quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Miragem à vista

 

Miragem à vista

 

De repente, estou com sede.

Que situação esquisita, pois não tenho secos os lábios nem a minha garganta arranha, tenho só essa vontade de beber água.

Esse desejo me faz sentir desajustado, como se andasse deixando pra depois o que poderia ter feito no instante.

Embaraçoso, nem tinha notado tal displicência com as vontades.

Para me tranquilizar, penso que não exagero, pois estou sem beber água desde ontem. E não esqueço, tomei café depois de jantar.

Ora, para que o café fosse coado, tive que passar água quente pelo pó. Já que o corpo carecia de café, não água, batalhei pelos dois dedos antes de deitar-me.

Por outro lado, se for para problematizar o que não tenho nada que ficar complicando, confesso que fui sem sono pra cama.

Com a mente serpejante, antes eu não tivesse deitado.

Veio uma mosca zunir bem no meu ouvido. Pelo alumínio perdendo calor, a porta estralava de quando em quando.

A cachola não me deu sossego até que acendi a luz.

A mosca não era uma mosca, ela era um pernilongo. E ele me picou na orelha. Eu tive que coçar onde fui picado.

Tanto eu me coçava que o estrado estralava de quando em vez, ao que me mexia em prazerosa coçadinha de orelha.

Minhas orelhas, ambas, não apenas a que foi picada, elas arderam em fogo, que nem sei explicar como não parei de coçá-las.

Virei um impaciente. Deu calor, eu tirei a camiseta. Suava. Dei jeito, tirei o resto. Pra ter nojo do corpo suado foi um pulo, fui pra ducha.

Rápida que só, pois o que eu mais queria era ficar no escuro.

Não voltei a deitar. Sentei na cama. Saberia aguardar.

Nem demorou muito para um pernilongo vir me agoniar.

Pronto!

Este seu criado, por respeitar-lhe o direito a leitura mais viva, muda o tom, e muda não somente o emudecido que nada tem de calado: eu acendi a luz e matei o pernilongo ꟷ que não era um, eram dois.

Matei-os com chinelada. Ambos pousados na porta; sim, a própria, a estrepitosa que se resfriava madrugada afora.

Desejoso de uma boa noite de sono, não digo que matando os dois pernilongos também tenha saciado quem me queria estressado.

Asseguro apenas que minha impaciência perde o fio quando passo a ler notícias no celular.

A jato, dou um pulo, vou direto pro Egito.

Tanto o que houve tem importância, esfinge, quanto é importante o que houver?

Leio linha a linha que falta grana, que funcionam de modo precário as instituições que lidam com quem nega a crença na ciência.

Pelo que li: adiar o fim do mundo tem possibilidades.

Que o dinheiro surja, não somente para cobrir gastos, que ele brote para reflorestar o que for necessário pro clima não dizimar mais do que já anda matando.

Tanto leio, penso e canso de ler e pensar que adormeço deitado no tapete.

Ainda bem que cortinas impedem que vigiem o suposto pau d’água que de bêbado tem só uns clichês de carbonário magoado.

Se verificarem, acharão traços de café e d’alguma utopia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de novembro de 2022.

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