Por
delicadeza
Temos o sol. Temos um gato, que também
toma sol. Não, oculto na jabuticabeira, o sabiá não toma sol, mas o gato toma. Simplifiquemos:
o sol aquece o gato, cujos olhos estão fixos no sabiá; o passarinho bica uma
jabuticaba, que é doce que nem mel.
Simplifico-me, simplifiquemo-nos.
Pelo que for, busco um hibisco no
lusco-fusco do quintal, mas o que vejo é um beija-flor no ipê roxo, florido
roxo no seu todo de ipê em flor, pois, pelo que vejo, no vigor da hora, no
trivial do instante, é que vigora banal a vida cotidiana, comigo pro que vier.
Por suposto, simplifico-me.
Como nuvens no céu noturno que já vem,
eis a cena posta que seja permitido testemunhar: o crepúsculo de outro dia,
cuja beleza brota da configuração das cores e linhas do gato malhado que vigia
o sabiá que bica jabuticaba.
A qualidade do testemunho depende do
espírito que observa; disso eu entendo, pois interpreto mal o instante quando
responsabilizo o que me escapole do controle.
O sol sumirá, as jabuticabas ficarão no
pé e o gato entrará na casa; e a lua, que nem estava sendo considerada, espia-me
com um silêncio misterioso, liricamente tão fascinante.
Capto o ânimo do mundo, ligeiro.
Culpo o crepúsculo por sua beleza que deslumbra.
Pelo que faz tal encantamento, cativa-me. Mais ainda, porque as nuvens sem
calor não atrapalham percebê-lo maravilhoso, cativo desta trivialidade.
Engano-me ao ajuizá-lo trivial, pois,
pelos meus olhos, o mundo diz a beleza. Súbito, julgo banal o instante em que vejo
o mundo com olhar enamorado de plateia.
Se fotografasse o que não espero, desabaria
em êxtase?
Tiro de meus ombros o peso do julgamento
estético, responsabilizo o universo, o momento, a cena armada no quintal de
casa pelo êxtase fulminante que me faz perder o chão, suspirar fundo, achar que
a vida é mesmo de fazer a gente perder o fôlego e pedir ao sol que o instante
de fascinação seja eternamente recordado, que retorne à mente a cada vez que me
veja boquiaberto com o espetáculo natural.
Avalio-me em condições de presenciar
novamente a cena que volte a se arquitetar nos fundos; que o acaso assim a
configure, que ela seja desconcertante.
Sentado no chão da lavanderia, vejo a
jabuticabeira carregada, mas o gato sumiu, o sabiá voou, a aurora dará sol.
Quiçá haja sol; a jabuticabeira atraia passarinhos;
haja sabiás entre os passarinhos atraídos pelas jabuticabas docinhas; eu sorria
abobado com a estupenda coincidência de estar sentado no chão da lavanderia; uma
vez que hoje, amanhã e ontem são novamente esse instante em que, compreendo que
a sinto, a delicadeza do mundo passa por mim; a cada vez, simplesmente.
A pretexto de filtrar-me suscetível ao
contexto, em atenção a mim, atuo sensibilizado, pois palco, cenário e atores
fazem-me perceber que a simplicidade do mundo é inalienável ao instante.
Tenho o que tenho.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de dezembro de 2022.