Era
pros meus pés sentirem mais que um certo alívio, perdeu-se a oportunidade. Houvesse
começado uma chuva daquelas, com ventos uivantes e raios tenebrosos, poderia
alegar medo, ou a inconveniência de andar sem guarda-chuva, capa ou galochas; descalço,
então, nem pensar, por conta da urina dos ratos e das fezes das baratas que
todo alagamento contém.
Era
pra espuma gelada ter causado algum impacto terapêutico em mim, mas os meus
olhos não gozaram sequer a vista do mar, maravilha que pude apenas imaginar nas
minhas plácidas contemplações.
Era
pra ter uma manhã tranquila, com as ondas do mar indo e vindo sem pressa, com
barquinhos navegando no horizonte azul pastel, com banhistas em roupas de
felicidade, só que o bendito do mundo decidiu fulminar os meus planos, e foi de
vez, de uma única e impiedosa vez.
Arrepiado,
enervado, tiritando de ódio ꟷ eu ri de tanta desgraça.
A
água pela canela brotava do ralo entupido da lavanderia. O sabão servia pros
deslizamentos desencontrados a cada passo. Era pra virar dançar um forró danado
ao som de um metal furibundo que a vida fez de ficar de birra comigo.
Pingando
suor, enxugava gelo, que o esgoto era esperto o bastante pra progredir
geometricamente.
Um
oceano de sal veio à ponta da língua, escarrei-o com gosto. Foi descarregando
um turbilhão de impropérios que dei conta do recado.
Feita
a lição de casa, o universo escutasse o surdo rancor que em minha alma pulsava manhoso.
Qual
o quê!
Querendo
uma ducha rápida pra tirar o bodum da cândida, cruzou a minha frente uma barata
ligeirinha. De chinelo na mão, os olhos atrás do bicho, que o inseto sofresse uma
morte rápida, ou quase isso.
Quase
nada.
Tonto
pelo súbito rodopio, bati o cotovelo na porta do box. Se a dor era grande, o
estrondo do vidro estilhaçando-se contra o chão foi muito mais impressionante.
Pelo
rugido, cedi ao susto. A planta do pé retirou o apoio, tomei um tombaço dos
mais ridículos, que até os meus óculos estilhaçaram em igual medida ꟷ nos cacos,
e não no estampido.
Ora
essa. Longe de mim ter lamentações medíocres.
A
realidade podia achar engraçado tirar de mim a leveza do espírito, todavia o
negócio comigo iria acabar saindo caro, uma nota.
Sempre
dou razão à cabeça para me irritar com o mundo na mesma moeda. Se socaria o
tronco da laranjeira para abespinhar as abelhas? Socaria. Se beberia cerveja para
atiçar o fogo que minha casa adorável ateou no meu cérebro de mentecapto? Verteria
o Atlântico. Se não me canso de saber que a vida não está pra brincadeira? Nem
brinco.
Em
sua reflexiva leitura, você talvez esteja alimentando a robalo um tubarão
ético:
ꟷ
Será só isso?
Que
a fortuna siga com o seu canto de festança infinita, porque, ao fim e ao cabo, a
minha lírica embriaguez ganhará de mim a maior das honrarias: juro não tirar
dos joelhos nenhuma política da sobriedade.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 12 de setembro de 2021.