terça-feira, 22 de novembro de 2022

Coisa louca

 

Coisa louca

 

E o que ela falou pra você ficar assim, tão nervoso?

Ela disse que a paranoia bateu; mais do que impressão, estava sob vigilância. Estava constrangida, pois o monitoramento dos seus passos a obrigava a pensar dia e noite. Sem paz, sentia que não se dominava, e isso era um baita, um tremendo incômodo.

O medo a afetou tanto que a sua preocupação com o estado mental passou a ser um problema. Ela não queria ser chamada de louca, uma pessoa que perde as referências de gente que vive o dia a dia sem que o futuro pareça ameaçador. Ficou temerosa de que o colapso ganharia vez no próximo segundo.

O sentimento era de que estava à mercê de alguma coisa sobre a qual não tinha controle, nem da sua eclosão nem do seu alcance.

Não parava de pensar. Queria relacionar as coisas.

A abertura da janela. A fechadura da porta. Os óculos esquecidos. As chaves perdidas. O livro no banheiro. A página que não marcou. Os latidos a qualquer momento. As folhas varridas pelo vento. Devia juntá-las pra atear fogo. Tinha que fechar a janela. Todas as janelas.

Cadê o fósforo? Queria fósforo e álcool. Não tinha álcool?

Engana-se quem pensa que fumaça expulsa pulgas da casa. Quem vasculha gavetas não acha as chaves, os óculos, as cartas de um amor já superado. Acha aquela barata seca, cujo cheiro é nauseabundo.

Bateu o pressentimento de que tinha mais gente dentro. Os ruídos revelavam a tal presença. Estranho, o barulho vinha daqui, dali, de todo lugar, nem sabia de onde, da gaveta com poucas fotos.

É paranoia não parar de pensar que a barata morta na gaveta tinha antenas, que essas antenas ainda se moviam, até provocavam nojo.

Como a fumaça irrita olhos, boca e nariz, o jeito é cobri-los com um lenço úmido ou sair, ir lavar o rosto no tanque.

Por que a água não podia ser usada pra apagar o fogo?

Sedenta de tranquilidade, essa pessoa rebelde abre uma cerveja e pede efeito imediato, que o próximo gole seja apenas mais um, não o último, que ela queira dormir, que seja vista a porta da cozinha, que o seu olhar a encaminhe pro quintal, que seja aberta para que o ar cheio de fumaça escape pro céu, a tosse passe, a irritação da boca passe, a carcaça cansada não fique paralisada, que o medo de ser devorada a faça correr dali, voltar pra cá, a porta da casa não tenha sido arrancada, que não haja batente sem folha, que a calma não camufle o medo.

Disse que estava intoxicada pela fumaça. Que jogou álcool na pilha. Disse que só saiu do quarto depois de queimadas todas as fotos. Disse que a janela ficou fechada, que o vento uivava o temporal vindouro.

Ela mantinha a casa trancada, de janelas fechadas, com um tanque para afogar pulgas e baratas. Era uma casa avariada, a fachada pedia lixa, massa corrida e demãos de tinta.

Silvava o vento: pintada de branco; nos trinques por fora, horrorenta por dentro; no capacho estava escrito: de volta ao lar, sacana?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de novembro de 2022.

domingo, 20 de novembro de 2022

Modo estúpido

 

Modo estúpido

 

O cachorro não segue o andarilho nem o cerceia.

Cachorro sem estranhar vagamundo nada tem de novo, o incomum seria se o homem engatinhasse ao seu lado.

E fica dispensável o ridículo, que é o cachorro ir saltitando nas patas traseiras enquanto o mundano grita interjeições. Pior ainda, haveria de revelar-se uma sanguinolenta surrealidade vir o tal cachorro esfolando o focinho no chão ao ir saltitante nas patas dianteiras.

Mas o mendigo tem outras preocupações; ocupa-se ele em esmolar a quem o queira debaixo do manto da urbana caridade. Aos dinheiros dados, haja reconhecê-los louváveis pelo que possam pagar: pãozinho ou broinha; jamais lavrados da pura.

O cachorro dirige-se ao poste; o esmolambado não sabe disso nem o bicho, que, próximo do poste, afasta-se do molambento.

Distancia-se porque na alma do cão corre esse oxigênio que o livra da fidelidade que lhe é impingida, focinheira metafísica que ele ignora; e por ignorá-la, o cachorro enxerga cristalino o objeto que, tão de perto, ele nem se esforça a configurá-lo pelo olfato.

Não se dê preferência a quem o afaga quando acha bom fazê-lo; já o poste, pela sua materialidade, é prioritário.

Se houvesse como expressá-la, o cachorro diria fútil a demarcação do território. Não que tema ser afrontado por outros cães, diria abstrato o limite e cachorros não instituem topografias pelo viés da política.

Como cães e homens não falam a mesma língua, o cachorro cheira-o, urina nele, torna a cheirá-lo; assim o poste mantém-se incontornável, inabalável no centro desta sua atenção.

A cães de todas as raças, vacinados ou não, postes são cativantes. Cativos, todos os cães preferem dar aquela mijadinha indispensável a mimosear fedorentos ocasionais com legítimas lambidinhas.

Está sozinho outra vez. Pra não aprofundar a sensação que tanto o desconforta, o homem abandonado vira-se. Tem esperança, o cão está dando uma volta no quarteirão. Mas o bendito que o preteriu não surge por nenhuma das esquinas.

Sem sabê-lo à frente ou às costas, posto que o bicho danado sumiu de vez, o amargurado está perdido.

Quem sabe o que faz é o ciclista desgraçadinho que passa tirando fina. Como se tivesse um sorvete pingando na cabeça? Não está bem que corra, grite pra continuar veloz, pois voar na calçada é demais.

Já que ninguém tem coragem de censurá-lo:

ꟷ Vá pro inferno, anta!

Se a anta ciclista sequer olha pra trás, quem gesticula e descarrega palavrões impublicáveis é o motorista do esportivo conversível com fita verde-amarela adornando o espelho retrovisor.

Que saudade dos dias em que levava lenha pra padaria.

Já que o mundo não roda ao contrário, sem pau e sem porrete, cata bitucas do chão, acha-as nas floreiras, posa que fuma, pois não precisa lamentar que ninguém dê atenção a esse estropiado velho.

A beleza do caos pode ser narcótica.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de novembro de 2022.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Miragem à vista

 

Miragem à vista

 

De repente, estou com sede.

Que situação esquisita, pois não tenho secos os lábios nem a minha garganta arranha, tenho só essa vontade de beber água.

Esse desejo me faz sentir desajustado, como se andasse deixando pra depois o que poderia ter feito no instante.

Embaraçoso, nem tinha notado tal displicência com as vontades.

Para me tranquilizar, penso que não exagero, pois estou sem beber água desde ontem. E não esqueço, tomei café depois de jantar.

Ora, para que o café fosse coado, tive que passar água quente pelo pó. Já que o corpo carecia de café, não água, batalhei pelos dois dedos antes de deitar-me.

Por outro lado, se for para problematizar o que não tenho nada que ficar complicando, confesso que fui sem sono pra cama.

Com a mente serpejante, antes eu não tivesse deitado.

Veio uma mosca zunir bem no meu ouvido. Pelo alumínio perdendo calor, a porta estralava de quando em quando.

A cachola não me deu sossego até que acendi a luz.

A mosca não era uma mosca, ela era um pernilongo. E ele me picou na orelha. Eu tive que coçar onde fui picado.

Tanto eu me coçava que o estrado estralava de quando em vez, ao que me mexia em prazerosa coçadinha de orelha.

Minhas orelhas, ambas, não apenas a que foi picada, elas arderam em fogo, que nem sei explicar como não parei de coçá-las.

Virei um impaciente. Deu calor, eu tirei a camiseta. Suava. Dei jeito, tirei o resto. Pra ter nojo do corpo suado foi um pulo, fui pra ducha.

Rápida que só, pois o que eu mais queria era ficar no escuro.

Não voltei a deitar. Sentei na cama. Saberia aguardar.

Nem demorou muito para um pernilongo vir me agoniar.

Pronto!

Este seu criado, por respeitar-lhe o direito a leitura mais viva, muda o tom, e muda não somente o emudecido que nada tem de calado: eu acendi a luz e matei o pernilongo ꟷ que não era um, eram dois.

Matei-os com chinelada. Ambos pousados na porta; sim, a própria, a estrepitosa que se resfriava madrugada afora.

Desejoso de uma boa noite de sono, não digo que matando os dois pernilongos também tenha saciado quem me queria estressado.

Asseguro apenas que minha impaciência perde o fio quando passo a ler notícias no celular.

A jato, dou um pulo, vou direto pro Egito.

Tanto o que houve tem importância, esfinge, quanto é importante o que houver?

Leio linha a linha que falta grana, que funcionam de modo precário as instituições que lidam com quem nega a crença na ciência.

Pelo que li: adiar o fim do mundo tem possibilidades.

Que o dinheiro surja, não somente para cobrir gastos, que ele brote para reflorestar o que for necessário pro clima não dizimar mais do que já anda matando.

Tanto leio, penso e canso de ler e pensar que adormeço deitado no tapete.

Ainda bem que cortinas impedem que vigiem o suposto pau d’água que de bêbado tem só uns clichês de carbonário magoado.

Se verificarem, acharão traços de café e d’alguma utopia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de novembro de 2022.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

O espelho mágico

 

O espelho mágico

 

Com a família à mesa, jantando, a menina não foi sentar-se. Pegou um palito de batatinha frita e, mastigando-o de boca aberta, disse que precisava dar um jeito. Batendo a mãozinha engordurada na parede, a pequena notável reforçou, que daria jeito nisso.

ꟷ Nisso o quê, filhota?

Quando era para anunciar o que julgava importantíssimo, a menina tirava fotos de si mesma. Fotos dela fazendo biquinho, não mastigando de boca aberta, ou chupando refrigerante por canudinho, pois isso era coisa de gente velha, gente do quinto ano.

Nesta ocasião, com a parede ao fundo, ela disse que havia de fazer o que a professora tinha pedido.

ꟷ Fotografar parede é seu dever de casa?

Era dever de casa, sim, pois a professora disse que as famílias que tinham quadros na parede eram mais felizes que aquela gente que não se importava com a própria história.

Pegando outro palito, mastigava-o enquanto falava que as pessoas não punham quadros de pintura, punham um quadro pra contar a vida que viviam.

Mais uma batatinha; para que a história da família fosse contada de modo divertido seria bom usar desenhos, fotos, até frases que a gente ache bom de ter no quadro.

Batendo o indicador no tampo da mesa, não era mais a menina, era a própria professora que falava que não era para poluir o quadro com bobagem de gente boba.

A mãe sabia falar sorrindo:

ꟷ Hoje acordei bem tarde? O Rex comeu um passarinho? A gente não coloca o que quiser no quadro?

A professora disse que a gente pode pôr fotos, desenhos, lembretes pra não esquecer o que é importante. Só o que seja importante mesmo, não é pra pôr qualquer coisa à toa, qualquer bobagem.

A professora disse que importante é quando tem dentista, é quando tem que levar o Rex tomar banho, é quando vai ter festa de aniversário do papai e da mamãe. Principalmente, o quadro serve pra pôr as frases famosas de quem todo mundo conhece.

ꟷ Que ideia excelente, filhota. Vamos, sim, providenciar um quadro desses pra gente colocar seus desenhos e as nossas fotos.

A menina correu buscar um retangulozinho de sulfite no qual estava impresso “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.

A mãe da menina ajudou-a com os ímãs, abriu a porta da geladeira e mostrou o pudim de leite pra depois da janta.

A filha sentou-se à mesa sem largar o celular, porque as frases não vinham do nada. Ela queria achar as frases de gente importante que a professora disse que era muito conhecida. Ela disse que não tem como a pessoa ser conhecida sem ter dito coisas importantes.

ꟷ Ponha o telefone na mesa, filhota. Primeiro você come, depois a gente procura o que pôr na porta da geladeira.

A menina não queria usar a geladeira, pois o quadro na parede iria ter mais espaço, que era pra caber tudo que queria pôr.

ꟷ Filhota, em vez de comprar feito, vamos fazer o painel do nosso jeito, com a nossa cara. É pra ficar bem legal, né?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de novembro de 2022.

domingo, 13 de novembro de 2022

Nada pessoal

 

Nada pessoal

 

Nos dias em que penso que tudo vai de mal a pior, boto os fones e música puxa música até que me canso do azar.

Cansado, prefiro olhar o teto do quarto a espiar pela janela o pedaço do céu, porque nuvens nunca deixam de ser desafiadoras. Desafiado, o decifrador de vultos não abre os olhos. Desamparado, deixo os sons darem o fundo ao quadro, à paisagem o borrado dos pensamentos.

É óbvio!

Se as formas nebulosas se apresentassem menos efêmeras, muito ajudaria o aprofundamento no pitaco moral. Pois sim, minha mente tem limitações que modulam esse sujeitinho pouco afável, crítico arrogante. Como pressinto a precariedade do que sinto, autorizo quem pense que o mundo são névoas.

Pois especulo que a vida volátil é a realidade que a mim me encorpa no colchão acolhedor. Reflito ainda que desejo entender-me com a dor nos membros inferiores. Não titubeio quando as cãibras pegam no duro comigo deitado, eu ajo como posso: rejeito a dor.

Ao mudar de posição, proclamo-me outro.

Sim, tenho pra mim que a consciência é âncora a caraminholas que me impedem de naufragar em autopiedade. Sei que sou mais forte que a tentação de mergulhar no fastio.

Certo, julgo que sei dar resistência ao grão de areia nas entranhas da ostra. Não me defino letargo, ocioso e dado a fantasmagorias. Creio em mim como elo frágil, pois minha mente formiga enquanto avulta na areia o nome da amada.

Como a amada brota da praia, não se ergue estátua. Seu nome me diz que anseio ouvi-lo para que novamente haja vida.

Ainda que demore um pouco para compreender-me desperto nesse recanto de areia inalterada, não fico nervoso à toa.

Há quem pense que viro bicho quando me irritam, não viro. Irritado, aumentaria o volume. Não aguentaria muito. Ou abaixaria o som ou eu desligaria o aplicativo. Manteria o celular ligado. E manteria a ideia que me poupa dos irritantes: quero ouvir música.

Deixo os fones nos ouvidos. Quero ignorar quem se diverte comigo a ouvir música como se fosse uma solução.

Não fujo, sei que não há fuga. Se assobio e cantarolo, é pra manter a mente antenada. Ligada no entorno, mas serena.

Quando aporrinham a querer me convencer do contrário que penso, me fortaleço na paciência. Percebo que não vão me dar folga, enguiço. Travado na quietude forçada, não me envergonho de ser chamado de covarde. A covardia me protege do monstro que trago em mim.

Se arriscarei um conselho?

Caso não queira vir este cidadão pacato virado no siri, não me faça mudar de ideia sobre o que não tenho nenhuma intenção de acatar.

Se me vir convertido no oposto do pacato cidadão, fuja. Depois não reclame do destempero, pois não é boa coisa acordar a besta que sabe assobiar. Ficando, será problema seu tornar-se ouvinte desse péssimo assobiador desencantado.

Me assovio:

ꟷ Pessoa cordial, não tenho nada contra quem discorde, mas graça de general não é Gal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de novembro de 2022.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Manhã calma

 

Manhã calma

 

A casa andava quieta.

Com a TV desligada, a sala estava tranquila. Sem ninguém lavando o cabelo, o banheiro estava sossegado. Como os gatos do vizinho não vieram miar à janela, a cozinha também estava agradável.

Eu não tinha do que reclamar, desfrutava daquela paz. E desfrutar é gostoso quando nada há de anormal. Ficar deitado, não me importo se no sofá ou no chão de terra, é bom demais.

Desfruto que nem ligo que os segundos virem minutos.

Gosto tanto que nem dou pelota pra imprudência de ficar a manhã lagarteando sob esse sol de quase verão.

Sim, sei que pinto a preguiça como um idiota só sabe zoar dos fatos.

Transfigurado idiota, assobio aos bem-te-vis. Eles voam embora, e vão pelo mundão ensolarado.

Como não sofro da alucinação de achar que o sol na moringa possa curar-me da miopia, acredito, ao menos, que o corpo esteja produzindo mais vitamina D enquanto fico largado no quintal.

Seria uma loucura, realmente, se achasse que muito sol não há de torrar a cachola nem acelerar o envelhecimento da cútis.

Digo mais: se não tenho como me proteger, posso voltar pra dentro quando eu achar melhor.

Batem os sinos, anunciam que já se faz hora, que é meio-dia.

Tenho que ir, sair do sol, ingerir mais líquido. Preciso crer que vou ingerir água como quem bebe laranjada.

Eu sei que água tem que ser tomada ao longo do dia, uns dois litros. Eu a bebo, não porque seja gostosa de beber, é que os médicos dizem que a gente tem que beber dois litros ao longo do dia.

Não quero ficar doente.

Bobeira é achar-me lasso pelo excesso de prazer?

Engraçado, quando não bebo a quantidade certa de água, percebo que a máquina ferve. A cachola não bate bem. Os nervos esquentam rápido. Fatal é negar-me água? Não me nego, não.

E esse sol na pele faz o trabalhador querer mais uns minutinhos de ócio. E o vagabundo vem à tona, sobe à epiderme e finge-se de pedra, que não rola mas não criará limo de jeito nenhum, pelo tanto de sol.

Até cochilo. Acho que cochilo. E acho um barato que eu até cochile no mormaço de quase meio-dia, pois os poros transpiram de boa.

O idiota em mim que nem liga pra TV desligada, sei dele enquanto a mente não quer fechar a conta. Já o bobo não exige direitos, pratica-os sem subir nas tamancas nem rodar a baiana. Enquanto assobia, sobe, roda, salta, toma um tombo por desatenção às pedras do caminho.

Vai de bem consigo quem pensa sem exageros quando canta e dança e ri da situação: a TV continua desligada.

Sim, dou bobeira. Não é só força de expressão.

Bobo, rio porque digo que a vida é agora. Rindo de mim, rio gostoso. E rio sem achar relevante escancarar o que sinto enquanto rio.

Bobo, ficar deitado no quintal não trará a maçã pra sua boca. Bobo, vá pegá-la. Sem lavá-la, a carne da maçã é coisa boa. Bobo, coisa boa não se joga fora. Bobo não come talo nem semente, não é tapado.

Não sendo idiota, só bobo, tomo cuidado com as formigas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de novembro de 2022.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Vingancinha

 

Vingancinha

 

Estão me chamando, olho para trás, mas não há ninguém.

Ninguém, só estão passando aquelas pessoas sempre apressadas. Aquela gente que segue em frente, gente que nunca diz nunca, porque a vida é o momento, a quem nada há de acabado, definitivo.

Estão me chamando, sim. Viro-me outra vez, só que não vejo quem me chame pelo nome. Paro, olho pros lados, olho até mesmo pra cima, não encontro quem tenha me chamado. Fazendo graça de me chamar e esconder-se, isso me atiça à curiosidade.

Vão as pessoas que vivem o dia, levam a vida de compromisso em compromisso. Ao que parece, vão leves, vão desembaraçadas do que ontem deixaram de fazer por algum motivo.

Elas vão adiante porque o mundo é lugar que muda o tempo todo. Vão sem parar, por adaptar-se às mudanças, aceitá-las. Que a gente o torne um lugar melhor.

É gente preocupada, mas que não torce o pé na caminhada. Quem se preocupa com a hora não perde tempo. Quando para, é pra retomar o fôlego, não para desperdiçá-lo chutando cachorro morto.

A hora é de buscar a felicidade, de não arredar das obrigações, de fazer o que seja possível, não apegar-se ao medo de fracassar quando mal tenha começado o dia. Quem se apega à desonra de desistir antes de começar a jornada é quem adoece, fica mal, perde o sono.

Falando nisso, tenho uma história curiosa que me aconteceu ainda outro dia, quando estava para atravessar a rua, porque tinha visto uma pessoa toda atrapalhada com os seus cachorrinhos.

Eu esperava o sinal fechar quando ao meu lado parou quem achava que me conhecia. Alguém que me deu um tapinha no braço, disse-me que estava feliz de encontrar-me porque a saudade é sentimento que faz a gente ficar feliz quando encontra quem se quer bem.

O sinal abriu pros pedestres mas empaquei, envergonhado.

O meu embaraço não a impediu de sorrir, porque ela me conhecia muito bem. Era pessoa que sabia que eu sempre fui de ficar ruborizado por não lembrar o nome das pessoas.

Sempre me desconcerto ao hesitar. É óbvio o quanto me perturba se vou dizer um nome errado.

ꟷ Você nunca foi bom pra reconhecer os outros.

Sim, eu nunca fui bom para certas coisas.

Nunca fui bom para jogar futebol, nem mesmo descalço.

Nunca fui bom para comentar jogos de futebol, nem depois de uma cervejinha no bar da esquina.

Nunca fui bom para defender o meu lado.

Nunca fui bom para bolar frases bombásticas.

Nunca fui bom pra escrever bonito.

Nunca fui bom com pincel atômico.

Nunca fui bom com cartazes.

Nunca fui bom pra segurar cartolinas em protestos contra a carestia, o desemprego e a falta de perspectivas.

Nunca fui bom para entender de política, menos ainda da chamada realidade política.

Falando disso, de atravessar a rua pra ajudar quem mais precisava, eu resolvi ser simpático ao apelar pros bons sentimentos que a maioria acha conveniente cultivar:

ꟷ Vamos tomar uma gelada qualquer dia, certo?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de novembro de 2022.

domingo, 6 de novembro de 2022

Lambanças

 

Lambanças

 

Sentado na praça, num banco que me põe de costas pro relógio da torre da igreja, se posso ignorar a hora certa, não tenho como controlar as lambanças que tanto me acossam à garganta que pigarreio.

Os pigarros, que fazer quando sequer os pigarros tornam límpida a voz que aderna o íntimo recatado ao baderneiro anterior?

Teve aquela vez em que, só de cueca, tive que entrar na maior das três fontes. Fazia frio; o esquisito era estar garoando frio naquela noite em fevereiro. Sim, a água da fonte estava fria, bem fria.

Como entrara na faculdade, era evidente que celebraríamos o meu feito com uns desafios imbecis, humilhantes.

Macacos me mordam!

Eu desmaiei segundos depois de aberta a contagem regressiva dos cinco minutos que deveria manter a cabeça mergulhada na água.

Comigo desacordado, deram-me tantos tapas na cara que acordei furioso, querendo briga com o desaforento que me estapeava.

Para não dizerem que enfeito o pavão, acho melhor nem mencionar que me urinei todo. Ora vejam, se eu senti o fio morno descendo pelas pernas, inventaria que assim foi tão somente para me degradar?

Sim, tais detalhes escatológicos dão horror, pois a mim me parece desprezível quem deles se vangloria.

Emocionado, soltou-se o que andava ancorado nos esquecimentos: bêbado de vodca com pinga com cerveja com gim com martini, quando a incontinência apoderou-se da compostura, bati-me pela coragem de pular noutra fonte, para nela gritar, espalmar a sua água.

Agitado, tiritando de frio, sim, eu urinei.

Águas passadas, bem sei que elas voltam já amestradas.

Para que desafoguem-me patético, vulgar, esse cretino que nem se encabula de repassar o que sustenta ter vivido, à vera?

Devera que sim, à vera.

Cretino mas sensato, uma vez que não busco ofender quem devoto de Nossa Senhora das Dores por me sentar pro largo da praça.

Na esquina de baixo, onde hoje há um posto de gasolina, ali outrora teve uma casa.

Essa casa foi habitada por família, todavia desconheço quem tanto nela tenha morado. Anos depois, sem que lembre quando foi que tenha ocorrido, ela virou sede da Coletoria Estadual. Em seguida, o primeiro dentista pago pra cuidar dos meus dentes montou consultório ali.

Dei à praça outro vexame?

Quando a gente é dentuça, os dentões da frente chamam atenção, o recomendável é cuidar bem desse cartão de visita.

Putisgrila.

Eu cuidava mal. Vai um dia, tive um canal inflamado.

O socorro tinha que ser imediato, só que o dentista aplicou a agulha na raiz inflamada. Com a macaca! A minha boca adolescente, que dos palavrões tinha um vasto repertório, tanto esbravejou que desmaiei. E foi mijo e merda pela cadeira inteira. Ô dó desse dentista, até nunca fui consultá-lo de novo.

Caraca!

Sentado sob esse solzinho gostoso, sem nenhuma das fontes ainda na praça, será pelas futuras lambanças que entro a me tiritar todo?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de novembro de 2022.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

O mal-amado

 

O mal-amado

 

Que se dane a torneira que não para de pingar.

Que se dane quem não dá um jeito nessa torneira que não para de pingar desde que as pálpebras começaram a pesar.

Que se dane essa torneira que pinga e pinga, que pingo a pingo vai irritando mais e mais, como se cada batida agulhasse num único ponto em cada tímpano desde que vim deitar.

Que se dane a ideia de sair da cama não para ir marretar a torneira, para fechá-la.

Que se dane a dor no peito depois do susto.

Que se dane a dor surgida no lado esquerdo do peito depois que a campainha deu um baita susto.

Que se dane o aperto sufocante que deu no lado esquerdo do meu peito depois que um desgramado do caramba tocou a campainha bem no comecinho da madrugada.

Que se dane quem toca a campainha já passada a meia-noite, pois estar descalço no chão frio da cozinha é ocupar-se com o que tem que ser resolvido de uma vez, pois pingos são o inferno.

Que se dane a campainha depois de desligada.

Que se dane esse inferno de torneira mais campainha, que isso me obriga a desfazê-lo de uma vez, fecho o registro que fica na cozinha e desligo a campainha, antes que me enfureça, pois irei arrepender-me quando raiar a manhã.

Que se dane a alvorada que há de chegar.

Que se dane a aurora que virá, porque ficar pensando na manhã de logo mais me enfurece, e é pra já, enraivecido, que ligo a TV.

Que se danem as notícias repetidas que a TV de madrugada passa, passa, passa, não se cansa de passar, como se apenas eu merecesse assistir àquela repetição, a essa repetição diabólica.

Que se danem os canais que repetem as notícias como se os donos do mundo contassem com a audiência hipnotizada.

Que se dane a mesmice hipnótica dos canais que narcotizam quem busca o transe, quem deseja o abismo, quem se aproxima da beira do abismo, como se nunca mais acabasse a madrugada.

Que se dane a alucinação de estar narcotizado por sons e imagens que se repetem ad infinitum, ad nauseam.

Que se dane a alucinação estupefaciente que impede a loucura, só que provoca tédio, e tédio cansa, e cansaço esgota, o esgotamento dá um nó na mente, e a mente que não toma pé das circunstâncias sente mais e mais o fastio, como se bocejo seguido de bocejo exorcizasse a madrugada que não passa.

Que se dane a TV depois de desligada.

Que se dane esse barulho chato que começa só depois de apagada a lâmpada do quarto.

Que se dane esse ruído de barata roendo alguma coisa assim que me deito com a luz apagada no quarto de janelas fechadas.

Que danado, que me recordo dos chinelos.

Que se danem os chinelos ao pé da cama.

Que se dane a sola do chinelo suja de barata desviscerada por uma chinelada dada sem que a aurora fique impedida de raiar o sol de outra manhã, como se a primavera negasse o inverno nos meus artelhos de escrevinhador, ainda que certos abelhudos gostem de espiar o mundo por binóculos de lentes nada emboloradas.

Que se dane a higiene mental.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de novembro de 2022.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Irritante

 

Irritante

 

Chove. Está chovendo faz horas. Como chove forte desde ontem à noite, não parece que vá parar tão cedo.

Olho a rua. Vejo que estão passando sombrinhas e guarda-chuvas. A eles não pretendo me juntar, deixando que as rajadas de vento tirem de mim as roupas secas e a paciência.

Escolho ficar onde estou, porque aqui sou amigo do café, da TV, do gato que dorme na poltrona.

Olho o gato que nem liga pra mim a olhá-lo dormindo. Só não sorrio porque me ocorre a vaidade de recusar o papel de bobo. O gato dorme sem saber que admiro a sua tranquilidade de bicho que dorme quando quer, não porque receie que eu o ache bobo por dormir comigo a quatro passos da poltrona.

Se desse o primeiro passo para mexer com ele, concluiria que seria menos constrangedor se tivesse permanecido à janela, sem contar pro dorminhoco quantas sombrinhas desfilaram no último minuto.

Talvez, como eu, você conheça gente assim, que costuma projetar nos demais a sua energia de pessoa de bem com a vida.

É ridículo acordar o gato, ou outra pessoa, pra comunicar-lhe que a alegria que deixa a gente comovida tem mais é que ser compartilhada, pois não é o entusiasmo que faz agir como bobo, é a estupidez.

O segundo passo, outro passo adiado para que o gato não venha a ser acordado para fitar a cara de um ser humano muito penseroso, é o instante de refletir sobre o quão positivo é o desejo de dizer ao mundo que, nessa alma positivamente alegre, só existe lugar pra sentimentos contagiantes, esfuziantes, empolgantes.

Não me entristeço com a serenidade do gato que dorme.

Assim como eu, quando estou triste, talvez você evite descarregar a negatividade em quem nem percebe que os opostos se atraem.

Olho o gato, ele não está alegre, ele dorme. Daqui, a quatro passos, não me mexo porque não o quero importunar como quem se alegra ao vê-lo dormindo. Sem nada pra dizer ao bichano, deixo-o dormir.

Por que perturbá-lo com irracionalismos?

Não sou racionalista, sou racional.

Sei que a racionalidade colabora com o meu entendimento de que o gato tem o direito de dormir na poltrona sem que eu o acorde pra que seja informado que xis automóveis com placa final par passaram diante da minha casa em um minuto.

Não sendo irracionalista, não idealizo o racionalismo como benção, pois entendo a irracionalidade de supor que o gato me compreenderia em minha alegria mui comovente.

Se a ele me apresentasse como pessoa abençoada pelo tanto que o amo, seria ridículo.

Como falso ato surrealista, o quarto passo preterido seria, no vidro embaçado, tornar visível uma chave, riscá-la com duas retas paralelas verticais cruzadas por duas retas paralelas horizontais.

Lá pelas tantas, o gato acorda, espreguiça-se e passa a lamber-se.

O contorcionista que se limpa todo ignora o meu simpático tatibitate de pessoinha pouco irritante.

Sim, está chovendo há mais de doze horas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de novembro de 2022.

 

 

 

 

 

 


domingo, 30 de outubro de 2022

Bisnaguinha, bisnaguinha

 

Bisnaguinha, bisnaguinha

 

Firme na campanha por tripas menos assanhadas, tenho para hoje que me satisfaço nesse desejo de comer bisnaguinha.

Sem exagero, não resisto. Corro comprá-la porque não espero para comer bisnaguinha, trago-a, como-a. Até sem café, gosto de comê-la.

Ou isso ou acabaria em suposições, nas expectativas frustradas de quem gosta de dizer que sofre o que não sofre, mesmo que nem tenha medo de matar a vontade.

Eu não mato nada, nem mesmo as minhas vontades.

À vontade com o que penso: sacio o desejo, não o mato, pois desejo não some porque o satisfaço ao dar-lhe em objeto o que o funde.

Vou fundo no prazer de saciar a vontade de comer bisnaguinhas. E o pacote está à disposição, o tempo não me atropela. Posso ir fundo e não recuo de gostar de comê-las. E uma a uma, como-as.

Não mato a vontade porque não me desejo violento.

Espero que me tenha feito entender pelo que disse, que as marcas de violência estão à vista, pelo quê? Por me recusar a dizê-las.

‘Matar a vontade’ é fala que não uso.

Como pessoa que não sustenta a violência e dela não se alimenta, creio que permaneço sob controle, pacificando-me até onde sei que eu posso alcançar com as esperanças de gente ponderada.

Digo que me vejo como essa pessoa sincera que reconhece o valor de quem inventou a bisnaguinha. E não apenas, uma vez que também houve quem a pôs à venda, quem a aprimorou e quem se empanturrou dos lucros.

Não me sujeito a vender aos outros a ideia de que vou deixar para comer mais tarde a bisnaguinha que posso comer agora.

Não sou mesquinho quando não como por gula. Que o pacote ainda tenha bisnaguinhas pro lanchinho noturno, isso me agrada.

Gosto de me deitar depois de golinhos de café. Contentam-me dois dedinhos daquele que a garrafa térmica nem manteve quente.

Eu não me admoesto por deitar-me satisfeito com uma bisnaguinha comida sem pressa. Porque posso comê-la sossegado, gosto de ir pra cama sem achar que estarei faminto de madrugada.

Agrado-me ao pensar que a saciedade é um sentimento bom, pois me alegra, faz meu espírito sopesar os ânimos conflitantes.

Se como além da conta, contrario quem eu quero aparentar ser. Me complico ao dar aos demais a imagem de gente que come bisnaguinha como quem gosta tanto que, pela gula dos olhos, pouco sabe dominar-se.

A bisnaguinha não me domina. Sei que não, pois eu a mastigo sem fazer cara de que estou gostando de mastigá-la. Até porque nem passa por mim o pensamento de contar depois de quantas mastigadas engulo a bisnaguinha abocanhada.

Ao fim e ao cabo, comprei bisnaguinhas, mordi-as, mastiguei-as, e mastiguei-as tanto que nem precisei sentir a mente surpreender-me ao fabricar bisnaguinhas que nem sabia que estivessem faltando.

Considerando o que nem pensei que me faltasse, falto-me. Todavia não quero que as bisnaguinhas estraguem, porque acho bom não jogá-las fora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de outubro de 2022.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

A força da palavra

 

A força da palavra

 

Naquela classe, no terceiro ano do primário, em 1973, tudo decorria sem maiores surpresas. A professora seguia de carteira em carteira; e, à pergunta feita, cada um dos alunos respondia de pronto.

Um queria dirigir táxi como o pai fazia.

Tal qual um tio, outro iria vender roupas de porta em porta.

Aquela daria aulas que nem a sua querida professora.

Mas a turma era heterogênea. Havia alunos que se destacavam por serem mestres em chamar a atenção pela criatividade.

Como o seu irmão queria ser astronauta, fulano disse que precisava comprar um deserto pra poder construir uma plataforma de lançamento de foguetes para que aquela viagem à Lua fosse realizada.

Fulana falou que aquilo era impossível, porque não tinha deserto no Brasil nem ninguém tinha ido à Lua do jeito que a tevê tinha mostrado, pois nave espacial rodando em volta da Terra tinha que cair por causa da gravidade que faz a maçã cair na cabeça da gente, se bem que ela não conhecia quem tivesse levado maçanzada na cabeça, porque era bem difícil de ver porque os americanos sempre foram bambambãs em fazer truques para a mentira virar realidade.

Já que fulana se preocupava com a realidade passada na televisão, a professora disse que a aluna podia virar jornalista pra contar como a História era contada sem os macetes do cinema.

Se beltrano concordava com fulana porque era inteligente, beltrana falou que achava ridícula essa gente que ficava embaixo de árvore sem fazer nada de bom, por isso seria médica, pra tratar de quem era biruta de ficar esperando a maçã cair de madura na ideia do lelé da cuca.

Nem sicrana nem sicrano tiveram vez, pois a professora achou que tinha chegado o momento do seu aluno mais tagarela, mais sabichão, mais espontâneo, ela achou que ele tinha de responder logo:

ꟷ Então, menino, o que você vai ser quando crescer?

O garoto coçou a cabeça. Não sabia o que tinha de dizer. Se falasse que queria ser advogado como o avô, isso agradaria à mãe mas o pai não iria gostar porque filho tem que seguir a profissão do pai, que seria virar dono de padaria.

Notando que a professora estava para perguntar-lhe se ninguém o impressionava, se nenhum professor o inspirava, o menino disse que queria ser presidente.

ꟷ Hein? Repita, pois eu acho que ninguém ouviu direito.

Com uma voz que mal dava para ser ouvida na carteira ao lado, ele repetiu o que havia dito:

ꟷ Presidente. Quero ser presidente, professora.

De bom coração, embora pasma, a professora quis saber o que ele, feito presidente, faria pelo “nosso glorioso” país.

O menino viu as lâmpadas acesas, viu os passarinhos pousados no muro e, ainda que estivesse sendo encarado pela professora, falou que andaria de carro dirigido pelo fulano, usaria as camisas vendidas pelo beltrano, faria escola para ensinarem como fabricar foguete pra ir à Lua sem cair no quintal da casa da fulana.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de outubro de 2022.


terça-feira, 25 de outubro de 2022

Burburinho

 

Burburinho

 

Saio de casa assim que tenho vontade de unhar a parede do quarto. Não ficarei andando de lá para cá, como se fosse capaz de manter as mãos às costas. Com a casa carecendo de ser pintada, sofrerei o diabo sem o rangido das unhas contra as paredes.

Já que não desejo ver sangue, vou dar uma volta.

Pensando sem medo de transmitir a mensagem errada, esse atrito não serve para afiá-las nem nada tem que ver com as unhas poderem crescer como os cílios das coristas que só dançam samba de uma nota só, que não é nota de repúdio depois de crime cometido.

Piscar o olho dissimula, e mais pronuncia a fraude.

Sem ouvir unhas contra a parede, é normal querer escutar a grama deslocando um milímetro para cima a brisa da alvorada.

Não negarei que zanzar ajuda a descansar das grandes angústias e dos sofrimentos menores. Sim, caminhar ao bel-prazer da cachola é uma forma de tranquilizar-me.

Vago na maior tranquilidade, pois a luz da manhã não me cega, não me desnorteia, não me dispõe à direção do abismo. Aliás, posso beirar o precipício e, com medo, ouvir-lhe o burburinho.

Parece aquele zunzunzum tão familiar.

Penso no pernilongo que fica preso no quarto. Chego a conjecturar que pernilongos fogem do frio correndo pra dentro. Antecipo as ânsias desses insetos, tranco a porta bem antes do crepúsculo, por volta das quatro, pra que pernilongos, siriris e içás não entrem. Mas o zunido não faz com que a porta seja aberta antes do próximo crepúsculo.

Além de mim, o ruído incomoda os monstros que vivem embaixo da cama. Se ignorasse o bicho picando a minha orelha, poderia nanar que nem nenê depois de mamar.

E nanar assim me deixa muito a fim de escrever uma crônica leve, pois estou potente de palavras amenas. Quero palavras que afetem as pessoas e a mim sem causar alvoroço. Como quem tira uma coleira da mente, não me vejo um cão a espumar contra o mundo.

Tomado de raiva, melhor grunhir sem testemunhas.

Antes de digitar a crônica, rascunho-a. Para rascunhá-la, deixo que a mente não amarre meus pensamentos como cão preso a corrente.

Há situações em que é preferível ouvir poetas em vez de pacóvios. Porque poetas põem a girar estrelas, planetas e luas, suas noites não apagam o sol da manhã.

Se mapas, bússolas e contos apontam pro norte, no firmamento do horizonte, o céu dá poesia.

Sim, estou resolvido a entregar-me ao ócio, a recriar-me ocioso.

Saio. Gosto de zanzar. Salvo engano, zanzo quieto.

Encanto-me com as pessoas, mas há quem desconfie de mim. Sou olhado de soslaio, pois associam as olheiras à caça a pernilongos.

E sentado debaixo de uma árvore, ouço passarinhos cantando.

Quando cantam, procuro-os entre os galhos. Gosto de sentar-me à sombra de uma árvore, assim me dedico a achá-los. Mas a frustração de continuarem cantando sem que eu os veja é uma realidade que me chateia, e tanto me acabrunha que nem quero pensá-la.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de outubro de 2022.