Modo
estúpido
O cachorro não segue o andarilho nem o cerceia.
Cachorro sem estranhar vagamundo nada
tem de novo, o incomum seria se o homem engatinhasse ao seu lado.
E fica dispensável o ridículo, que é o
cachorro ir saltitando nas patas traseiras enquanto o mundano grita
interjeições. Pior ainda, haveria de revelar-se uma sanguinolenta surrealidade
vir o tal cachorro esfolando o focinho no chão ao ir saltitante nas patas dianteiras.
Mas o mendigo tem outras preocupações;
ocupa-se ele em esmolar a quem o queira debaixo do manto da urbana caridade. Aos
dinheiros dados, haja reconhecê-los louváveis pelo que possam pagar: pãozinho
ou broinha; jamais lavrados da pura.
O cachorro dirige-se ao poste; o esmolambado
não sabe disso nem o bicho, que, próximo do poste, afasta-se do molambento.
Distancia-se porque na alma do cão corre
esse oxigênio que o livra da fidelidade que lhe é impingida, focinheira
metafísica que ele ignora; e por ignorá-la, o cachorro enxerga cristalino o
objeto que, tão de perto, ele nem se esforça a configurá-lo pelo olfato.
Não se dê preferência a quem o afaga
quando acha bom fazê-lo; já o poste, pela sua materialidade, é prioritário.
Se houvesse como expressá-la, o cachorro
diria fútil a demarcação do território. Não que tema ser afrontado por outros
cães, diria abstrato o limite e cachorros não instituem topografias pelo viés
da política.
Como cães e homens não falam a mesma
língua, o cachorro cheira-o, urina nele, torna a cheirá-lo; assim o poste
mantém-se incontornável, inabalável no centro desta sua atenção.
A cães de todas as raças, vacinados ou
não, postes são cativantes. Cativos, todos os cães preferem dar aquela
mijadinha indispensável a mimosear fedorentos ocasionais com legítimas
lambidinhas.
Está sozinho outra vez. Pra não
aprofundar a sensação que tanto o desconforta, o homem abandonado vira-se. Tem
esperança, o cão está dando uma volta no quarteirão. Mas o bendito que o
preteriu não surge por nenhuma das esquinas.
Sem sabê-lo à frente ou às costas, posto
que o bicho danado sumiu de vez, o amargurado está perdido.
Quem sabe o que faz é o ciclista
desgraçadinho que passa tirando fina. Como se tivesse um sorvete pingando na
cabeça? Não está bem que corra, grite pra continuar veloz, pois voar na calçada
é demais.
Já que ninguém tem coragem de
censurá-lo:
ꟷ Vá pro inferno, anta!
Se a anta ciclista sequer olha pra trás,
quem gesticula e descarrega palavrões impublicáveis é o motorista do esportivo
conversível com fita verde-amarela adornando o espelho retrovisor.
Que saudade dos dias em que levava lenha
pra padaria.
Já que o mundo não roda ao contrário, sem
pau e sem porrete, cata bitucas do chão, acha-as nas floreiras, posa que fuma,
pois não precisa lamentar que ninguém dê atenção a esse estropiado velho.
A beleza do caos pode ser narcótica.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de novembro de 2022.