachorrentas, como o vira-lata a espiar de soslaio o canário cantando no galho mais alto da roseira, já pra não desanuviarem os anéis de fumo do cachimbo baforado pelo carequinha pigarrento balançando naquela cadeira que vai rangendo, como o fole da gaita simulando grave respiração.

Devagarinho, vim. Minudente, paragrafei o que vejo. Curioso é que, depois de escrito, enxergo o que via, sabia que estava vendo, mas não punha estabelecida a essência da cena vista.

Quem há de negar que a verdade prende a atenção da mente?

Eu é que não negarei, pois a esmiucei e apurei do narrado o ânimo pra prosseguir arando o chão desta minha crônica.

Crescendo pouco e pouco na folha, meu girassol semeado na terra seca precisa de irrigação, que ele conte com o suor que eu porejo. Que seja muito, que seja ácido, que não o mate no broto antes da plenitude de sorrir ao sol.

Queimo as pestanas, penso que sim. E escrevo, pois sim.

Ponho no papel, como não há canavial nas vizinhanças, que o fogo siga sendo a brasa no cachimbinho de barro na varanda. Ponho, sim, para que a história tome siso do sim. Agora, e por escrito.

Sem retomar das aulas de caligrafia o cursivo legível, está anotada a descrição do vira-lata tomando sol na frente da casa.

Pressa pra quê?

Gente boa que me lê, a cadeira não arremessará o velho tabagista, ainda que ele esteja praticando o que acredita ser o melhor que possa fazer, que é fumar, pigarrear e cuspir.

Quando equiparados, o meu fumante é menos danoso que a fila de caminhões que vão da roça mais próxima ao entreposto mais lucrativo.

Mas, alface, agrião e beterraba vencem a queda de braço de quem condena aplicações racionais de nitrogênio no solo e multa criminosos queimando carbono dia e noite.

O cheiro é horrível; as cuspidas, nojentas; o cão quer o canário.

Se soubesse das suas incontáveis vidas anteriores, o cão que vê o passarinho ou ficaria satisfeito ou teria engulhos por ter nas sinapses os conhecimentos predadores de felino astuto.

De ardis e risos debochados tenho minhas experiências.

Falo do garoto que colou moedinha na calçada. Quanta gargalhada deu o garotão esperto, pois não surgiu nenhum Sansão pra descolar a moedinha colada na calçada.

Vendo uma dessas no caminho, não me abaixei nem me abaixarei. Passei pela moedinha diversas vezes, e, maroto que sabe das coisas, sorrio. É sorriso previdente, que não me humilho.

Acho oportuno registrar o que vejo, e acabo de vê-la.

A moeda solitária tem companhia, colaram mais duas. Passo, olho ressabiado, somo de cabeça e chego à conclusão: se tais iscas derem um real, me deixarei fisgar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de janeiro de 2023.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Bem à vontade

 

Bem à vontade

 

Fim de ano; começo de ano; no meio disso, não é hora de balanço nem momento de ater-se a planos sequer é o instante de copo d’água.

Faço o obséquio de lamentar: que ressaca eu experimento.

Se fizesse as exéquias de sentimento que não sinto, perceberia que ando torto das ideias. Cambaio, sim, pois eu sou bastante honesto para não negar a vontade de desferir um chute no batente.

Conheço a dor de dar com a minha cara na porta. Houve vezes em que meu nariz sangrou pela batida. Por conhecer a dor que a realidade possa provocar, eu não me distraio tentando perceber o que ainda não fiz. Embora sofra somente pelo que tenha feito, com o murro pronto no punho teso, sei: revide é o contragolpe do triste.

Veja bem, ninguém mandou eu viver com tanto ardor.

Porque machuca e faz doer, o mundo me ensina: há passadas que sabem do limite quando o queixo sangra na calçada.

Sóbrio ou ébrio, todo mundo tem joelhos pra ralar.

Que o ano tenha começado sem outra perspectiva que não seja de passar o restante do primeiro dia do ano inteiramente dedicado a sentir em tronco, membros e cabeça, inapelavelmente na cabeça, que tenho de tomar água, muita água, pois a água há de ajudar a sentir vergonha de nem me arrepender da farra, do exagero de ter entrado de cabeça na alegria do fim de ano.

Ano Velho, que o diabo o carregue. Vá pro passado e fique lá. Pois de você eu quero distância. Dá uma tristeza grande me lembrar da sua duração. Sim, Ano Velho, foi dureza passar por você. Parecia jararaca se arrastando sobre a barriga, dentro do crânio, dando nojo; feito vírus no sangue, bactéria na urina, dando calafrio. E foi desgraceira atrás de outra, Ano Velho, que você mais parecia desafio, duelo, jogo duro.

Partida vencida; partida perdida ꟷ canseira, que nada!

Que isso seja possível de prosseguir assim, pois no meio da nossa caminhada, Dona Cremilda e eu, encontramo-nos?

Feliz Ano Novo pra cá. Feliz Ano Novo pra lá.

A novidade que ela conta é que tanto a menina quanto o menino da Marieta estão dando alegrias para esta mamãezinha coruja.

Começou que a menina virou chorar sem motivo. O impressionante do choro é que ela estava no colo. A mãe estava gravando o cachorro que estava todo brincalhão. Vai daí que a criança pegou naquele choro sentido. Tanto era esquisito, que ele abalava na gente a certeza de que aquilo fosse natural.

Poxa, bastava olhar.

O corpinho se contorcendo daquele jeito era mais que desespero doído. Aquela bolinha comprimida dava aflição. Tanto comovia que, se a gente bulisse, a gente trincava aquela coisinha.

Mariana chorando daquela maneira, não é que o Mariano começou a chorar do mesmo modo?

Marieta fez o vídeo e postou. A gravação está bombando. A menina chora, o menino chora; e só a mãe é que não chora porque ela narra o que filma com o telefone.

Emendo de prima:

ꟷ Olha, Dona Cremilda, o filme da vida nunca tem fim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de janeiro de 2023.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O norte da sorte

 

O norte da sorte

 

Por mais que eu tente, não consigo. Há dias que me esforço, busco a condição favorável. Desejo tanto ajudar a conseguir que prejudico. A ansiedade atrapalha, confunde, só aumenta a desventura.

Há dias que nem deveria ter tentado ser instrumento a canalizar as boas graças do universo; a minha cachola dá pane.

Tão nefasta é a pane que beira a pânico.

Céus, o que posso dizer a meu favor?

Deitei cedo no quentinho da cama na tarde de sábado, nada. Ainda no sábado, no almoço, enchi a moringa de vinho ruim, e fracassei. Bati um belo prato de lentilhas regado do mais puro azeite português, outro fiasco. Por quinze minutinhos neste sábado aziago, só gastando força, sentei nuzinho debaixo da água fria da ducha. Da sexta pro sábado, os fones no ouvido pra acordar de susto com o alarme do telefone às três da matina, em vão. Maldito sábado que não passa nunca!

Embora pareça uma coisa bem idiota pra confessar, confesso que sou pateticamente idiota. Porque vou insistir, e insisto, resisto a desistir de converter a urucubaca na danada da sorte que sorri a quem pensa em ganhar a Mega da Virada.

Custe-me o que custar, hei de ganhá-la, hei de banhar-me nas suas águas, ó Fonte da Fortuna.

Minha caneta é meu cajado, com a tinta azul de seu bojo vou marcar os números. Só preciso deles. Caraca, que não os tenho, ainda.

Quero que venham a mim os números benfazejos da Fortuna. Que me escolham entre os milhões e milhões de apostadores. Quero que o Ano Novo me consagre milionário.

Milionário de alma cordata, pois não peço pra ser o único ganhador. Outras pessoas também podem desejar o prêmio, pois não sou desses selvagens que cravam os dentes na bolada graúda.

Sereno de mandíbula, não mordo a torto nem a direito, mas, na hora do acerto, não sou trouxa: não aceito sorriso postiço, de fina dentadura, quero ser agraciado pelos dentes de leite da nova era; não quero leão banguela chupando a tíbia da minha canela; não quero impostores me cobrando o que, de agora pro futuro, luto pra tornar verdadeiro.

Que pesadelo! Por que me escapam as seis dezenas?

Refaço os passos? Repassarei.

Deitarei depois do almoço de sábado, dará certo. Ainda no sábado, no café, beberei duas médias, e acertarei no açúcar. Lamberei do prato o que sobrar da banana amassada, e não terei cãibras. Sendo sábado, terei ânsias de ir tomar banho. Nas matinas do sábado, a voz benfazeja cantará as dezenas. Que o tempo pare: na lotérica, chegarei ao guichê, conhecerei a alegria de fazer a minha fé e saberei ser feliz.

Embora pareça coisa de imbecil, minha caneta é meu bastão, com ela evito os tombos, dito o ritmo que me embala na vida, vou no mundo com a ginga que tenho aprendido.

Como batuta bordando no ar o que as mãos tecem, a caneta marca, baila, é volante à sorte da virada, que tenho de apostar na hora certa:

ꟷ Às 23:59:59, que o último a sair acenda as luzes.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2022.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A febre

 

A febre

 

Sem perorações que corroborem o sentimento, asseguro que estou portador de um otimismo revigorante.

Embora não entenda por qual motivo veio a mim depois de um Natal chinfrim, que surpresa agradável é sentir-me otimista.

Passei o final de semana dentro de casa porque estava pronto para recusar convites, tinha argumentos que julgava infalíveis, tratei de ficar longe da caixa de e-mail; fiz o melhor: apaguei-me na paisagem.

Há quem ache belo o sol vindo além dos montes; seu contrário é de lancinante beleza pois a noite fecunda desertos, diz o penumbrista.

Deserto, pra mim, é areia que beira o mar; e reconheço-me instado pelo asco a bater das costas essa porção tão pegajosa.

Sem pessimismo, amo o mar como quem adora ídolo distante.

No calçadão, sentava no passeio, cultuava a massa d’água, sumia, nem pensava, tanto gostava que nem me percebo suspenso, levitando em pensamento, sentado à mesa em que escrevo.

Escrevo, posso estragar tudo, transformar a sensação aprazível em marasmo, não noto que me abismam as circunstâncias, considero-me apto, entendo meu estado mental como imponderavelmente ótimo.

Se tanto apraz, como não me perder à lassidão do satisfeito?

Pois é, a pessoa que se acha no cume do desespero faz do mundo um palquinho de quermesse. Ignora-se farsante, alguém que acha bom puxar o ar rarefeito que o asfixia em pêsames sem luto.

Vá brincar de ser feliz. Ganhe alento, esqueça o pior que tenha feito. Faça-se outro, uma versão melhor de si. Vá à folhinha.

No mês de nascimento e morte de William Shakespeare, eu ganhei Aulas sobre Shakespeare. A orelha informa que o livro reúne a série de aulas ministradas por Auden entre outubro de 1946 e maio de 1947. São 29 aulas, inclusive a de conclusão, listadas no índice.

Mesmo que precise adiar a leitura de Por quem as panelas batem, Ano Bom, lerei este Auden antes que complete um ano na pilha.

Seu Rodrigues, reinvente-se, ponha fé na esperança de que possa amar o próximo como ama a si. Vá logo, leia o Antonio Prata.

Como bom político que muito ajuda quando não atrapalha, prometo, pessoa que me lê, vou ler o Filho do Mario antes de abril.

Se eu menciono a frustração por ainda não ter lido certos livros que auxiliariam a ter uma leitura menos tendenciosa do presente, lamento que esteja comprometido.

Cadê a justa percepção da realidade?

Não vou ficar parado, preciso andar. Porque dar uma caminhadinha boa, de uma hora, me faz bem. Preciso andar e andarei. Não vou correr porque não tenho pressa.

Quero mais é me sentir reconectado com a cidade, com as pessoas que me acenam, sabem o meu nome. Quero ser identificado com quem eu fui, com o menino que nadava no rio, com o coroinha que não sabia o latim da missa, com o rapaz que dormiu na praça depois do baile.

Quero que a memória baile, pois agora:

Tchau 2022, vou indo, só voltarei quando estiver melhor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de dezembro de 2022.

 

domingo, 25 de dezembro de 2022

Mensagem secreta

 

Mensagem secreta

 

Na falta de neve, garoa. Faz frio. Mas, não me lastimo de que garoe e vente frio. Uma boina protege a careca; o moletom aquece; mais que as janelas fechadas, são os goles de café que me animam.

A cafeína no meu sangue acorda a alma pra pensamentos que nem imaginaria necessários ao bem-estar.

Sinto-me bem. Sinto que me é necessário estar bem, pois posso ter a mente clara, calma, sensível ao instante.

Ainda que eu ache empolgante uma ideia emendar em outra, estou sereno, pois estou certo de que penso com a clareza dos cafeinados.

Porque se esforçam em fazê-lo, pessoas animadas espalham o alto astral de modo benigno.

Pra ser honesto, tenho sorte. Tê-la faz de mim uma pessoa melhor, porque reconheço que preciso demonstrar o quanto sou grato.

Quando a gente sabe reconhecer a gratidão que tem a oferecer às pessoas, o coração entende porque bate feliz, porque faz essa música que satisfaz sem provocar suor, pigarro ou piscadelas.

Quando se tem este sentimento de que a felicidade é contaminante, a alegria impele a querer o bem a muito mais gente, a quem nem pensa que possa captar essas ondas mentais que dão leveza.

Ora essa, sei que opinar é irrelevante; sentir-me bem enquanto faço o que posso é o que há de mais importante, pois modifico a sensação negativa só porque está garoando e ventando frio.

Pois, este céu cinzento não me deprime, me tranquiliza, faz-me ver: garoa é bom para plantas, suas raízes.

Por um momento, um instantâneo horripilante, acho que a natureza pode tornar inóspito o ambiente onde neva, chove, venta, cai a energia elétrica, não há aquecimento, o ar a cinquenta graus celsius negativos, ó miserável horror, mata quem esteja obrigado a respirá-lo.

Eu não fiz um pedido malfeito nem o fiz pela metade, o meu bendito pedido foi atendido de acordo com o que mentalizei.

Ainda que o tempo esteja ruim em meio mundo, não vou me culpar por essa garoa gelada, que me permite dormir melhor, comer melhor e até pensar melhor, pois não me sinto culpado se fui ouvido.

Aliás, garoa não é vírus pra deixar a gente gripada.

Dezembro dos sonhos? Hum...

Uma vez que ninguém me convidou pra nenhuma ceia de Natal com algum salmãozinho, que não me desce bem nem quando é servido cru, acordei em paz com o mundo.

Se houvesse aceitado ir, teria comido e repetido. Mesmo consciente do muito que seria afetado, culparia a intragável calda de ameixa sobre aquele peru tenramente assado.

Ora, não estraguei o estômago porque sequer pensei no assunto.

Estou tomando café, comendo panetone, olhando a gata que conta comigo pra deixá-la sair. Na maior tranquilidade, permito-a que saia.

Os pardais voam com o rangido da porta.

A gata solta miadinhos de ansiedade, pois ela espera que aqueles passarinhos retornem.

Se entre a gata e mim houvesse entendimento, ela formularia:

ꟷ Pra quê, diabos, eu existo no mundo?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de dezembro de 2022.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Amor ao próximo

 

Amor ao próximo

 

Um dia fizeram-me crer que o sábio separa o joio do trigo. E fizeram bem de me ensinar que o certo é mastigar de boca fechada. É fato, tive o prazer de ser informado que a pedagogia do amor é o menos tóxico anteparo às moscas que varejam certas matracas que vivem abertas.

Credo! Não hei de ser eu quem irá duvidar de que bafo de ovo podre atrai parasitas, de anjos caídos a porvinhas.

Em respeito a quem desconheça o significado: porva, ou pólvora, é mosquitinho que só dá folga a quem banhado em repelente.

Como tem gente que se incomoda quando, embora não haja picada de miruim nem ovo choco, coço a pança porque me dá urticária engolir macarrão instantâneo sem o pozinho, pô!

Aliás, como não se faz omelete sem ovos, sexta de pizza não existe sem pizza. Pelo que eu sei, as sextas de pizza não ganham mais sabor pela borda recheada de queijo cremoso, mas pela família reunida.

Uma família, a sua ou a de quem você queira bem, qualquer família merece respeito, ainda que cultive tradições diferentes da minha.

Em nome do que acredito, eu não mudarei meu julgamento.

Não é risível a ideia de que uma família que valoriza a noite de pizza possa alterar a sua verdade porque o Natal se avizinha.

Quem se reúne para comer pizzas não tem que fazer bico só porque tem quem proponha trocá-las por chester, peru ou peixe, pois a família continuará reunida. Reunida e unida, felizmente.

Permaneça unida, família querida. Permaneça, e verá que o almoço de Natal será domingo. Siga com o programado, que sábado seja o dia de ir às compras. E esta sexta é outra sexta de pizza, poxa.

Mantenha-se unida, lute por sua felicidade, pois a sexta tem que ser noite de pizza. A noite de sempre, porque a ideia de ter pizza vinga sua realidade. E não é bacana imaginar outra realidade, poxa.

Não se cometa a asneira de mudar o que está certo.

Sim, está mais do que provado: noite de pizza é instituição que não cabe questionar, uma vez que a família toda se reúne, come à vontade, repete o quanto quiser, comenta as notícias, palpita, dá palpite, inventa de compartilhar novidades ainda nem postas no papel, ri, avacalha, diz verdades que nem chegam a ser verdades, acredita, incentiva, espera que a próxima sexta continue a ser como esta, outra noite de pizza.

Que a família reunida siga comedora de pizza?

Cacilda!

Papai Noel, que os comedores de peru não antecipem o almoço pra véspera da véspera. Que não sejam estressadinhos os comedores de peru. Eles ceiem no dia certo, pois sexta não é sábado; sábado não é domingo; que vinte e cinco não vire vinte e três.

Papai Noel, que o entregador não atrase. Não travando no trânsito, o entregador não chegue bufando. Pegando a gorjeta, normalmente a família não desconfiará de nada. Por nada, tudo bem.

Bom Velhinho, não ponha minhocas na cachola de quem tem suas obrigações, ou a noite de pizza da família vai azedar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de dezembro de 2022.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Ideia genial

 

Ideia genial

 

Já é Natal!

Nesta época do ano amigos e familiares chegam sorrindo, sedentos de gestos afetuosos; de minha parte, a recíproca é verdadeira, anseio por beijos e abraços.

Algo me faz tomar a iniciativa e, ainda que muitos fiquem surpresos com essa persona menos cínica, hipócrita e zombeteira, tomo-a com o espírito feliz de criança pondo bolinhas na árvore.

Sem acrescentar à lista do Papai Noel outro item tão imprescindível que ia me esquecendo, tenho beijos e abraços pra todo mundo.

Distribuo-os como quem desce pela chaminé, pois acho que todos têm uma alma gentil, que precisa ser despertada do ramerrão do dia a dia para que a pessoa também distribua afetos com a generosidade de quem poderia ter dado, primeiro, aquele abraço tão sincero.

Por gentileza, não me censurem por minha sinceridade.

Que argentinos e franceses sintam-se abraçados por mim, que sou um camarada que chuta o ar, chama o VAR e bebe refri com a garganta arranhada de tanto xingar sua excelência, a mãe do juiz.

Valendo taça? 3 a 3 numa final, putisgrila!

Dezembro poderia continuar sendo o período em que a gente faz o balanço do que deixou de fazer, lamenta ter feito o que fez sem dar o melhor, compromete-se a agir com mais empenho, tudo pra que o Ano Novo traga energias transformadoras, que hão de deixar novo em folha quem sequer vai a pé ao bar da esquina. Até poderia, mas o final deste 2022 está sendo diferente.

Uma vez que me fizeram torcer pelos dois, porque disputaram quem sorriria por último, agradecido pela contribuição para que a final virasse o jogaço que, por hoje e sempre, recordo, felicito-os e desejo-lhes boas festas, caríssimos Mbappé e Messi.

É tri! É tri tri tri! É tri!

Luisinho, como não sou uma pessoa de fidelidades imutáveis como você, só vou me preocupar com as contas de janeiro quando o primeiro boleto chegar ꟷ que ele chegue, de preferência, em janeiro.

Se suas angústias são com a beleza, tudo bem, faça essa tatuagem na batata da canhota: o Messi levantando o Maradona levantando Pelé dando aquele soco no ar; vai por mim, meu camarada, essa tatoo ficará ótima em você, realmente uma pintura.

Que maravilha que existam esses fominhas no mundo, porque eles têm brilho no olhar. Quando ouvem “campeão”, pensam no prêmio, na medalha, nas fotos, nos memes, no dim-dim na conta, estão tão certos disso que dos seus olhos rolam lágrimas verdadeiramente tocantes.

De fato, acho comovente a ideia de que esporte, qualquer esporte, possa transformar a vida da gente.

Independentemente de ter de pintar o meu cabelo depois de vitórias históricas, valorizo a autoridade de merecer a glória dos louros.

Como vencedor que sabe quanto custam as batalhas vencidas, me comprometo a tingi-los. Nem que gaste muito, comprarei uma peruca de fios autênticos. Nem ligo se despertarei inveja com minha cabeleira descolorida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de dezembro de 2022.