Tivesse
o cuidado pra aprender com os erros, é bem provável que me tornasse mais bailarino.
Capricharia sorrir lutando pra não franzir o canto esquerdo da boca, que é o meu
tique incontrolável quando estou pretensamente no ritmo. Contraditório,
confesso. Porém não sou você que talvez seja daquelas pessoas que sabem agir
como se não fossem capazes de esconder o jogo, uma vez que entendo que ficar
estudando sobrancelhas e coçadinhas de orelha é para quem tem muito a perder,
eu só tenho esta cara de pau ao valsar atravessando o compasso.
Se
estivesse pronto pra me encarar menos pilantra, trocaria o lenço no pescoço por
alguns escrúpulos mais bem apurados, ludibriando-me como um mestre que não pisa
na fulô nem quando chumbado.
Se
sentisse de mim a dó que tenho dos outros, não pagaria o pato que pago feito
mico, pois este traquina acha divertido gingar no poleiro que nem miquinho de
realejo.
Se
a sorte está lançada antes que seja lido o bilhete, canto a alegria de ficar atento
a quem acredita nas minhas competências pra estudar, refletir e refazer meus
passos. E ajo assim pra tornar-me sensível aos pedidos de mais paciência com
quem se dá conta que precisa de ajuda quando os demônios noturnos vêm abraçar no
instante em que se está roendo o osso que vai virar sabão.
Fatalmente,
é soda!
Como
vou pelo sol e pela chuva, dentro ou fora de casa, admito que prefiro cuidar de
passarinhos. Mas, os dos outros.
Gosto
de ser acordado de madrugada quando alguns engaiolados cantam que é uma
maravilha. São esses cantos que põem em mim um apaziguamento, um
entorpecimento, fico chapado que até me esqueço de que os bichinhos produzem a sua
música mais encantatória a troco de frutas, sementes e água.
Uma
beleza sem culpa, pois canários e curiós são apenas vítimas, seres naturais aos
quais não me cabe atribuir o poder de escolha.
Posso
escolher, e opino, quero-os voando pelo mundo.
Se
fosse de ir a concursos de canto, iria só pra agourar os criadores dos
campeões. Uma vez que a perversidade dos homens está sempre em querer mais e
mais prêmios? Ou serão somente maus os que não têm nem um pingo de vergonha
pelo que fazem nem sentem nenhuma compaixão pelos prisioneiros que mantêm?
Putisgrila,
nunca fui de competir pra valer.
Caso
soubesse sincronizar as pernas com o dançarino que perde o rebolado já sem
fôlego, emendaria Mamãe eu quero, Fio Maravilha e Aquarela do
Brasil como se no tobogã do Pacaembu a charanga que não toca mais seguisse
pondo fogo no coreto.
Ora,
ouvirei estrelas?
Fecho
os olhos quando percebo que estou improvisando sol e lua na manhã que trago em
mim.
Há
tanto universo à solta.
Prendo
a respiração. Desaprendo com a inspiração.
Não
mais que num repente, piro de vez, vibro de prazer, e desando a aplaudir quem desafina
quando bem quer.
Ave,
Pixinguinha. Ave, Coltrane.
Salve,
simpatia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 07 de outubro de 2021.