domingo, 20 de novembro de 2022

Modo estúpido

 

Modo estúpido

 

O cachorro não segue o andarilho nem o cerceia.

Cachorro sem estranhar vagamundo nada tem de novo, o incomum seria se o homem engatinhasse ao seu lado.

E fica dispensável o ridículo, que é o cachorro ir saltitando nas patas traseiras enquanto o mundano grita interjeições. Pior ainda, haveria de revelar-se uma sanguinolenta surrealidade vir o tal cachorro esfolando o focinho no chão ao ir saltitante nas patas dianteiras.

Mas o mendigo tem outras preocupações; ocupa-se ele em esmolar a quem o queira debaixo do manto da urbana caridade. Aos dinheiros dados, haja reconhecê-los louváveis pelo que possam pagar: pãozinho ou broinha; jamais lavrados da pura.

O cachorro dirige-se ao poste; o esmolambado não sabe disso nem o bicho, que, próximo do poste, afasta-se do molambento.

Distancia-se porque na alma do cão corre esse oxigênio que o livra da fidelidade que lhe é impingida, focinheira metafísica que ele ignora; e por ignorá-la, o cachorro enxerga cristalino o objeto que, tão de perto, ele nem se esforça a configurá-lo pelo olfato.

Não se dê preferência a quem o afaga quando acha bom fazê-lo; já o poste, pela sua materialidade, é prioritário.

Se houvesse como expressá-la, o cachorro diria fútil a demarcação do território. Não que tema ser afrontado por outros cães, diria abstrato o limite e cachorros não instituem topografias pelo viés da política.

Como cães e homens não falam a mesma língua, o cachorro cheira-o, urina nele, torna a cheirá-lo; assim o poste mantém-se incontornável, inabalável no centro desta sua atenção.

A cães de todas as raças, vacinados ou não, postes são cativantes. Cativos, todos os cães preferem dar aquela mijadinha indispensável a mimosear fedorentos ocasionais com legítimas lambidinhas.

Está sozinho outra vez. Pra não aprofundar a sensação que tanto o desconforta, o homem abandonado vira-se. Tem esperança, o cão está dando uma volta no quarteirão. Mas o bendito que o preteriu não surge por nenhuma das esquinas.

Sem sabê-lo à frente ou às costas, posto que o bicho danado sumiu de vez, o amargurado está perdido.

Quem sabe o que faz é o ciclista desgraçadinho que passa tirando fina. Como se tivesse um sorvete pingando na cabeça? Não está bem que corra, grite pra continuar veloz, pois voar na calçada é demais.

Já que ninguém tem coragem de censurá-lo:

ꟷ Vá pro inferno, anta!

Se a anta ciclista sequer olha pra trás, quem gesticula e descarrega palavrões impublicáveis é o motorista do esportivo conversível com fita verde-amarela adornando o espelho retrovisor.

Que saudade dos dias em que levava lenha pra padaria.

Já que o mundo não roda ao contrário, sem pau e sem porrete, cata bitucas do chão, acha-as nas floreiras, posa que fuma, pois não precisa lamentar que ninguém dê atenção a esse estropiado velho.

A beleza do caos pode ser narcótica.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de novembro de 2022.

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