domingo, 18 de dezembro de 2022

Por delicadeza

 

Por delicadeza

 

Temos o sol. Temos um gato, que também toma sol. Não, oculto na jabuticabeira, o sabiá não toma sol, mas o gato toma. Simplifiquemos: o sol aquece o gato, cujos olhos estão fixos no sabiá; o passarinho bica uma jabuticaba, que é doce que nem mel.

Simplifico-me, simplifiquemo-nos.

Pelo que for, busco um hibisco no lusco-fusco do quintal, mas o que vejo é um beija-flor no ipê roxo, florido roxo no seu todo de ipê em flor, pois, pelo que vejo, no vigor da hora, no trivial do instante, é que vigora banal a vida cotidiana, comigo pro que vier.

Por suposto, simplifico-me.

Como nuvens no céu noturno que já vem, eis a cena posta que seja permitido testemunhar: o crepúsculo de outro dia, cuja beleza brota da configuração das cores e linhas do gato malhado que vigia o sabiá que bica jabuticaba.

A qualidade do testemunho depende do espírito que observa; disso eu entendo, pois interpreto mal o instante quando responsabilizo o que me escapole do controle.

O sol sumirá, as jabuticabas ficarão no pé e o gato entrará na casa; e a lua, que nem estava sendo considerada, espia-me com um silêncio misterioso, liricamente tão fascinante.

Capto o ânimo do mundo, ligeiro.

Culpo o crepúsculo por sua beleza que deslumbra. Pelo que faz tal encantamento, cativa-me. Mais ainda, porque as nuvens sem calor não atrapalham percebê-lo maravilhoso, cativo desta trivialidade.

Engano-me ao ajuizá-lo trivial, pois, pelos meus olhos, o mundo diz a beleza. Súbito, julgo banal o instante em que vejo o mundo com olhar enamorado de plateia.

Se fotografasse o que não espero, desabaria em êxtase?

Tiro de meus ombros o peso do julgamento estético, responsabilizo o universo, o momento, a cena armada no quintal de casa pelo êxtase fulminante que me faz perder o chão, suspirar fundo, achar que a vida é mesmo de fazer a gente perder o fôlego e pedir ao sol que o instante de fascinação seja eternamente recordado, que retorne à mente a cada vez que me veja boquiaberto com o espetáculo natural.

Avalio-me em condições de presenciar novamente a cena que volte a se arquitetar nos fundos; que o acaso assim a configure, que ela seja desconcertante.

Sentado no chão da lavanderia, vejo a jabuticabeira carregada, mas o gato sumiu, o sabiá voou, a aurora dará sol.

Quiçá haja sol; a jabuticabeira atraia passarinhos; haja sabiás entre os passarinhos atraídos pelas jabuticabas docinhas; eu sorria abobado com a estupenda coincidência de estar sentado no chão da lavanderia; uma vez que hoje, amanhã e ontem são novamente esse instante em que, compreendo que a sinto, a delicadeza do mundo passa por mim; a cada vez, simplesmente.

A pretexto de filtrar-me suscetível ao contexto, em atenção a mim, atuo sensibilizado, pois palco, cenário e atores fazem-me perceber que a simplicidade do mundo é inalienável ao instante.

Tenho o que tenho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de dezembro de 2022.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Na marca da cal

 

Na marca da cal

 

Com os braços no meio das pernas, encolhidinho, feito feto, ouço o mundo. A garoa não assusta, convida. Escutando-a, penso as batalhas perdidas. Enrolado em mim, figa na cama, creio em mim. Acredito que, a cada derrota, aprendo a mudar o tanto que preciso mudar. Pelo que perco, desato a pensar. Recolhido, sinto o feto que me pensa.

Ainda garoa, ainda ouço.

Quero que o mundo eduque a sentir a sua música, que a garoa lave meu rosto, que deixar de obedecer cegamente não me transborde.

Torno-me tranquilo. Faço-me sereno como garoa na cabeça. Sinto a garoa. Penso-me sem temê-la, garoo.

Quando o mundo for assombroso, vou mijar na cama.

O que estranho é este sol que-vem-não-vem no meio da chuvinha; é sol o que me aconchega no seu seio como se mais amores florissem quando nem aguardo que brotem. Ao imaginá-los risonhos, iluminados, perfumosos, arrepiam. Por senti-los rindo à luz bruxuleante, luminosos ao traçá-los vicejantes, perfumam.

O broto amoroso, que dá à luz perfumes, faz-se flor pelo que adensa, condensa e recompõe-se, faça-me luz.

De rosto lavado, molhado de garoa, os olhos não me enganam: no meio do campo, estou deitado num banco.

Então, o sol do vem-não-vem é a estrela da tarde.

Com o brilho na grandeza de sua magnitude, o sol da tarde acorda fantasmas que despertam demônios. Se fosse outro, se fosse a estrela da manhã, quem acordado demonizaria com fantasmagorias.

Mas estou acordado, eu sinto que estou; e posso ver o campo, notar as linhas; e continuo à espera do apito, da entrada dos times e da bola no centro do campo.

Seu juiz, trile o apito.

De costas no banco, conto com meu nariz a noventa graus do resto do corpo, ou a coluna me jogará no inferno das agulhadas na nuca, os formigamentos descerão pelo pescoço e subirão ao cocuruto, entrarei em curto-circuito e lamentarei a indisciplina de ignorar os meus desvios na postura.

Olho no lance!

Alguém chama. Consinto em aquecer. Embora esteja fora de forma, vou dar o meu melhor. Reconheço que estou preparado pra entrar caso seja chamado. Posso fazer bem o que esperam que não faça.

Embora não botem fé, sei surpreender.

Evoé!

Depois de uma noite de sonhos esquisitos, Meursault abriu a janela sem prever que uma rajada de garoa fria fosse lhe dar um choque, feito tapa na testa, a ordenar-lhe:

ꟷ Vá, Arthur, vá fazer algo que preste.

Ansiando sonhar; seria bom se vagasse por uma praia deserta, pois não temeria chineladas, vassouradas, borrifada inseticida.

Vamos, Gregor, abra os olhos.

No meio da jornada pelo vasto mundo, o Gregor que não sabe quem seja Arthur permanece jogado de costas. Pra lá e para cá, esse Gregor boia que nem rolha em uma tigela cheia de água.

Quando o cuco confirma doze vezes a hora, com o dez nas costas, de calção azul, meião azul e camiseta amarela, Arthur e Gregor partem pro ataque:

ꟷ Seu Rodrigues, cadê o almoço?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de dezembro de 2022.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Fala, Célio

 

Fala, Célio

 

O doutor Honório foi casado com dona Márcia, casal feliz enquanto não tiveram filhos, que nasceram para desestabilizar o harmonioso que havia na relação deles dois.

Mauro Maurício, o primogênito, formado em Direito mas que opera na Bolsa de Valores, gosta de pescaria nas férias e nada o demove de sair cedo pro oceano, embora sua esposa sempre diga que tem outros planos, frustrados pela última palavra do marido, ela segue planejando, desde o casamento há vinte e dois anos, de ir a Miami pra fazer selfies e mais selfies com a Minnie ― se Deus quiser e Ele há de querer ― ou estariam divorciados há muito, quando sofreu o trauma de ser atacada pela frota de caravelas no Ano Novo de 2000 em Boraceia.

O do meio, Paulo Patrício, entrou na maioridade trancado no quarto, jogando violentos videogames, viaja sempre para Paraty, e não apenas nas férias, por ter herdado uma casa, cuja família da paciente doadora não contestou em juízo o desejo posto em testamento, evidentemente pela risoterápica presença, estimulada pelo oncologista, dos Bobos de Branco, cujas palhaçadas a fizeram, nos dias finais, rir muito.

A filha, aquela meninota tão atenciosa e carinhosa com coelhinhos, chinchilas e hamsters, ela radicalizou na puberdade, passou a ler livros de autoajuda, a meditações holísticas, às ações de guerrilheira tão logo integrou-se a uma famigerada ONG; foi essa atuação ecologicamente correta da pirralha que a afastou dos pais, que não pronunciam o nome dela há quinze anos, desde que a pequerrucha serelepe quase morreu afogada em um protesto em Abrolhos; não é que eles tenham decidido conscientemente que nunca mais falariam, só não falam mais o nome, é como se Cecília Sueli tivesse sido abduzida por essa tal de Ciça.

Dona Márcia e o doutor Honório organizavam as bodas de prata, só que o destino interpôs-se, separando-os de modo súbito.

― Que vergonha! Uma mãe de família trocar o marido por um rapaz. Se não bastasse a idade, um surfista! ― Paulo e Mauro bandearam pro lado do pai assim que souberam da atitude que julgaram acintosa.

Chapada de champanhe, xeretando o zap, Ciça não aguentou ficar em silêncio, e foi de madrugada que ela telefonou:

― Dona Márcia! Embora a senhora tenha demorado tanto pra sacar que a felicidade quem conquista é a gente, eu estou muito, muito feliz. Eu quero mais é que a senhora seja muito, muito feliz, dona Márcia.

O tal surfista não é nem nunca foi de pegar onda nem pede dinheiro aos outros. Ele não é de falar a torto e a direito. Até quando ouve ideias debiloides ou pensamentos incoerentes, prefere escutar calado.

Célio, o novo companheiro, não é dado a chamá-la de ‘namorada’, ‘esposa’ ou ‘minha mulher’. Seu nome é Márcia, então, ele a chama ou a ela se refere pelo seu nome.

― Fiz picadinho do pôster do Médici que aquele pústula tinha posto na sala de vocês, Márcia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de dezembro de 2022.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Volta ao mundo

 

Volta ao mundo

 

Se eu adiantasse as dificuldades, teria ido mesmo assim. Afinal, era pra ser uma estadia curta, precisava que fosse. Sem alvoroços com a agenda apertada, era recomendável que permanecesse sereno ainda que outros rumos desandassem as coisas.

E as coisas simples viram dificultosas quando estou carente de uma boa tarde de paz, daquelas com bem-te-vis cantando, cães latindo nos quintais e amoras no ponto.

Eis o problema para o qual eu não encontro outro desfecho que não seja lógico: amoras no ponto incitam a pular o muro; correr de cachorro bravo excita; definitivamente, assustar bem-te-vis é insignificante.

Ora, ora, juntando lé com cré: se o descrito for fidedigno, a fuga dos passarinhos é coisa à toa, pois chegar a isso é que são elas.

Antes que enverede mais pelo tronco, cuido da referida ida.

De saída, já no carro que me levava ao litoral, foi ao colocá-los que constatei que os óculos certos ficaram na gaveta.

Não me desabona a afobação, pois um dia antes da viagem peguei o estojo e, sem a curiosidade de abri-lo para verificar se as lentes eram nos graus da última receita aviada, deixei-o ao lado da carteira.

Poxa, não pude me fantasiar a caráter. Ainda que eu goste tanto de zanzar pela praia de boné, chinelos de dedo e lentes espelhadas, sem nenhum traço borocoxô, espontâneo feito um caiçara da gema, encarei o calçadão.

Embora não me tomassem por turista, sentia-me um.

Mas ninguém teve dó de mim, mesmo comigo com a mais genuína cara de mané. Sei fazê-la, compondo-a como se aguardasse respostas às perguntas que, no fundo de mim, brotam das tristezas.

Anjinho de chinelo de dedo, óculos de intelectual e boné do Chicago Bulls, ansiava silenciar-me:

ꟷ Gente gentil que goza das gostosuras que não gosto nada, sofro gasturas como vampiro viciado em chá de alho.

Já que o sol tinha ressecado a alegria da minha língua na casquinha mesclada, partiu da carteira dar-me autorização a beirute, duas esfihas de carne, fritas grande e suco de abacaxi de 500 ml.

Não discuti com as merrecas, não debati com minhas caraminholas, recusei as jujubas da turminha à porta ao entrar na lanchonete.

Já muitas vezes estive sentado àquela mesa, no canto direito, tendo às costas e ao meu lado direito as paredes do L.

No salão, sempre lotado antes da pandemia, nós outros éramos: as mulheres numa das mesas centrais e eu.

Uma delas comentou que, depois que lhes deixou comer, o homem recendia um maravilhoso horror.

Era freguesa que pedia pra comer sem que viessem oferecer o que não desejava comprar, ainda mais manjando um maná dos deuses ꟷ batata frita com guaraná.

Como o mundo nem eu paramos, atravessei a avenida.

Sem meus amigos, cônscio de que nas terras interiores da alma há diques formatando-a à felicidade infindável, certo de que haverá de ser doce enquanto for preciso vir de longe, eu saboreei a torta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de dezembro de 2022.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Reversão

 

Reversão

 

ꟷ Por que a seleção perdeu?

ꟷ Fácil! Porque jogou com o time reserva.

ꟷ Errado. Perdeu porque entrou em campo de azul.

ꟷ A camisa azul foi a causa da derrota? Que bobagem.

ꟷ O respeito que a amarelinha impõe é pela tradição de ser penta e nenhum outro país tem cinco títulos de campeão.

ꟷ Como se o nosso escrete campeoníssimo não tivesse perdido em Sarriá ou pra Bélgica do De Bruyne e muitas outras vezes. Esta edição no Catar é a vigésima segunda Copa, certo?

ꟷ Meu caro, não foi a titular que perdeu, foi a azul.

Se você pensa que estou fazendo graça, engana-se. O diálogo que pus acima deu-se num ônibus.

Dois homens conversavam como se estivessem bebendo no bar da esquina, sem preocupações com quem os escutasse.

A graça está na descontração de velhos camaradas praticando este esporte muito apreciado que é jogar conversa fora.

Os atletas do papo-furado são gente de tirocínio aguçado, homens aplicados, complicados, simplificados, ativos, passivos, compassivos, monoglotas, poliglotas, glutões, anoréxicos, simpáticos, emblemáticos, éticos protéticos, moralistas a toque-de-caixa, nossa gente tão amiga, aquela turma sempre enfadonha, quem se conhece, quem se tolera, quem não suporta a TV, quem aceita cheque em branco, quem assina embaixo, quem escova os dentes antes de dormir, quem não reza nem na janta, republicanos, monarquistas, eleitores sem título, banguelas, tagarelas, ranhetas de punhos de aço, anacoretas de salão, profetas de proveta, estetas de perdidos perdigotos, práticos patéticos, políticos apoéticos, tantos bacanas, caras sacanas, tanto disso como daquilo e mais um pouco, todo este mundo é praticante de conversa fiada.

ꟷ Jogador profissional que cobra lateral com o pé na risca?

ꟷ Está na regra, tem que bater a reversão.

ꟷ Reversão, que nada! Isso é bisonho.

ꟷ Bisonho, bizarro, bizantino, bisugo. E daí?

ꟷ Daí que esses futebolistas deveriam ter compostura.

ꟷ Tá falando do quê? Das dancinhas?

ꟷ Claro que é! Onde eles estão com a cabeça pra comemorar o gol com aquela coreografia de menino mimado.

ꟷ Não seja chato. Não tem nada de errado eles dançarem.

ꟷ Você aprovando essas dancinhas de internet, tenha dó.

ꟷ São engraçadas.

ꟷ Não tem nada de engraçado esses milionários zombando de todo mundo com passinhos infantis, mal improvisados. Coisa de bocó.

ꟷ Bocó é gente que não se diverte nem quando mostra a alegria de ter feito algo bem brasileiro.

ꟷ Não me divirto quando faço o que tenho que fazer.

ꟷ Certamente. Você é desses que exigem ter reconhecido o mérito, que cobram uma fortuna porque são reconhecidos como profissionais de talento. A você que é o Chatonildo Padrão do Ano, parabéns!

ꟷ Chatonildo com louvor, porque eu não escondo o pombo na roda dançante. Você tem que aplaudir a amarelinha, escudo protetor, manto de um povo vencedor.

ꟷ Vença, povo brasileiro!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de dezembro de 2022.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

O melhor da festa

 

O melhor da festa

 

Não sei como você se sai quando a pessoa que abre a porta não é quem lhe fez o convite. Perde a voz ou se deixa afetar por recordações que sabia inapagáveis como as velinhas teimosas sobre o bolo; se não, faz o quê, assopra barbaridades? Eu sequer invoco o 7X1.

Costumo me apresentar como gente boa, pois não sou do tipo que invade lugar a que não fui convidado. Insisto, que sou um indivíduo que sabe qual o modo educado de agir perto de tanto penetra que faz piada quando poderia pigarrear ou coçar o sovaco; isso eu não faço nem que a saia justa me caia direitinho.

De jeito algum, pois eu não sou de descer as tamancas. Nem passa na minha cabeça que a porta seja batida na cara de alguém gentil, que nem exijo ter franqueado o ingresso ao rega-bofe.

Não aplico a pilantragem de sorrir amarelo ao pé do ouvido, porque sou esta pessoa que vim a pedido de quem me chamou pra vir.

Ora, a patuscada começaria antes do almoço. Poderia aparecer pro desjejum. Canapés e aperitivos seriam servidos no deque da piscina.

Como eu não sei nadar nem pretendo que me atirem à água quando estiverem bêbados, fui à festa com horário pra chegar e pra sair.

Não tinha de ficar empolgado com as prováveis jogadas bonitas, os raros lances espetaculares, a miraculosa goleada estupenda. Isso não ocorreria nem com a força hipócrita de ateu transfigurado pelo espírito do vinho sorrateiramente inofensivo no ponche.

Ponche sem álcool é água aromatizada.

Se tivesse pesado o sentimento de estar errado no lugar errado, eu teria avaliado mau o começo a mim que vim com o coração agasalhado no bandeirão de torcedor, porque sou realmente brasileiro de sangue quente, não fujo da cancha, nem quando metem 7X1 na gente.

ꟷ Vai ser 7X1!

Eu disse sete? Sim, eu disse.

Mas, não estava prevendo resultado. Aliás, é assédio moral atribuir licantropia ao sétimo filho, ainda que ele tenha nascido na lua cheia do sétimo mês. Acrescento que seja hipótese especulativa que a lua entre em plenilúnio no sétimo dia às sete da noite da sétima semana do ano.

Se cair, é mero movimento cósmico, não um esquete cômico.

ꟷ E o tal do Cai-Cai, hein?

Sóbrio de tantos 7X1, este canarinho não canta de cor e salteado.

Quando o raio cai muitas vezes no mesmo lugar, parece meme que roda sem dar pausa a quem pede o porre.

Ninguém me ouve, pois a pessoa que eu pensava estar interessada nas minhas sabedorias de palpiteiro está comendo outra salsicha.

Faço cara de que sei me pôr no lugar de quem corre tirar foto, pois o momento precisa ser registrado. Não conheço quem vem comigo pra longe dos celulares que pipocam fotos e mais fotos. Essa pessoa sabe reconhecer quem faz cara de que a festa fica melhor com ponche e um prato de fatias de picanha no alho.

ꟷ E tem que ser 7X1 pra realmente valer!

Festa com sabor de vingança embrulha o estômago, até engulo que os deuses do futebol lhe digam amém.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de dezembro de 2022.

domingo, 4 de dezembro de 2022

A lição

 

A lição

 

Se o sol bonito aguentar mais hora, vai dar quente o dia ꟷ matutava o homem agachado sobre os calcanhares.

Com um graveto fazendo a vez de cajado, ele estava equilibrado; e só alternava a perna esticada por causa do formigamento que daria em câimbras, que não queria viessem agastá-lo ainda mais.

Estava como achou que poderia ficar com menor agitação. Tinha já se ajeitado com a espera. Porque sabia esperar que os céus lograssem enviar algum bando, fosse de quero-queros ou andorinhas. Queria ver o voo, é que pela formação assuntaria breve ou longo o tempo.

Punha esperança que chovesse. Que chovesse logo, e por um dia. Mas caísse aquela chuvinha boa pra terra, pros bichos, pra descarrego do ar. Que andava abafado, prenhe de maus sentimentos. E tanto tinha de ruim que nem nuvens vinham, nem leves nem aterradoras.

Havia meio ano de aridez, de preces ignoradas.

Do nada, levantou-se uma nuvem de poeira. E um carro parou.

Do lado do passageiro, um homem de óculos escuros, boné e fones de ouvido desceu, e urinou no mato. Como algumas gotas respingaram na sandália franciscana, bateu-a, xingou alto. Voltou pro carro como se a estradinha fosse o melhor lugar do mundo para amaldiçoá-lo.

O homem de cócoras não dominava a telepatia, só ele soube:

ꟷ Se o calorão atrair mais varejeiras, a carniça está fresca.

Com um lenço, enxugou o rosto e o pescoço.

Ele arrancou capim. Mordiscou a raiz e cuspiu. Fez de novo e tornou a cuspir. Gostou do que fez; e outra vez arrancou o mato, mordiscou a raiz e cuspiu. Faria novamente se outro carro não tivesse surgido.

Do lado do passageiro, toda de rosa, uma mulher de quedes, short e viseira desceu, abriu a porta traseira, e, sentada numa pedra, deu de mamar a um bebê, que berrava até apoderar-se do seio.

Tal acocorado da beira do caminho nem ligava que fosse domingo; em pensamento, sabia que vive tranquilo quem criado tranquilo.

Quisesse entender o mundo pela realidade, estaria sem saída, pois um novo automóvel veio parar a poucos metros de onde ele estava.

De fato, aquilo não era nada razoável.

Nunca, e se tivesse cabeça para reparar nesse tipo de coisa saberia que passara dos setenta anos, enfim, nunca tinha visto tanta gente de fora nem mesmo num domingo.

Desta vez, o motorista desceu de um fusquinha. Não um fusquinha qualquer, era modelo 66. E tudo era original ou parecido com o original: os pneus, as calotas, os espelhinhos, a buzina.

Sim, sim, antes de sair daquela máquina maravilhosa, a mulher que a pilotava deu buzinadinhas de saudação.

Era encantadoramente educada. Disse bom-dia. Pediu a gentileza de uma informação, se a chácara Maritacas da Serra estava perto. Deu a mão ao despedir-se. Sorriu. Acenou. Novamente buzinou e acenou.

Que maravilha de pessoa ꟷ por instantes, o sujeito do caminho não pensou no ônibus que não vinha nunca nem nas costas travadas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de dezembro de 2022.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Gente do céu

 

Gente do céu

 

Ainda que a honestidade me submeta à dolorosa consciência, conto a verdade. Digo que sou decadente a quem me vê em cima da escada. Mesmo que não entenda como não tenha previsto que uma maçaroca de folhas secas, pedrinhas, terra e fezes de pombo iria acumular-se na calha, trato de retirá-la com minhas mãos nuas.

Além de relapso, imprudente. Dói-me confessá-lo, mas anuo.

Nem parece que a casa foi limpa ontem. É óbvio que eu sei que as aparências revelam que jogo contra o patrimônio. Se tiver que perder quinze minutos, cuido eu do que é meu. Não aceito que a sujeira toda seja jogada na minha cara, como se eu nem ligasse pra imundície. Pois é uma questão de honra eu mesmo limpar de novo o que a tempestade de verão tinha deixado limpinho há menos de vinte e quatro horas.

Pelo sim pelo não, orientado pelo rastro imundo, faço correr a água da mangueira pela luz da calha e o quintal fica limpo.

Não dou graças à alma humilde que aprende observando o mundo, pois, pessoa humilde que eu sou, não o faço para que me parabenizem por esta minha tão singela disposição.

Não preciso mentir pra que a mim me compreendam verdadeiro na minha confissão, que estou mesmo disposto ao bem.

Apesar da dolorosa certeza de que a verdade dói quando a professo a quem não esteja a fim de ouvir-me dizê-la, não espalho mentiras nem faço com que os meus opositores estejam certos sobre mim.

Sim, senhor, eu limpei a calha com água de mangueira porque água corrente tem esse poder de levar pelo ralo o que houver de levar, ainda que eu bem tivesse notado que cabia a mim manter a casa limpa.

Visto a malha de bailarino do cotidiano. Calço as sandálias de gente que batalha por uma vida mais autêntica. Divertem-me as maritacas lá no telhado. Eu a saúdo, ó realidade que o esgoto não apaga.

Se posso ir adiante justamente por que não sei aonde vou indo, eu vou? Estou indo, sim, pois me conduz o próximo passo.

Será que mais ninguém tem medo de assombração? Ninguém vai aparecer para dar um fim ao barulho das correntes? Será que terei de ficar apavorado ao extremo pra que venham me socorrer das aflições? Alguém teria uma vela para iluminar os caminhos à frente?

Pego o meu telefone. Posiciono-o acima da minha cabeça. Preciso me comunicar. O sinal melhora se aderno num pé.

Pelo amor de Deus!

A noite não para de passar. O sol já foi faz tempo. A lua não nasce. As estrelas não brilham.

Como? HELP!

Não desperdiçarei a chance de ser ouvido. Quero que ouçam. Peço que acudam. Cadê que não vêm! Ai caraca, já passa da hora. Venham, onde estão? Não temam, venham!

Não atendem por que não entendem ou por entenderem é que não atendem de modo algum, que será?

Se eu tivesse me interessado por aprender o código, saberia que a diabólica lanterninha muito ordinária pode ter passado a perna em mim e telegrafado ao carregadíssimo cosmos noturno de infinito plúmbeo:

V.O.G.O.N.S.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de dezembro de 2022.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

A nora do Noca

 

A nora do Noca

 

Esbodegado mas satisfeito, com os cotovelos apoiados no cabo da vassoura apoiada nos joelhos, as mãos enclavinhadas, o dedão do pé direito ensanguentado, de olho no quintal para limpar e no próximo gole de cerveja, Noca está consciente de que a casa não irá dispensá-lo de suas obrigações de bom amigo que ela lhe exige que seja.

Exigências, antecipam-nas o bom amigo Noca.

Mas o Brasil venceu; a carne não faltou; a vaquinha ajudou na hora de comprar mais cerveja; noves fora: tudo certo, resolvido, tudo a favor, os alicerces não estão abalados com o placar final.

Se nada há de negativo a constatar, relate-se o que for positivo.

Se não tem zebra zurrando, o que há é o derradeiro espetinho a ser comido sem ninguém pra palpitar sobre a brasa ou os palmos de altura da grelha.

Cadê quem foi atrás de alcatra, contrafilé e linguiça?

Noca não quer levantar nem pra virar espeto. O copo é virado. Tem que virar o espeto para os corações não torrarem. Pra que a garganta não seque, seja aberta outra latinha.

A prova de que o dia está favorável a vitórias, a geladeira ainda tem muitas latas. E vitórias dão saldo positivo a quem se envaidece com os três pontos a cada rodada.

Ao lado da geladeira, na expectativa de logo saírem da reserva, os fardos de cerveja aguardam que sejam chamados a campo, ou melhor, apurem-se pro consumo mais do que satisfatório, prazeroso.

Que beleza! Noca joga parado, e pelo quanto quiser.

Dizem que a pessoa vive a liberdade ao deixar para lá o que nem é essencial na sua vida de pessoa que dispensa saber-se feliz.

Noca não pensa que é livre porque se sente feliz por tudo que faz ou porque existe para dar satisfação a Deus ou ao Diabo.

Oxe! O cheiro chama à churrasqueira.

Ele come sozinho. Sem reclamar, ele come os coraçõezinhos. Abre uma latinha. Ô coisa boa! Come e bebe como bem entende. Maravilha! Come, bebe, passa a língua no fiapo de frango preso no vão da frente.

O fiapo não dói.

A linguiça, o contrafilé, a alcatra: esta carne toda deve ter sido posta na geladeira pelo filho.

E Noca tem apenas uma boca.

Como a seleção jogou bem, tudo bem. Tudo?

Sem nenhuma discussão, a família toda já foi embora. A ex-esposa não bateu boca nem com ele nem com ninguém. O pessoal torceu pra valer: pedindo gol; querendo drible; bebendo gim; gritando gol.

Gim? A pessoa ꟷ bebendo gim ꟷ roda e afunda.

Poderia destacar que a mulher do filho não veio, mas o Noca achou por bem não perguntar. Se não quis vir, tudo bem. Isso não é com ele. Com cada qual tratando de si, tudo bem.

Noca cuidou que não exagerasse na caipirinha antes de o juiz apitar o início da partida. Depois de começada a peleja, verteu copo atrás de outro, pois a danada foi feita no capricho.

O limão ter acabado no intervalo não foi problema, pois todo mundo foi bebendo até que, aos vinte da segunda etapa, ela acabasse.

Mas, acabou?

Alô torcida, ranço é roça.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de novembro de 2022.

domingo, 27 de novembro de 2022

Caverna do dragão

 

Caverna do dragão

 

Parece de propósito. Parece nada, faz mesmo é para irritar. E tanto irrita que o jeito é reagir de pronto. Sem espalhafato, nada de ficar com gritaria, bateção de pé ou soltar bombinhas. Para resolver o problema, é só assobiar. E o cachorro chato, que não para de latir, topa lamber a boca da gente, de mansinho.

ꟷ Não, Manú, não faz isso. Cachorro morde, Manú.

A menina parou de correr atrás do cachorro. Parou, pois viu saúvas. Achou fascinante a fileira daquelas formigas, cada uma transportando pedacinho de folha. E uma a uma iam entrando no buraquinho. Aquilo, puxa vida, era uma façanha dos bichinhos. Pra eles caberem num lugar pequenininho devia ser um lugar mágico. Se não fosse mágico, a gente não ia cair onde dragão voa, solta fogo e protege todo mundo.

ꟷ Mordida de saúva faz dodói, Manú.

A filha tem alergia à picada de pernilongo, à de formiga não sabe se ela tem. Por precaução, a menina fique sentadinha no banco. Pois é preciso evitar o pior, e a solução é a que sempre toma.

ꟷ A mamãe vai tomar sorvete. Você também quer, Manú?

A testa franzida e seus olhos apertados expressam o nojo que a menina experimenta. Ela cospe o que mastigava, que é a plantinha que as formigas estão levando pro buraco. Coisa estúpida é formiga comer algo tão ruim. Melhor é sorvete, é claro!

ꟷ O que é isso, menina!?! Pare já de jogar fora o que custa caro. E formigas comem folhas, não gostam de sorvete, Manú.

A mãe não sabe do que formiga gosta. Ela está inventando. Ora, se sorvete é gostoso, saúva também gosta. Formiga que não experimenta não tem como gostar de sorvete, puxa vida.

A mãe não insiste, porque está preocupada em gravar a mensagem que tem que ser enviada o quanto antes. Enfim, ela manda:

ꟷ Eu não quero chamar a atenção, não quero ser famosa, quero ser feliz, quero celebrar o que tem de bom no mundo, neste mundo em que muita gente, muita gente mesmo, confunde alegria com felicidade, deixando-se cativar pelo que aparenta ser alegre, feliz e verdadeiro, porque é possível, é bem possível mesmo, que a realidade verdadeira esteja na satisfação de olhar no espelho pra se ver na cara honesta de pessoa que não engana pra se safar, que sabe que a felicidade chega a quem valoriza a luta, que luta o tempo todo, luta pela vida, porque o problema é achar que está tudo bem porque não tem ninguém olhando, puxa vida, sempre tem gente olhando, a consciência nem percebe que negar o que o corpo percebe é fingir que não tá sendo controlada pelo que há de esquisito na nossa cabeça, a pessoa faz que sente que vive como se soubesse o que é melhor pra si, acha bom viver pra ser melhor aos olhos dos outros, só que é horrorosa a ideia de viver como acham que a gente tem que viver, puxa vida, viver assim não é bacana, é vida vergonhosa.

Com as mãozinhas nas maçãs da mãe, Manuela Cristina diz:

ꟷ Mamã, a senhora não é meu Uber pra levar de cavalinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de novembro de 2022.


quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Diversão garantida

 

Diversão garantida

 

Porque não brigo por ninharias, eu não discutirei com quem se acha bem mais patriota do que eu. Saberei ouvir bagatelas e ficarei de boca fechada. A mim mesmo me prometo: não comerei poeira nem engolirei sapo, continuarei contente. Até porque não acho que me demonstrarei nacionalista raiz se me enrolar numa toalha verde-amarela.

Hoje vou sair de casa, não apenas pra assistir à estreia do Brasil no Catar, irei à luta por cervejas na faixa, pois não sou de apostar à toa.

Quando o assunto é bola, o jogo pega é na rua.

Noutro dia, vendo o jogo da calçada diante da padaria, juntou gente que não parava de manifestar-se. Bola na arquibancada era motivo pro úúú de quem torcia pra que a pelota entrasse na gaveta. Mas o máximo foram os gritos ensandecidos a cada gol.

No 1X0, vibrei com o pênalti convertido pelo Messi. Fui o único.

A cada gol da virada dos sauditas, os torcedores pularam, gritaram; certos de que nem a Covid resista à alegria em país tão varonil.

Achei melhor não aglomerar naquela balbúrdia, saí à francesa.

Há quem diga que não sei perder. OK, talvez não saiba.

Em 74, no dia em que a seleção canarinho poria na roda o Carrossel Laranja, achei prudente não revelar o meu poder de mudar moedinhas em quindim.

Não sei por que mamãe não botou fé na minha confissão. De fato, era mesmo impressionante o ímã potente que o bueiro da sarjeta tinha nos seus misteriosos subterrâneos.

Perderíamos na Alemanha; levei bronca por mentiroso.

Mentiroso, ora essa, mentiroso.

Pra que não digam que não sei perdoar, lá estava eu na calçada da padaria, torcendo pelos germânicos prepotentes que nos humilharam no Mineirão na Copa de 2014.

O Japão vira, virou. Outra vez, enfiei a viola no saco.

Fui o único a sair de fininho, pois eu preferi dar no pé a ficar batendo boca com quem nem sabia qual a escalação da esquadra nipônica.

Por favor, senhorzinho bem educado...

É óbvio que fiquei vermelho de raiva. Orra! Fiquei rubro na hora.

Hoje vai ter jogo. Preciso ficar calmo. Levemente ansioso.

Ora, vermelho não energiza o espírito da gente?

Pimpão, garboso, cheio de bossa, vestirei a minha vermelhinha pra ganhar o mundo.

Sim! Não bateria um bolão se me chamasse Edmundo.

Sem abstrações: bonita camisa, seu Rodrigues.

Cá pra nós, a minha camisa vermelha dá-me porte elegante. Fecho os três botões. Coloco-a por dentro da calça. Ando de cabeça erguida.

Sem vergonha, exibo-me em minha camisa vermelha, pois, no lugar do brasão de clube, tem o jogador de polo. Bordada em azul, sem bola no pé, empunhando um taco, vê-se a figura a cavalo.

Tampinha gentil, a quem vier ralhar comigo pedirei que não chateie, pois sou apenas um menino.

Menino, não faço por mal o que não faço por bem, e faço o que faço somente por diversão.

Sem estresse, pô!

No país de Ronaldo e Ronaldinho, ostento a vermelhinha porque a canarinho está secando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de novembro de 2022.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Coisa louca

 

Coisa louca

 

E o que ela falou pra você ficar assim, tão nervoso?

Ela disse que a paranoia bateu; mais do que impressão, estava sob vigilância. Estava constrangida, pois o monitoramento dos seus passos a obrigava a pensar dia e noite. Sem paz, sentia que não se dominava, e isso era um baita, um tremendo incômodo.

O medo a afetou tanto que a sua preocupação com o estado mental passou a ser um problema. Ela não queria ser chamada de louca, uma pessoa que perde as referências de gente que vive o dia a dia sem que o futuro pareça ameaçador. Ficou temerosa de que o colapso ganharia vez no próximo segundo.

O sentimento era de que estava à mercê de alguma coisa sobre a qual não tinha controle, nem da sua eclosão nem do seu alcance.

Não parava de pensar. Queria relacionar as coisas.

A abertura da janela. A fechadura da porta. Os óculos esquecidos. As chaves perdidas. O livro no banheiro. A página que não marcou. Os latidos a qualquer momento. As folhas varridas pelo vento. Devia juntá-las pra atear fogo. Tinha que fechar a janela. Todas as janelas.

Cadê o fósforo? Queria fósforo e álcool. Não tinha álcool?

Engana-se quem pensa que fumaça expulsa pulgas da casa. Quem vasculha gavetas não acha as chaves, os óculos, as cartas de um amor já superado. Acha aquela barata seca, cujo cheiro é nauseabundo.

Bateu o pressentimento de que tinha mais gente dentro. Os ruídos revelavam a tal presença. Estranho, o barulho vinha daqui, dali, de todo lugar, nem sabia de onde, da gaveta com poucas fotos.

É paranoia não parar de pensar que a barata morta na gaveta tinha antenas, que essas antenas ainda se moviam, até provocavam nojo.

Como a fumaça irrita olhos, boca e nariz, o jeito é cobri-los com um lenço úmido ou sair, ir lavar o rosto no tanque.

Por que a água não podia ser usada pra apagar o fogo?

Sedenta de tranquilidade, essa pessoa rebelde abre uma cerveja e pede efeito imediato, que o próximo gole seja apenas mais um, não o último, que ela queira dormir, que seja vista a porta da cozinha, que o seu olhar a encaminhe pro quintal, que seja aberta para que o ar cheio de fumaça escape pro céu, a tosse passe, a irritação da boca passe, a carcaça cansada não fique paralisada, que o medo de ser devorada a faça correr dali, voltar pra cá, a porta da casa não tenha sido arrancada, que não haja batente sem folha, que a calma não camufle o medo.

Disse que estava intoxicada pela fumaça. Que jogou álcool na pilha. Disse que só saiu do quarto depois de queimadas todas as fotos. Disse que a janela ficou fechada, que o vento uivava o temporal vindouro.

Ela mantinha a casa trancada, de janelas fechadas, com um tanque para afogar pulgas e baratas. Era uma casa avariada, a fachada pedia lixa, massa corrida e demãos de tinta.

Silvava o vento: pintada de branco; nos trinques por fora, horrorenta por dentro; no capacho estava escrito: de volta ao lar, sacana?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de novembro de 2022.

domingo, 20 de novembro de 2022

Modo estúpido

 

Modo estúpido

 

O cachorro não segue o andarilho nem o cerceia.

Cachorro sem estranhar vagamundo nada tem de novo, o incomum seria se o homem engatinhasse ao seu lado.

E fica dispensável o ridículo, que é o cachorro ir saltitando nas patas traseiras enquanto o mundano grita interjeições. Pior ainda, haveria de revelar-se uma sanguinolenta surrealidade vir o tal cachorro esfolando o focinho no chão ao ir saltitante nas patas dianteiras.

Mas o mendigo tem outras preocupações; ocupa-se ele em esmolar a quem o queira debaixo do manto da urbana caridade. Aos dinheiros dados, haja reconhecê-los louváveis pelo que possam pagar: pãozinho ou broinha; jamais lavrados da pura.

O cachorro dirige-se ao poste; o esmolambado não sabe disso nem o bicho, que, próximo do poste, afasta-se do molambento.

Distancia-se porque na alma do cão corre esse oxigênio que o livra da fidelidade que lhe é impingida, focinheira metafísica que ele ignora; e por ignorá-la, o cachorro enxerga cristalino o objeto que, tão de perto, ele nem se esforça a configurá-lo pelo olfato.

Não se dê preferência a quem o afaga quando acha bom fazê-lo; já o poste, pela sua materialidade, é prioritário.

Se houvesse como expressá-la, o cachorro diria fútil a demarcação do território. Não que tema ser afrontado por outros cães, diria abstrato o limite e cachorros não instituem topografias pelo viés da política.

Como cães e homens não falam a mesma língua, o cachorro cheira-o, urina nele, torna a cheirá-lo; assim o poste mantém-se incontornável, inabalável no centro desta sua atenção.

A cães de todas as raças, vacinados ou não, postes são cativantes. Cativos, todos os cães preferem dar aquela mijadinha indispensável a mimosear fedorentos ocasionais com legítimas lambidinhas.

Está sozinho outra vez. Pra não aprofundar a sensação que tanto o desconforta, o homem abandonado vira-se. Tem esperança, o cão está dando uma volta no quarteirão. Mas o bendito que o preteriu não surge por nenhuma das esquinas.

Sem sabê-lo à frente ou às costas, posto que o bicho danado sumiu de vez, o amargurado está perdido.

Quem sabe o que faz é o ciclista desgraçadinho que passa tirando fina. Como se tivesse um sorvete pingando na cabeça? Não está bem que corra, grite pra continuar veloz, pois voar na calçada é demais.

Já que ninguém tem coragem de censurá-lo:

ꟷ Vá pro inferno, anta!

Se a anta ciclista sequer olha pra trás, quem gesticula e descarrega palavrões impublicáveis é o motorista do esportivo conversível com fita verde-amarela adornando o espelho retrovisor.

Que saudade dos dias em que levava lenha pra padaria.

Já que o mundo não roda ao contrário, sem pau e sem porrete, cata bitucas do chão, acha-as nas floreiras, posa que fuma, pois não precisa lamentar que ninguém dê atenção a esse estropiado velho.

A beleza do caos pode ser narcótica.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de novembro de 2022.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Miragem à vista

 

Miragem à vista

 

De repente, estou com sede.

Que situação esquisita, pois não tenho secos os lábios nem a minha garganta arranha, tenho só essa vontade de beber água.

Esse desejo me faz sentir desajustado, como se andasse deixando pra depois o que poderia ter feito no instante.

Embaraçoso, nem tinha notado tal displicência com as vontades.

Para me tranquilizar, penso que não exagero, pois estou sem beber água desde ontem. E não esqueço, tomei café depois de jantar.

Ora, para que o café fosse coado, tive que passar água quente pelo pó. Já que o corpo carecia de café, não água, batalhei pelos dois dedos antes de deitar-me.

Por outro lado, se for para problematizar o que não tenho nada que ficar complicando, confesso que fui sem sono pra cama.

Com a mente serpejante, antes eu não tivesse deitado.

Veio uma mosca zunir bem no meu ouvido. Pelo alumínio perdendo calor, a porta estralava de quando em quando.

A cachola não me deu sossego até que acendi a luz.

A mosca não era uma mosca, ela era um pernilongo. E ele me picou na orelha. Eu tive que coçar onde fui picado.

Tanto eu me coçava que o estrado estralava de quando em vez, ao que me mexia em prazerosa coçadinha de orelha.

Minhas orelhas, ambas, não apenas a que foi picada, elas arderam em fogo, que nem sei explicar como não parei de coçá-las.

Virei um impaciente. Deu calor, eu tirei a camiseta. Suava. Dei jeito, tirei o resto. Pra ter nojo do corpo suado foi um pulo, fui pra ducha.

Rápida que só, pois o que eu mais queria era ficar no escuro.

Não voltei a deitar. Sentei na cama. Saberia aguardar.

Nem demorou muito para um pernilongo vir me agoniar.

Pronto!

Este seu criado, por respeitar-lhe o direito a leitura mais viva, muda o tom, e muda não somente o emudecido que nada tem de calado: eu acendi a luz e matei o pernilongo ꟷ que não era um, eram dois.

Matei-os com chinelada. Ambos pousados na porta; sim, a própria, a estrepitosa que se resfriava madrugada afora.

Desejoso de uma boa noite de sono, não digo que matando os dois pernilongos também tenha saciado quem me queria estressado.

Asseguro apenas que minha impaciência perde o fio quando passo a ler notícias no celular.

A jato, dou um pulo, vou direto pro Egito.

Tanto o que houve tem importância, esfinge, quanto é importante o que houver?

Leio linha a linha que falta grana, que funcionam de modo precário as instituições que lidam com quem nega a crença na ciência.

Pelo que li: adiar o fim do mundo tem possibilidades.

Que o dinheiro surja, não somente para cobrir gastos, que ele brote para reflorestar o que for necessário pro clima não dizimar mais do que já anda matando.

Tanto leio, penso e canso de ler e pensar que adormeço deitado no tapete.

Ainda bem que cortinas impedem que vigiem o suposto pau d’água que de bêbado tem só uns clichês de carbonário magoado.

Se verificarem, acharão traços de café e d’alguma utopia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de novembro de 2022.