Coisa
louca
E o que ela falou pra você ficar assim,
tão nervoso?
Ela disse que a paranoia bateu; mais do que
impressão, estava sob vigilância. Estava constrangida, pois o monitoramento dos
seus passos a obrigava a pensar dia e noite. Sem paz, sentia que não se dominava,
e isso era um baita, um tremendo incômodo.
O medo a afetou tanto que a sua
preocupação com o estado mental passou a ser um problema. Ela não queria ser
chamada de louca, uma pessoa que perde as referências de gente que vive o dia a
dia sem que o futuro pareça ameaçador. Ficou temerosa de que o colapso ganharia
vez no próximo segundo.
O sentimento era de que estava à mercê
de alguma coisa sobre a qual não tinha controle, nem da sua eclosão nem do seu
alcance.
Não parava de pensar. Queria relacionar
as coisas.
A abertura da janela. A fechadura da
porta. Os óculos esquecidos. As chaves perdidas. O livro no banheiro. A página
que não marcou. Os latidos a qualquer momento. As folhas varridas pelo vento.
Devia juntá-las pra atear fogo. Tinha que fechar a janela. Todas as janelas.
Cadê o fósforo? Queria fósforo e álcool.
Não tinha álcool?
Engana-se quem pensa que fumaça expulsa
pulgas da casa. Quem vasculha gavetas não acha as chaves, os óculos, as cartas
de um amor já superado. Acha aquela barata seca, cujo cheiro é nauseabundo.
Bateu o pressentimento de que tinha mais
gente dentro. Os ruídos revelavam a tal presença. Estranho, o barulho vinha
daqui, dali, de todo lugar, nem sabia de onde, da gaveta com poucas fotos.
É paranoia não parar de pensar que a
barata morta na gaveta tinha antenas, que essas antenas ainda se moviam, até provocavam
nojo.
Como a fumaça irrita olhos, boca e
nariz, o jeito é cobri-los com um lenço úmido ou sair, ir lavar o rosto no
tanque.
Por que a água não podia ser usada pra
apagar o fogo?
Sedenta de tranquilidade, essa pessoa
rebelde abre uma cerveja e pede efeito imediato, que o próximo gole seja apenas
mais um, não o último, que ela queira dormir, que seja vista a porta da
cozinha, que o seu olhar a encaminhe pro quintal, que seja aberta para que o ar
cheio de fumaça escape pro céu, a tosse passe, a irritação da boca passe, a carcaça
cansada não fique paralisada, que o medo de ser devorada a faça correr dali,
voltar pra cá, a porta da casa não tenha sido arrancada, que não haja batente
sem folha, que a calma não camufle o medo.
Disse que estava intoxicada pela fumaça.
Que jogou álcool na pilha. Disse que só saiu do quarto depois de queimadas todas
as fotos. Disse que a janela ficou fechada, que o vento uivava o temporal
vindouro.
Ela mantinha a casa trancada, de janelas
fechadas, com um tanque para afogar pulgas e baratas. Era uma casa avariada, a
fachada pedia lixa, massa corrida e demãos de tinta.
Silvava o vento: pintada de branco; nos
trinques por fora, horrorenta por dentro; no capacho estava escrito: de volta
ao lar, sacana?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de novembro de 2022.